Opinião

Salvar a Fundação Mário Soares

Não duvido das dificuldades com as quais se confronta a Fundação Mário Soares. Mas a responsabilidade dos seus actuais dirigentes, no sentido de ser encontrada uma solução que preserve o futuro da instituição, é inegável.

Foi com enorme satisfação que tomei conhecimento, na terça-feira, 29 de Outubro, da atribuição do Prémio Fundação Mário Soares (FMS) ao investigador Pedro Miguel Marques Gomes pelo trabalho que desenvolveu com vista à elaboração de uma tese de doutoramento em História intitulada “Jornais, Jornalistas e Poder: a imprensa que nasce na Revolução e as lutas políticas de 1975”.

E concluí: ou a Fundação retomou a sua actividade ou a atribuição do referido prémio não é mais do que o protelamento de uma decisão aparentemente inexorável – a de encerrar uma instituição, criada em Setembro de 1991, que se tornou fonte imprescindível para todos aqueles que se interessam por temas ligados à história contemporânea de Portugal, em particular, à 1.ª República, à resistência anti-salazarista e à Guerra Colonial.

É que, desde a morte do seu fundador, aqueles dois prédios da Rua de São Bento, sede da FMS, apresentam um aspecto desolador. Nem mais um colóquio. Nem mais a edição de um livro. Nem mais uma exposição. Nada. A não ser salas assustadoramente vazias, escadarias que poucos utilizam, livros emprateleirados onde raramente se toca. E um auditório, por onde passaram tantas figuras da intelectualidade portuguesa e estrangeira, estranhamente silenciado.

Argumenta-se que, com o falecimento de Mário Soares, os apoios financeiros caíram a pique: em 2017, o montante global de subsídios passou de 316.000 para 175.000 euros (PÚBLICO de 1 de Dezembro de 2018). O BPI, um dos principais patrocinadores, terá deixado de contribuir logo que a maioria esmagadora do seu capital social foi adquirida pelo grupo espanhol CaixaBank.

Os despedimentos sucederam-se em cascata, do mais modesto funcionário ao responsável pelos arquivos da Fundação, Alfredo Caldeira. Resta um núcleo de indefectíveis como Osita, antiga secretária de Mário Soares, cuja disponibilidade e optimismo todos os utentes da FMS reconhecem. Interrogada sobre o estado da instituição à qual dedicou grande parte da sua vida, esconde qualquer eventual preocupação e responde, discretamente, que a Fundação está em reestruturação e que, lá para o princípio do próximo ano, as coisas entrarão no seu ritmo normal.

O certo é que a digitalização dos arquivos, iniciada em 1997, parou. A negociação de novas parcerias, à semelhança das que a Fundação FMS celebrou com organismos congéneres de Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor, está suspensa. Mesmo a tentativa de angariar novos apoios não constituirá, actualmente, uma prioridade.

A dada altura surgiu, como hipótese de solução, a transferência de todo o espólio da Fundação para a Torre do Tombo. Hipótese que, felizmente, não se concretizou. Em primeiro lugar, porque tal transferência retiraria sentido à própria existência da Fundação. Em segundo lugar, e como sublinhou Pacheco Pereira (PÚBLICO, 8 de Dezembro de 2018), porque ela comportaria os riscos inerentes à concentração de arquivos em instituições “que não têm os recursos, nem muitas vezes a sensibilidade para valorizar determinados espólios que exigem uma especialização de ‘olhar’, como é o caso de alguns espólios que para um grande arquivo parecem menores e pouco interessantes”. Enfim, em terceiro lugar, porque cerca de 90% dos arquivos da FMS estão ali em depósito, isto é, a sua transferência implicaria a autorização, caso a caso, dos respectivos proprietários.

Para além de vastíssima documentação relativa à vida sindical assim como à génese e evolução de numerosos partidos políticos socialistas, sociais-democratas e comunistas, em particular europeus, encontram-se, na Fundação Mário Soares, fundos documentais de vultos da 1.ª República, como Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel Teixeira Gomes; de antifascistas, como Bento de Jesus Caraça, Carvalhão Duarte, Teófilo Carvalho dos Santos; de líderes nacionalistas africanos, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Arménio Ferreira; de fundadores e dirigentes do Partido Socialista, como Jorge Campinos, Francisco Ramos da Costa, Joaquim Catanho de Menezes, Mário Sottomayor Cardia; de activistas políticos e figuras marcantes da cultura portuguesa, como João Bénard da Costa, Sophia de Mello Breyner, Felicidade Alves.

Por isso, esteja ela em letargia ou moribunda, chegam diariamente à Fundação pedidos e mais pedidos de documentação, provenientes das mais longínquas paragens e assinados pelas mais diversas entidades. Por isso, a plataforma “Casa Comum”, que disponibiliza a parte do espólio já digitalizada, é largamente visitada.

Não duvido das dificuldades com as quais se confronta a Fundação Mário Soares. Mas a responsabilidade dos seus actuais dirigentes, no sentido de ser encontrada uma solução que preserve o futuro da instituição, é inegável. Sob pena de verem os seus nomes associados à liquidação de uma organização ímpar em Portugal. De traírem a confiança de todos aqueles que nela depositaram documentos de inestimável valor. De traírem a última vontade daquele que sonhou com a criação de um lugar que funcionasse como esteio do pensamento democrático.

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