Estruturas do PSD-Porto não se envolvem no apoio a Rio

Distrital, concelhia e núcleo do partido assumem uma posição e neutralidade institucional relativamente ao presidente que vai a votos a 11 de Janeiro.

José Sócrates
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LUSA/JOÃO RELVAS

A dois meses das eleições directas para a liderança social-democrata, Rui Rio parte para a campanha interna sem o apoio das três principais estruturas do partido que lhe são próximas: a distrital do Porto, a concelhia e o núcleo ocidental do Porto, a que ele próprio pertence.

Esta semana, em reunião da comissão política alargada, a distrital aprovou uma posição de neutralidade institucional – que já era esperada , afastando qualquer apoio a Rui Rio na corrida à liderança do partido com o argumento de que há muitos anos que a estrutura, por tradição, não apoia qualquer candidatura.

A concelhia, liderada por Hugo Neto, ainda não tomou uma posição formal sobre o assunto  bem como o núcleo ocidental do Porto , mas a guerra que se abriu entre o líder concelhio e a direcção nacional por causa da lista de deputados à Assembleia da República não deixa margem para dúvidas. Os dois sociais-democratas  que já foram muito próximos – estão de costas voltadas e o plenário de militantes desta segunda-feira evidenciou o clima de grande tensão entre as tropas de Rio e de Neto.

Ao que o PÚBLICO apurou, Hugo Neto, que saiu da lista de deputados por vontade própria, por considerar que Rio se imiscuiu no processo da escolha dos candidatos, foi criticado no plenário pela entourage do líder nacional devido ao post que em Agosto publicou no Facebook. Aí assumiu a “desilusão” com Rui Rio, de quem disse não ter “rumo nem estratégia”. E defendeu que o líder tinha de sair depois das eleições de Outubro.

Os deputados Álvaro Almeida (que é também vereador na Câmara do Porto), Paulo Rios e Catarina Rocha Ferreira, que entraram na lista pela quota nacional, fizeram intervenções duras, censurando o comportamento do dirigente concelhio. Catarina Rocha Ferreira, que preside à Comissão Nacional de Auditoria Financeira do PSD, leu uma “declaração de repúdio” à liderança da concelhia, assinada por vários deputados, incluindo Hugo Carvalho, cabeça de lista do partido pelo Porto nas legislativas, autarcas e militantes.“(…) O sr. presidente da comissão política da secção do Porto, Hugo Neto, publicou deliberada e conscientemente, no seu Facebook um texto onde são proferidas opiniões, imputações e acusações  muito graves e que, obviamente, tiveram ampla repercussão na comunicação social, desde logo pelo facto de terem sido dirigidas ao presidente do partido. Este escrito é reprovável a todos os títulos pois foi difundido publicamente pelo mais alto responsável do PSD no concelho, em período pré-eleitoral”, diz a declaração.

No post, Hugo Neto insurgiu-se contra a decisão de Rui Rio e do seu núcleo duro por terem tirado férias “a meio de uma crise” política (por causa das listas de deputados). “A ausência total de PSD, durante duas longas semanas num período político crítico é inaceitável e apresenta um odor demasiado forte a uma incompetente arrogância para que eu me consiga manter calado. O PSD é mais do que isto”, escreveu.

O secretário-geral-adjunto do partido, Hugo Carneiro, que é apontado como um delfim de Rui Rio, demarcou-se do líder concelhio e demitiu-se de vogal da comissão política, no plenário, depois de ler uma carta na qual apontou os motivos pelos quais saía. Contactado pelo PÚBLICO, Hugo Carneiro recusou falar sobre o caso, alegando tratar-se de uma “questão interna” da concelhia.

Teresa Leal Coelho sem confiança política

Algumas das intervenções foram encaradas como uma pressão para “empurrar” Hugo Neto da liderança da concelhia, mas esse não parece ser o entendimento do antigo adjunto de Rui Rio, ao tempo em que este presidia à Câmara do Porto. Hugo Neto disse ao PÚBLICO não ver razões para deixar a liderança concelhia. “Considero que o meu contributo continua a ser algo de positivo para o PSD. O objectivo da secção do PSD-Porto é preparar as autárquicas de 2021 e, nesse contexto, não vejo razões para que essa questão seja colocada e não houve nenhum acto formal [moção de censura] para que o assunto fosse colocado”, justificou.

Em termos municipais, as águas laranja também andam agitadas, quer na capital, quer no Porto. Em Lisboa, a concelhia decidiu retirar a confiança política à vereadora Teresa Leal da Costa, por esta ter votado a favor da recondução, viabilizando-a, de Manuel Salgado na administração da Sociedade de Reabilitação Urbana, desrespeitando a orientação de voto do partido. Para Teresa Leal Coelho, a decisão da concelhia deve-se aos períodos conturbados, de “grande nervosismo interno”, que o PSD enfrenta.

No Porto, os deputados municipais do PSD dividiram-se na votação do orçamento da cidade. Três eleitos do PSD votaram contra o orçamento - Alberto Machado, Fernando Bravo e Fernando Carrapatos seguiram a indicação do grupo municipal - e três abstiveram-se - Pedro Duarte, Alberto Lima e Luís Osório.

Fonte social-democrata disse ao PÚBLICO que houve “desrespeito” pelas regras do partido, que tinha imposto disciplina de voto nesta matéria. A mesma fonte vê nesta votação um alinhamento com a candidatura de Luís Montenegro à presidência do partido. Pedro Duarte já assumiu o apoio à candidatura do antigo líder parlamentar. com Liliana Borges