Sam The Kid amou, rimou, cantou e lutou no Coliseu do Porto

“Nunca cantei assim para tanta gente, é espectacular”, dizia o gaiato Samuel Mira, em 2002, no festival Paredes de Coura. Esta sexta-feira, no Coliseu do Porto, como há umas semanas atrás no de Lisboa, Sam the Kid teve uma sala esgotada e em apoteose.

Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido
Concerto de rock
Fotogaleria
Sam The Kid no Coliseu do Porto Nelson Garrido

Em 2012, numa noite de que provavelmente poucos se lembram, o Coliseu do Porto abria as portas para o Festival Vicious Hip-Hop, um evento então orgulhosamente apresentado como um gesto de ocupação de espaços solenes tradicionalmente não reservados ao género. Foi uma noite que colocou em palco veteranos e novatos, e Sam The Kid (STK), já então na condição de “clássico”, também esteve presente. A plateia do Coliseu estava semivazia, as galerias despidas, e a noite só não foi um flop graças à energia dos intérpretes. Sete anos depois, o mesmo STK, a solo, deixou o Coliseu portuense a rebentar pelas costuras (há muito que os bilhetes estavam esgotados), tal como o tinha feito há três semanas no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para um concerto de celebração dos 20 anos da edição do seu primeiro álbum Entre(tanto)

Com um público na sua esmagadora maioria na faixa dos 20-30 (o que trai um pouco, a bem dizer, a transversalidade do seu alcance, não deixando de ser surpreendente a ausência de público mais velho) e muitos grupos de mulheres desacompanhados de homens (coisa pouco comum até há uns anos em concertos de hip-hop), o concerto portuense seguiu o guião do apresentado em Lisboa, abrindo com o pai, Napoleão Mira (“descoberto” por muitos naquele seu lindíssimo poema enxertado em Pratica(mente)), em modo versejador seguido de A partir de agora, para terminar, duas horas depois, com Sendo assim, o seu último e aclamado single.

Não sendo o acompanhamento de hip-hop por uma formação de orquestra algo de todo inédito (alguns recordar-se-ão do espectáculo Hip-Hop Sinfónico, em 2009, na Casa da Música, sob a batuta do maestro e violonista alemão Miki), a verdade é que tal formato (orquestra de 24 elementos, com ênfase na secção de cordas, conduzidos por Pedro Moreira) teve, pelo menos, o condão de não transformar, como frequentemente sucede, a partitura original num objecto demasiado floral, solene ou épico, o que, por si só, é de louvar. O reverso da medalha esteve, porém, nos arranjos demasiado discretos, sem nervo ou especial rasgo (pedia-se outra frescura à secção de sopros, por exemplo), os quais, por vezes, se revelaram pouco ou nada significativos diante do resultado já produzido pela banda (Cruzfader nos pratos, Amaura e David Cruz nos coros, e compagnons de route dos Orelha Negra). 

Naquela que foi uma das primeiras noites de frio rigoroso no Porto neste Outono, a temperatura esteve sempre em bom nível no interior do Coliseu, embora a excessiva luz em palco (quiçá pela necessidade de iluminar a orquestra) tivesse traído o intimismo que, por mais do que uma vez, Sam reclamou para o espectáculo. Sempre muito directo ao assunto, como é seu apanágio em palco (em contraste com a sua postura em entrevistas), o rapper foi percorrendo o seu extenso repertório, mas, como já era de esperar, a retrospectiva ficou sempre curta – “Faltou a Beleza Interior”, ouvia-se lá fora no final, mas certamente que faltaram tantas outras.

STK brilhou na versão – esta sim – superiormente arranjada (mais teclas, mais jazzística) de Decisões, em PSP (onde se ouviu o áudio introdutório completo de Snake, de que até agora o ouvinte só conhecia a versão reduzida do álbum), Recado, Negociantes (em que, num momento da ordem quase do arrepiante, fez renascer Snake a rimar ali mesmo, em directo), ou Tu não sabes (percussões em grande nível), com resultados menos bons em À procura da perfeita repetição (irónico quando se trata de uma das suas malhas mais jazzísticas e orelhudas), ou Hereditário (o volume excessivo da batida abafou por completo a dimensão harmónica de uma das suas mais belas composições, que lamentavelmente perdeu recorte e definição).

TV Chelas e convidados

Com algumas camisolas com a inscrição “TV CHELAS” à vista (merch que entretanto STK criou a partir da sua plataforma online com o mesmo nome), o público respondeu com uma esmagadora energia ao som (que, embora ajustado aos graves do hip-hop e à voz do protagonista, pecou por demasiadas interferências), aos convidados que STK foi chamando ao palco (em especial, claro, o filho da terra Mundo Segundo, que esteve sempre no canto direito do palco a fazer segundas vozes) e aos áudios e vídeos que iam passando sem que o músico tivesse que dar grandes explicações – do seu avô aos três irmãos de armas que Sam já enterrou (Snake, GQ, Beto di Ghetto), todos conhecem já o seu imenso património afectivo, constituindo quase um acontecimento toda a vez que STK desvenda (sempre num registo lacónico e “revelatório”), nas redes sociais, mais um footage ou uma estória de tempos idos.

Se no público havia gente com o nome do bairro onde cresceu estampado, STK, por sua vez, apresentou-se com uma t-shirt onde as palavras “Ama”, “Rima”, “Canta”, “Luta” eram, como foram sempre na sua obra, quem mais ordenava – e foi isso mesmo que o Coliseu fez ao longo de duas horas cujo único momento de maior abrandamento se deu com o interlúdio reservado aos Orelha Negra (a poderosa Parte de mim contou com Aiam, antigo membro da histórica crew de breakdance Gaiolin Roots, a brilhar em palco).

Figura altamente carismática (cada entrevista sua é sempre um compêndio de emoção, cultura e, não menos importante, humor), raramente STK mostra o mesmo vigor em palco (longe da electricidade daquele seu famoso concerto, hoje disponível no YouTube, em Paredes de Coura em 2002), e isso notou-se também na noite de sexta-feira. O que se explica, como o próprio já confessou, pela ausência de GQ e Snake como seus camaradas de palco, mas também pelo espírito apesar de tudo reservado de alguém cujas emoções mais fundas se exprimem pela sua música e (quase) nunca de outro modo – e se fazemos o parêntesis é porque, no final apoteótico de Sendo assim, houve ali uns breves, secretos segundos em que STK, hirto, mudo, se comoveu.

Depois disso, depois da vénia, Samuel, o cachopo, despediu-se no seu registo habitual, sem direito a encore: “Xau aí, pessoal, até à próxima”.