Cidadãos sonhou alto, mas pode eclipsar-se nas eleições de domingo

Reorientação estratégica nos últimos meses provocou feridas e deixou marcas na credibilidade política e na liderança de Rivera. Partido enfrenta uma sangria de votos, à direita e ao centro nas eleições, que pode chegar a 60% dos apoios obtidos em Abril.

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Albert Rivera queria ser o líder da oposição há uns meses EPA/Juan Carlos Hidalgo

Sete meses depois de ter ficado a apenas 220 mil votos de distância do partido histórico da direita espanhola – o Partido Popular (PP) –, de ter logrado o seu melhor resultado de sempre numas legislativas (57 deputados) e de se ter encontrado numa posição privilegiada para entrar no Governo ou para o viabilizar a troco da adopção pelos socialistas de medidas programáticas por si escolhidas, o Cidadãos vai chegar às eleições de domingo com uma missão deprimente: evitar transformar-se na quinta força no Congresso espanhol e na terceira dentro do espectro político à direita.

As sondagens mais recentes atribuem números devastadores às intenções de voto no partido liberal, liderado por Albert Rivera. Os 57 deputados podem cair até 14 e os 15,9% de votos até 8,3%, segundo as projecções da empresa 40dB para o El País. E para além do Partido Socialista (PSOE), PP, Vox e Unidas Podemos perfilam-se para ficar à frente do Cidadãos – com a Esquerda Republicana Catalã (ERC) a morder-lhe os calcanhares.

Mas há mais: apenas 40% dos eleitores do Cidadãos na votação de Abril admite repetir o voto; 20,6% desses eleitores não sabe em quem vai votar; 14% quer migrar para a extrema-direita; 12,1% prefere o PP e 5,1% vai apostar no PSOE.

À boleia da estratégia extremada, num primeiro momento, e errática, numa segunda fase, de Rivera, o previsível eclipse do Cidadãos, num período tão curto, é trágico em todos os sentidos para um partido que, quando surgiu em 2006, era apontado por aliados e adversários como um projecto moderno, ambicioso e inovador, numa democracia há muito emparedada entre socialistas e populares, e na sua constante troca de papéis.

E numa eleição com muito poucas novidades, quando comparada com a anterior, a sua possível implosão acaba por ser o principal ponto de interesse da campanha. Ao mesmo tempo, adquire uma importância estratégica, uma vez que é no esvaziamento do Cidadãos que os restantes adversários esperam ir colher votos, para tentarem ultrapassar um bloqueio político sem fim à vista.

Partido “perfeito”?

Liberal, progressista e europeísta na sua origem, o partido tinha tudo para funcionar como facilitador entre PSOE e PP, negociando, exigindo e propondo políticas e programas consoante o grau de dependência de uns e de outros, e cimentando a sua posição de actor chave do arco da governação espanhola. Assumiu esse papel, aliás, quando Mariano Rajoy suplicava por uma investidura, em 2016.

“O Cidadãos era o partido perfeito: por ser o menos ideologizado, por ter nascido sem o pecado original da corrupção, por se identificar com o europeísmo e porque a sua idiossincrasia liberal (…) lhe conferia uma concepção inequívoca das liberdades individuais – como a eutanásia, a prostituição, a licença de maternidade ou o casamento gay”, descreve o jornalista e cronista Rubén Amón no El Confidencial.

“Era entendido como um projecto cosmopolita, regenerador, versátil, pragmático e constitucionalista, mas o enorme êxito das eleições de Abril – 4,1 milhões de votos – resultou numa crise de cegueira a partir da ponte do comando”, sublinha Amón.

Porque é impossível reflectir sobre o descalabro do Cidadãos retirando o seu líder da equação, quer por se tratar de um partido tão dependente e confundível com a sua figura máxima, quer pela estratégia controversa seguida por Rivera nos últimos meses. 

Tanto é que, pela primeira vez em 13 anos de liderança, o político catalão de 40 anos vê-se agora confrontado com a possibilidade de ter de apresentar a demissão se se confirmarem as piores expectativas das sondagens. “Estou na política porque me apaixona. Não me move o apego a uma qualquer cadeira ou cargo, mas a este país”, afiança, no entanto, o líder do Cidadãos.

Erros estratégicos

São muitos os erros estratégicos apontados a Albert Rivera: a guinada à direita na campanha para as últimas eleições; a aproximação política ao Vox na Andaluzia e noutras localidades; o extremar de posições sobre a crise catalã; o “cordão sanitário” que impôs ao PSOE; a insistência em querer ser o líder da oposição ou a incompatibilização – e o afastamento de alguns membros – com a ala liberal da direcção do partido.

“Todas as estratégias políticas têm custos, mas os custos da estratégia do Cidadãos são demasiado altos para Espanha”, lamentou Toni Roldán, ex-porta-voz económico dos liberais espanhóis no Congresso, e um dos que bateu com a porta em Junho. “Não saio porque mudei, saio porque o Cidadãos mudou”.

Na cúpula do partido, o apoio a Rivera está garantido, por enquanto. Mas também ali se admite que o líder calculou mal a sua margem de irredutibilidade perante um acordo com o PSOE – com quem conseguiria os deputados necessários para ter maioria parlamentar. 

Ao El País, membros da direcção do Cidadãos lamentam que Rivera não tenha acreditado que PSOE e Unidas Podemos poderiam falhar um acordo e que haveria repetição de eleições. Quando esse cenário se confirmou já era tarde de mais, dizem, e o eleitorado do partido acabou por “não entender nem a nega a Pedro Sánchez, nem a oferta de abstenção in extremis” a poucos dias do final do prazo para a convocação do quarto acto eleitoral em quatro anos e segundo em sete meses.

A impopularidade de Rivera – em tempos considerado um balão de oxigénio na arena política espanhola – acabou carimbada no debate televisivo de segunda-feira, tendo o liberal sido considerado o grande derrotado da noite por analistas, jornais, televisões e participantes de praticamente todos os inquéritos online sobre o evento.

Potencialmente mais grave do que isso e ainda que as urnas se mostrem incapazes ajudar a desbloquear o impasse político espanhol, o Cidadãos está na calha para ser o único dos cinco principais partidos a sair derrotado da noite eleitoral. 

O PSOE deve vencer as eleições, o PP prepara-se para ressuscitar politicamente, o Vox pode aumentar a sua representação e o Unidas Podemos deve manter-se como a principal voz à esquerda. Ao Cidadãos, que tanto teve, resta-lhe perder por pouco.