Há sete meses que quase não chove no Algarve e a seca é extrema

Autarcas reivindicam a construção de uma nova barragem. A empresa Águas do Algarve garante que até final do ano não faltará água nas torneiras.

Odeleite é uma das barragens algarvias
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Odeleite é uma das barragens algarvias Adriano Miranda / PUBLICO

Metade do Algarve, o sotavento, encontra-se em situação de “seca extrema” e a outra parte para lá caminha, está em “seca severa”. No mapa da gestão das Bacias Hidrográficas do Algarve, os furos que regam os golfes de Vale do Lobo já estão sinalizados com um triângulo a “vermelho”. A situação não é inédita, mas este ano a região algarvia está a ser particularmente atingida por uma aridez que faz temer o pior: os cortes no abastecimento ao sector agrícola

O ano hidrológico começou há um mês, mas a chuva não aparece. Por enquanto, dizem os agricultores, são só promessas, já desesperados por há sete meses quase não chover. O céu aparece carregado de nuvens de vez em quando, mas S. Pedro não abre a torneira. O Verão entrou pelo Outono adentro e vai deixando um rasto de tristeza nos campos. As ribeiras estão quase todas secas e a vida aquática morreu. A zona mais atingida é o nordeste algarvio, nos concelhos de Castro Marim e Alcoutim.

Porém, a parte central do Algarve sofre um outro tipo de problemas: a contaminação dos solos e das águas. “A massa de água das campinas de Faro está em muito mau estado”, destaca José Paulo Monteiro, investigador da Universidade do Algarve, explicando que existe uma “sobreexploração” no lado ocidental do aquífero Vale do Lobo/Almancil. Na parte oriental, nas antigas hortas de Faro, “continua a existir o problema dos nitratos”, derivados da agricultura intensiva ali praticada durante décadas sem regras.

O nível das barragens da região, de acordo com os dados divulgados pela Agência Portuguesa de Ambiente (APA), encontra-se a 37,1% da capacidade máxima de armazenamento. Mas, “mesmo que não chova até final do ano, não haverá problema no abastecimento às populações”, garante a porta-voz da empresa Águas do Algarve, Teresa Fernandes, mostrando a convicção de que o “Governo tomará medidas” caso a situação venha a piorar. Uma das soluções, admite, “pode passar pelos cortes à agricultura, foi o que se fez em 2005 [ano da grande seca]. A prioridade é o consumo humano”, sublinha.

Entretanto, a empresa (pertencente ao grupo Águas de Portugal) está a utilizar também os furos artesianos do aquífero Querença/Silves para complementar o abastecimento às populações, essencialmente garantido pelo sistema de barragens.

Perante os vários cenários que se colocam para garantir o futuro da região – dependente do turismo mas cobiçada, igualmente, para o desenvolvimento de novas culturas de regadio – coloca-se uma questão: o Algarve necessita de uma nova barragem? O presidente da Câmara de São Brás de Alportel, Vítor Guerreiro, não tem dúvidas. “É uma infra-estrutura absolutamente necessária, constitui uma reserva estratégica.” O autarca, socialista, vai levar nesta terça-feira à reunião do executivo uma moção para que seja retomado o projecto da “construção de uma barragem na zona central do Algarve”.

Por mais uma barragem

A discussão arrasta-se há quase 40 anos. Em 1981, recorda, foi apresentado o estudo prévio para a construção da barragem do Monte da Ribeira (ou do Alportel) na zona central da região. Se a obra tivesse avançado, observa, “provavelmente, não haveria a contaminação dos solos das campinas de Faro”. Além disso, argumenta, com a ocorrência de fenómenos extremos cada vez mais frequente, “a barragem iria permitir o controlo sobre as cheias e inundações na ribeira do Alportel/rio Gilão (Tavira)”. A assembleia municipal já aprovou por unanimidade uma moção a defender a “imperativa necessidade de reforçar a capacidade de armazenamento hídrico do Algarve”.

Já os autarcas do Sotavento reivindicam a construção da Barragem da Foupana, que passaria a integrar o sistema Odeleite/Beliche. O ex-Instituto da Água, há mais de duas dezenas de anos, chegou a desenvolver os primeiros estudos, prevendo-se que esta poderia vir a ter uma capacidade para armazenar 100 milhões de metros cúbicos. “Mas só nos lembramos da falta de água, em anos de seca”, comenta Vítor Guerreiro, para quem é igual “construir uma barragem na ribeira do Alportel ou na Foupana, o importante é que seja feita uma obra que garanta o futuro da região”.

Mas José Paulo Monteiro faz um alerta: “Os rios não podem ficar todos domesticados.” O sector da água, lembra o hidrogeólogo, é “muito conservador e gosta das soluções testadas há séculos, como é o caso das barragens”. Porém, uma gestão correcta dos recursos, sublinha, “pode passar pela recarga artificial dos aquíferos, com os efluentes tratados, à semelhança do que se faz em Madrid, Barcelona ou Israel”. A nova Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) Faro/Olhão, por exemplo, lança na ria Formosa 40 milhões de hectómetros de esgoto sem qualquer aproveitamento. Do ponto de vista científico, diz o especialista, “estas questões são estudadas há muito tempo mas não fazem ainda parte das soluções da estratégia nacional da gestão da água”.

No plano imediato, para minimizar os efeitos da seca extrema, a empresa Águas do Algarve, informa Teresa Fernandes, está a “equacionar a possibilidade de reutilização das águas residuais” para regas e limpezas de ruas. Segundo a empresa, o consumo humano gasta, em média, por ano, 73 milhões de metros de cúbicos e mais de metade desse volume é desperdiçado.

Neste momento, apenas dois campos de golfe reciclam a água para rega: o dos Salgados e um da Quinta do Lago, de forma parcial.