Forças Armadas da Bolívia exigem demissão de Evo Morales

Auditoria da OEA às eleições presidenciais encontrou irregularidades “muito graves” durante a contagem dos votos. Houve mesas de voto a dar 100% a Morales.

Evo Morales é Presidente da Bolívia desde 2006
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Evo Morales é Presidente da Bolívia desde 2006 EPA/STR

As Forças Armadas da Bolívia exigiram a demissão do Presidente, Evo Morales. Numa declaração ao país, o general William Kaliman, chefe do aparelho militar, pediu ao Presidente que tome a decisão “a bem do país”.

A exigência surgiu horas depois de Morales anunciar que ia mandar repetir as eleições presidenciais, depois de um relatório da Organização de Estados Americanos (OEA) ter apurado a existência de irregularidades durante a contagem dos votos a 20 de Outubro.

"Depois de analisar a situação de conflito interno, pedimos ao Presidente que renuncie ao seu mandato presidencial permitindo a pacificação e mantendo a estabilidade, a bem da nossa Bolívia”, disse o chefe do Estado Maior das Forças Armadas.

Em conferência de imprensa este domingo, Morales não mencionou as conclusões da OEA, mas anunciou a marcação de novas eleições e a substituição dos elementos do Tribunal Superior Eleitoral. “Nas próximas horas, a Assembleia Legislativa Plurinacional, de acordo com todas as forças políticas, irá estabelecer os procedimentos” das novas eleições, cuja data não foi revelada, disse o Presidente.

Há várias semanas que a Bolívia é palco de violentos confrontos quase diários entre grupos anti-governamentais e pró-Morales. Os protestos começaram depois de ter sido anunciada a vitória de Morales, que está no poder desde 2006, nas eleições presidenciais de 20 de Outubro. Na noite eleitoral, a contagem dos votos foi interrompida durante várias horas, numa altura em que o mais certo parecia ser a realização de uma segunda volta.

A forma como decorreu o processo levou o adversário de Morales, Carlos Mesa, a não reconhecer a sua reeleição e a convocar manifestações em todo o país. Pelo menos três pessoas morreram durante os confrontos. O Presidente acusou a oposição de estar a tentar afastá-lo através de um golpe de Estado.

Este fim-de-semana, as forças policiais de várias regiões juntaram-se aos protestos para pedir a demissão de Morales.

Na sua declaração, Morales rejeitou demitir-se antes do final do seu mandato actual, a 22 de Janeiro do próximo ano, mas também não clarificou se ia ser candidato às novas eleições. “Não é preciso falar de candidatos nem de sucessão presidencial, não continuemos a desestabilizar”, afirmou.

Irregularidades “muito graves"

Apesar do recuo de Morales, a desconfiança no processo eleitoral está ao rubro. Os seus opositores exigem a sua renúncia imediata ao cargo antes da repetição das eleições. “Se tem uma pinga de patriotismo devia afastar-se”, declarou Mesa. O candidato presidencial disse que o Governo “não está capacitado para dirigir” as próximas eleições e rejeitou a hipótese de Morales ou o seu vice, Álvaro García Linera, se voltarem a apresentar como candidatos.

Luis Fernando Camacho, que tem liderado os protestos anti-governamentais, também exigiu a saída de Morales e disse que o relatório da OEA comprova que existiu “fraude” nas eleições.

A OEA anunciou este domingo as conclusões preliminares da sua auditoria às eleições nas quais verificou irregularidades “muito graves”. “Tendo em conta as projecções estatísticas, mostra que é possível que o candidato Morales tenha ficado em primeiro lugar e o candidato Mesa em segundo. No entanto, é improvável estatisticamente que Morales tenha obtido uma diferença de 10% para evitar uma segunda volta”, concluem os especialistas, citados pelo jornal boliviano La Razón.

A lei eleitoral boliviana determina que para um candidato presidencial ser eleito à primeira volta é necessário que obtenha mais de 50% dos votos ou então que tenha uma vantagem de pelo menos dez pontos face ao adversário mais próximo. Os resultados oficiais atribuíram 46,8% a Morales e 36,75% a Mesa.

A OEA analisou 333 actas de mesas de voto e encontrou irregularidades em 78 delas, algumas das quais apresentavam vitórias de 100% de Morales “e nem sequer havia sido indicado o zero no campo correspondente aos votos dos partidos opositores”. Houve também mesas de voto com uma participação de 100%, “algo praticamente impossível”, sublinham os especialistas.

A equipa de monitores da OEA recusou validar os resultados e recomendou a repetição das eleições e a nomeação de novas autoridades eleitorais.

A popularidade de Morales tem sofrido vários reveses nos últimos anos. Na década passada chegou a ser um dos chefes de Estado sul-americanos com maior aprovação e tornou-se um dos expoentes máximos da vaga de líderes de esquerda latino-americanos que varreu o continente. Porém, a sua insistência em manter-se no cargo tem ameaçado esse capital.

Em 2016, Morales organizou um referendo para remover o limite de três mandatos presidenciais, de forma a garantir que se podia recandidatar – acabou por sair derrotado. No entanto, decisões judiciais permitiram que se voltasse a apresentar a eleições, motivando fortes críticas da oposição que se mantêm até hoje.