Quase 30 anos depois, reencontrado pequeno “veado” do Vietname

O trágulo-do-vietname tinha sido registado pela última vez em 1990. Devido à caça e à desflorestação, temia-se que a espécie pudesse estar extinta. O seu ressurgimento é um sinal de esperança para a conservação da natureza.

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Trágulo-do-vietname (Tragulus versicolor) captado por uma câmara em Maio de 2018 Andrew Ziller
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Dois trágulos-do-vietname captados por uma câmara em Junho de 2018 Andrew Ziller

As montanhas Anamitas – entre o Laos, o Vietname e o Camboja – guardam um dos complexos ecológicos mais preciosos do mundo. A área encontra-se revestida por uma densa floresta tropical que se estende até às regiões costeiras e que resistiu à última Idade do Gelo na Terra, que terminou há cerca de 12 mil anos. Por essa razão, o vasto ecossistema tornou-se num “refúgio evolutivo”, que desencadeou, na actualidade, uma das maiores concentrações de espécies endémicas de mamíferos a nível continental. O trágulo-do-vietname – ou Tragulus versicolor – é uma das espécies mais raras.

Ao todo, existem dez espécies de trágulos no mundo e a maioria vive na Ásia. O trágulo-do-vietname habita as zonas costeiras e distingue-se pela sua pelagem única, que se divide em duas cores. A cabeça e metade do corpo têm a cor castanha, semelhante à de um veado. Em contraste, os pêlos da parte de trás do corpo são cinzentos e têm as pontas brancas, o que lhes confere um aspecto grisalho. A mancha branca do ventre abrange a zona da garganta, onde existem duas riscas castanhas que convergem, mas não se tocam. O conjunto destas características permite distinguir o trágulo-do-vietname do trágulo-pequeno. Este último é o mais abundante no Vietname e distribui-se por todo o Sudeste asiático.

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Floresta tropical na costa do Vietname, o habitat do trágulo-do-vietname An Nguyen

Até agora, o trágulo-do-vietname foi avistado em dois locais apenas. Em 1910, foi descrito pela primeira vez com base em quatro exemplares recolhidos perto da cidade de Nha Trang, no Sul do Vietname. Só voltou a ser registado em 1990, durante uma expedição liderada por cientistas do Instituto de Ecologia e Evolução da Academia Russa das Ciências. O animal tinha sido capturado por um caçador local em Gia Li, uma província na região centro do Vietname.

Nas últimas décadas, a desflorestação e a caça levaram ao declínio das populações de ungulados no Vietname. Este grupo de animais é constituído pelos mamíferos que possuem cascos, como os veados, os antílopes ou os rinocerontes. “O trágulo-do-vietname é um tipo de ungulado muito próximo do veado”, explica ao PÚBLICO Andrew Ziller, investigador da organização Conservação Global da Vida Selvagem (EUA) e do Instituto Leibniz para a Investigação em Vida Animal e Selvagem (Alemanha). Os trágulos têm aproximadamente o tamanho de um coelho e são, com efeito, os ungulados mais pequenos do mundo.

A partir do início da década de 1990, a caça intensificou-se. Apesar de a prática ser ilegal, várias espécies continuam a ser caçadas, para fornecer o mercado da carne selvagem na região da Indochina. Entre os métodos mais utilizados pelos caçadores, estão armadilhas caseiras feitas com arame, que afectam indiscriminadamente os mamíferos da zona das Anamitas. Esta prática quase levou à extinção a saola, ungulado idêntico ao antílope que foi descoberto no Vietname em 1992.

Como não havia nenhum registo do trágulo-do-vietname desde 1990, temia-se que o mamífero estivesse já extinto devido à caça e à desflorestação. Uma equipa de cientistas liderada por Andrew Ziller decidiu, por isso, procurá-lo. Os resultados da investigação são publicados esta segunda-feira na revista Nature Ecology & Evolution. “Sabia-se muito pouco sobre a ecologia, a distribuição e o estatuto de conservação do trágulo-do-vietname”, afirma Andrew Ziller.

Entrevistas aos habitantes locais

Com o objectivo de recolher informação sobre a ocorrência do trágulo-do-vietname, a equipa entrevistou caçadores, traficantes de espécies e guardas florestais em áreas adjacentes à cidade de Nha Trang. Andrew Ziller admite que “muitas vezes, os habitantes conhecem melhor a biodiversidade local do que um biólogo”. Das 35 pessoas entrevistadas, seis afirmaram ter observado dois tipos de trágulos, um deles com as características do trágulo-do-vietname. O passo seguinte foi colocar mais de 30 câmaras activadas pelo movimento numa área florestal onde os entrevistados referiram ter avistado o trágulo-do-vietname (o local exacto não foi divulgado para proteger a espécie).

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Colocação de câmara na floresta Andrew Tilker

“Não sabíamos o que esperar”, recorda An Nguyen, o primeiro autor do estudo e membro da Conservação Global da Vida Selvagem, citado em comunicado da instituição. Entre Novembro de 2017 e Julho de 2018, metade das câmaras captou 1881 imagens do trágulo-do-vietname, não se sabendo ainda de quantos indivíduos são. “Fiquei muito feliz quando verificámos as câmaras e vimos fotografias de um trágulo com os flancos prateados”, regozija-se An Nguyen.  Hoang Minh Duc, outro dos autores do estudo e investigador da Academia Vietnamita de Ciência e Tecnologia, destaca que “a redescoberta do trágulo-do-vietname traz muita esperança para a conservação da biodiversidade no Vietname, em especial das espécies ameaçadas”.

Os dados que existem sobre o trágulo-do-vietname têm sido insuficientes para lhe atribuir um estatuto de conservação na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). “O próximo passo é perceber melhor a distribuição da espécie, o tamanho das populações e quais as principais ameaças que enfrenta”, indica Andrew Ziller. “Durante muito tempo, o trágulo-do-vietname existiu apenas na nossa imaginação. Descobrir que ainda anda por aí é o primeiro passo para assegurar que não o perdemos outra vez”, lembra An Nguyen. “Estamos a tentar despachar-nos para perceber qual é a melhor forma de o proteger.”

Texto editado por Teresa Firmino