O jazz de Antonio Sanchez é uma arma contra populismos e nacionalismos

O baterista mexicano, responsável pela banda sonora do filme Birdman, esteve no arranque do 28.º Guimarães Jazz a apresentar o novo álbum com os Migration, um dia depois do regresso apoteótico ao festival do saxofonista Charles Lloyd.

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Antonio Sanchez actuou com a banda Migration Guimarães Jazz 2019, CCVF, Júlia Fernandes
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Charles Lloyd regressou ao Vila Flor Guimarães Jazz 2019, CCVF, Júlia Fernandes

Dois britânicos, um norte-americano e uma norte-americana filha de emigrantes croatas conduzidos por um mexicano. São os Migration, banda do baterista Antonio Sanchez, que esta sexta-feira quis despertar consciências com o seu jazz interventivo e tecnicamente evoluído no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), no segundo dia da 28.ª edição do Guimarães Jazz. Na véspera, o saxofonista Charles Lloyd regressou à cidade por onde passou em 2010 para um concerto apoteótico, em formato de quinteto.

O baterista  também compositor da banda sonora do filme Birdman (2014), realizado por Alejandro González Iñárritu , quando desenhou este projecto em 2007, altura em que lançou o primeiro álbum neste formato, tinha uma ideia clara: criar composições tendo como pano de fundo todos os migrantes à força espalhados pelo mundo. Ele próprio é um emigrante, mas “privilegiado”, como referiu durante a actuação: saiu da Cidade do México para os Estados Unidos quando era jovem, mas por opção e entrando pela porta grande para mais tarde tocar com monstros do jazz como Pat Metheny, Michael Brecker ou Gary Burton.

Ao seu lado, no palco grande do CCVF, tinha uma espécie de bancada das Nações Unidas, com Chase Baird no saxofone e EWI (instrumento electrónico de sopro), John Escreet ao piano e num fender rhodes, Orlando Le Fleming no contrabaixo e Thana Alexa na voz e electrónica, oriundos de pontos diferentes do globo, para apresentarem o último disco, Lines in the Sand, editado este ano. Tocaram-no na integra e ainda sobrou tempo para um tema inédito, Gocta, um delírio tecnicista, mas ao mesmo tempo harmonioso, que começa no baixo e termina numa explosão de bateria desenfreada forrada a teclados sem correntes e vozes e sopros modulados.

Foi ao som de uma sirene da polícia e do tumulto de algumas vozes de protesto saídas do sistema de som que entraram em palco já debaixo de palmas para iniciarem uma viagem entre as vias mais amplas do jazz tradicional e os atalhos mais apertados, mas ao mesmo tempo mais surpreendentes, do jazz mais complexo. As composições de Sanchez são intrincadas e na maior parte das vezes pouco previsíveis. Existe nelas um diálogo constante entre a vocalista, que aproveita bem uma máquina de modulação de voz, e o saxofonista, que a ela se cola. As linhas de bateria, à excepção de passagens mais introspectivas, são quebra-cabeças de variações de tempo vertiginosos – o baterista serve-se de um kit tradicional ao qual se juntam duas tarolas extra, nalguns momentos a liderar. Porém, a peça ali apresentada funciona como uma espécie de banda sonora de um filme por realizar. ​É a única crítica negativa que pode ser apontada ao conjunto de temas do quinteto. Tecnicamente irrepreensível, é certo, torna-se difícil ligar o conceito às composições, à excepção de um momento em que o contrabaixista, que nalguns temas saltava para o baixo, usou um arco numa das músicas a remeter para o folclore irlandês, ou quando Thana Alexa, num registo mais spoken word, disse um poema em espanhol.

O compositor opta por não ser literal. Porém, não fossem os momentos em que se dirige ao público e o conceito podia perder-se. E é quando fala com a audiência que se desfazem as dúvidas. Sanchez fala por todos os migrantes para todos os que o ouvem. Parte do princípio de que quem ali está conhece a realidade à escala global dos migrantes e refugiados. Insiste em que talvez exista ainda apenas uma minoria sensibilizada para o tema. E sublinha que é urgente combater populismos e nacionalismos.

O tópico é pertinente, assim como a música que compõe, que sobreviveria sem qualquer conceito extra musical. É um deleite ver Sanchez manejar as baquetas. Com formação jazz, tem alma de roqueiro, não fosse Neil Peart, baterista de um nome maior do rock progressivo canadiano, os Rush, uma das suas maiores influências na adolescência. Isso reflecte-se na força como bate nas peles do instrumento que executa magistralmente, contrabalançando com a subtileza da escola musical à qual se dedicou. O poder de concentração de Sanchez para alternar entre tempos é sobre-humano. Em sintonia, o resto da banda segue milimetricamente as coordenadas. Bem acompanhado, muito contribuiu para uma abertura auspiciosa do festival vimaranense.

Charles Lloyd na sua sala de estar

Na quinta-feira, para abrir o festival, Charles Lloyd, 81 anos, regressou a Portugal, e a Guimarães, desta vez com os Kindred Spirits, quinteto composto Gerald Clayton (piano), Marvin Sewell (guitarra), Harish Raghavan (contrabaixo), e Eric Harland (bateria). E abriu-o da melhor forma. Com um pianista soberbo, um guitarrista e encostar-se ao blues e uma secção rítmica coesa, Lloyd fez do Grande Auditório do CCVF a sua casa, não só pela facilidade com que enfrenta o público, mas também pela forma como se move em cima do palco – parecia estar a tocar na sua sala de estar.

Generoso com os músicos que o acompanham, sem medo de ser ofuscado pelo protagonismo dos companheiros, parte de melodias simples ao saxofone (ou na flauta, no encore) para uma infinidade de possibilidades instrumentais, sem exageros onanistas, mas sempre exploratório e inventivo, garantindo tudo menos a monotonia.

Este ano sem interrupção entre os dois fins-de-semana alargados, o Guimarães Jazz prossegue com concertos diários até 16 de Novembro, acolhendo ainda, entre outros, o Joe Lovano Tapestry Trio (dia 13), Rudy Royston (dia 15) ou o Andrew Rathbun Large Ensemble (dia 16).

O PÚBLICO esteve no Guimarães Jazz a convite do festival