A casa onde Oliveira Ferreira esculpiu soldados vai ser requalificada

A Casa-Oficina José de Oliveira Ferreira é um marco na escultura em Vila Nova de Gaia. Manter este património activo é o principal objectivo da requalificação do edifício. Espera-se que a Casa esteja pronta em 2021.

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Maria Valente

A cidade de Gaia é considerada por muitos uma “escola de escultura” por ter grandes obras relacionadas com essa arte que ainda hoje perduram, como a Casa-Museu Teixeira Lopes. Com outros nomes a juntar a este património – Henrique Moreira, Joaquim Silva ou Fonseca Lapa –, “a passagem desta escola de escultura fez de Gaia uma cidade muito rica nessa arte”, afirma o secretário-geral da Associação Cultural Amigos de Gaia (ACAG), Artur Lopes Cardoso. Entre este “leque de escultura” da cidade surge a Casa-Oficina José de Oliveira Ferreira, que agora vai ser requalificada.

Esta Casa-Oficina fica na Avenida Vasco da Gama, em Miramar. Construída pelos irmãos José (escultor) e Francisco de Oliveira Ferreira (arquitecto), “respondia à necessidade de dispor de um espaço adequado à criação das peças escultóricas para o monumento da Guerra Peninsular, em Lisboa”, pode ler-se na edição n.º 86 do Boletim da ACAG. Isto porque os irmãos participaram num concurso a esse monumento, a construir na então Praça Mouzinho de Albuquerque, actual rotunda de Entrecampos, na capital portuguesa. Concurso em que obtiveram o primeiro lugar e atrás dessa obra veio a sua afirmação no meio artístico nacional.

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Maquete do projecto de requalificação da Casa-Oficina José de Oliveira Ferreira DR

A casa só ficou concluída depois do escultor falecer, em 1942, tomando o irmão, Francisco Oliveira Ferreira conta dela. Após a morte do arquitecto, o edifício passou para a posse de José Domingues de Almeida e mais tarde foi alugado pelo pintor Pedro Olaio, que viveu e trabalhou lá por muitos anos. Anos depois, a filha de José Domingues herdou a casa e achou por bem doá-la a uma instituição que defendesse e difundisse a cultura em Vila Nova de Gaia – a Associação Cultural Amigos de Gaia –, da qual era sócia. Assim, a 5 de Julho de 1983, a Associação ficou como proprietária da casa com o objectivo de a preservar e aproveitar como “pólo cultural do concelho”. Como ainda estava arrendada a Pedro Olaio, a casa só passou a ser oficialmente propriedade da associação depois do falecimento do pintor, no final de 1997.

Cerca de um ano depois, em Outubro de 1998, nascia o projecto de requalificação daquela que é conhecida como um dos marcos históricos da escultura portuguesa. A partir desse ano a Associação empenhou-se na procura de apoio financeiro para recuperar a casa-oficina até que, duas décadas depois, conseguiu que a Câmara Municipal de Gaia comparticipasse no custo das obras. O projecto “deve estar totalmente pronto em 2021 e ronda os 700 mil euros, dos quais 215 são financiados pela autarquia”, adiantou Natacha Reis, responsável pelo departamento de comunicação do município.

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A janela que caracteriza o edifício será para manter Maria Valente

Salvador Almeida, da ACAG, elogia a decisão camarária e sublinha a “oportunidade" que a autarquia está a proporcionar tanto à associação mas sobretudo a Gaia por “recuperar esta valência”. O objectivo é que o espaço tenha uma “gestão auto-sustentável, ou seja, tenha capacidade para pagar as contas, não obtendo nenhum interesse comercial no espaço.”

A associação garante que os elementos característicos do edifício, como a janela em forma de coração e a grande vitrina na parte frontal, serão mantidos. 

Na descrição do projecto surgem já pistas sobre algumas das actividades de dinamização que a associação quer implementar, nomeadamente a criação de uma pequena casa-museu de Oliveira Ferreira através do aproveitamento do que resta das obras que foram resgatadas e que se encontravam já em muito mau estado). A par disso, exposições de arte, lançamentos de obras literárias, espectáculos variados, oficinas de arte (escultura e pintura), conferências e outras actividades de interesse para a Associação e para a comunidade serão realizadas quando o projecto estiver finalizado. 

O edifício estará preparado para pessoas com mobilidade reduzida.

Texto editado por Ana Fernandes

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