Melilla, a Espanha africana

O leitor Miguel Silva Machado partilha a sua experiência na cidade espanhola.

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Palacio de la Asemblea, na Praça de Espanha Miguel Silva Machado
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Igreja do Sagrado Coração de Jesus, na Praça Menéndez Pelayo, e conjunto escultórico dedicado a Cervantes Miguel Silva Machado
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A Cidade Velha, fortificação inexpugnável que nunca foi ocupada pelo inimigo. Miguel Silva Machado
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Praça Heróis de Espanha com o seu monumento cujo arquitecto também foi Enrique Nieto Nieto. Melilla tem rica história militar e muitos monumentos atestam várias campanhas, sobretudo no século XX Miguel Silva Machado
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O Porto de Melilla em primeiro plano com um ferry acostado, destacando-se à direita o Edifício do V Centenário da cidade que alberga serviços públicos e à esquerda as fortificações da Cidade Velha. Ao fundo, o molhe já é o porto de Nador (Marrocos) Miguel Silva Machado

Turismo aqui há pouco, só no Verão e são sobretudo espanhóis, diz-nos Tarik, taxista de Melilla, uma das duas cidades espanholas no Norte de África – Ceuta, a outra, é bem mais conhecida entre nós por razões históricas e de proximidade. Chegamos desde Málaga – 35 minutos de voo com a Air Nostrum/Ibéria – e do aeroporto até ao centro foram 15m de táxi. Pouco trânsito, mesmo que para Tarik o trânsito esteja muito mau, então nas horas de abertura e fecho das escolas…impossível. Não o contrariamos mas sorrimos.

Da varanda do espaçoso quarto no Parador com uma vista espectacular olhamos a cidade, logo ali a fronteira e Marrocos e percebemos que é mesmo pequena, são 12 Km2 e 85.000 habitantes – semelhante a Viana do Castelo. 

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As impressionantes muralhas da “Frente de Levante” da Cidade Velha viradas ao porto comercial e o Farol Miguel Silva Machado

Passeando pelo centro, o sentimento é o contrário do habitual para um turista, nós é que somos olhados pelos locais como curiosidade. A vida decorre pacatamente e não vi uma pessoa de máquina fotográfica em riste, excepto em Melilla la Vieja. É um enorme conjunto fortificado, junto ao porto, recuperado com apoios europeus, casario habitado em bom estado de conservação e vários pequenos museus, todos gratuitos. Entramos pela Puerta de San Fernando a partir da Plaza de las Cuatro Culturas e numa manhã visitamos: Arqueología e Historia; Etnográfico de las Culturas Amazigh, Gitana Y Sefardí; Ibáñez de Melilla (Arte moderna e contemporânea de Espanha); Histórico Militar e as enormes muralhas viradas ao Mediterrâneo. 

Saímos pela Puerta de La Marina, comemos umas tapas no Los Polillas e fomos andando até à Avenida Juan Carlos I, com muitas lojas, e depois entramos na Castelar para almoçar num dos restaurantes de peixe, nada caro, como nos tinha aconselhado no Parador Angeles Segura. Aqui o peixe é muito melhor que na Península e mais barato. Somos surpreendidos com uma “tradição” local, pedimos cerveja, encomendámos a refeição e como tapa (gratuita) vêm logo deliciosos peixes fritos! O almoço segue depois.

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Os bairros muçulmanos de Melilla, ao fundo, Marrocos. Miguel Silva Machado

Passamos pela Mesquita Central e pela Igreja do Sagrado Corazón, constatando que esta será uma das únicas cidades espanholas que não tem uma enorme catedral. Não deve ser por acaso e a mesquita também é bem discreta. Na baixa passamos pelo Parque Hernández, aproveitando a sombra das árvores exóticas, e andamos depois toda a tarde literalmente a olhar para as paredes! O chamado triangulo de Oro tem cerca de 70 edifícios estilo modernista que são uma das imagens de marca de Melilla. Depois de Barcelona, é a cidade espanhola com mais património deste tipo, muito pela obra do arquitecto Enrique Nieto Nieto (1880-1954), que trabalhou com Gaudí e aqui se estabeleceu em 1909. Muitos são os edifícios do seu punho, incluindo a mesquita e o espectacular Palacio de la Asemblea, estilo Art Deco.

Na Cidade Autónoma de Melilla não há IVA, nas facturas da hotelaria e restauração pagamos apenas “IPSI” de…2%, mas este imposto local tem taxas ainda mais baixas para outros serviços. Muitas mercadorias da Europa chegam ao porto, são desembarcadas e vendidas em Marrocos e daí, quem sabe, por toda a África. A maioria passando a fronteira no barrio chino, uma realidade dura de ver que mostra bem as tremendas diferenças entre a Europa e o que nos rodeia.   

Miguel Silva Machado