Opinião

A Liga portuguesa é cada vez mais a Liga das nações

Podemos queixar-nos de já termos debatido o tema vezes sem conta e de estarmos permanentemente a bater na mesma tecla, mas o mais recente estudo do Observatório do Futebol (CIES) dá que pensar. No conjunto dos plantéis da I Liga portuguesa 2019-20, 63,6% dos jogadores são estrangeiros. Isso mesmo, 63,6%, a segunda maior percentagem entre os 31 países europeus analisados, só superada pelo modesto campeonato de Chipre (66,8%). Numa altura em que voltam a ser louvados os méritos da aposta na formação, muito por força do recente sucesso do Benfica, este é um murro no estômago que prova que a excepção (por maior magnitude que possa ter) não pode nunca fazer esquecer a regra.

De que maneira podemos aproveitar o talento português em benefício do futebol nacional? O que podemos fazer para evitar o desperdício e travar a elevada taxa de abandono da modalidade quando se ultrapassa o escalão júnior? Estas questões não só têm sido levantadas nos últimos anos, como têm merecido algumas respostas da parte da Liga (LPFP) e da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). A criação das equipas B foi uma delas, o recente lançamento do campeonato de sub23 seguiu-lhe as pisadas. Aparentemente, não chega.

Se é verdade que estas soluções se têm provado úteis ao oferecerem aos jogadores uma plataforma competitiva interessante, capaz de potenciar uma ponte mais duradoura com a equipa principal, também é certo que não têm demovido os dirigentes de se atirarem ao mercado com uma sofreguidão que parece não ter fim à vista. E isso explica por que razão Portugal coloca apenas 9,1% dos jogadores formados localmente nos plantéis da I Liga — é, de resto, o terceiro pior rácio da amostra.

Embalados pela rápida ascensão (e transferência) de alguns jovens valores nos últimos anos, desde André Silva a Gelson Martins, passando por Renato Sanches, Nelson Semedo ou pelo recordista João Félix, tendemos a esquecer o resto da realidade nacional. E o resto é praticamente tudo, no que a este estudo diz respeito.

No conjunto dos 18 clubes que formam a divisão de elite portuguesa, cada plantel conta, em média, com 27 jogadores, sendo que só dois emblemas apresentam uma maioria de portugueses: o Tondela (15 atletas) e o Belenenses SAD (14). Na causa desta realidade estão Marítimo e Portimonense (apenas cinco futebolistas nacionais), enquanto dois dos actuais quatro primeiros classificados, Famalicão e Sporting, registam valores igualmente pobres (seis) — o FC Porto contabiliza 10 e o Benfica 12.

Recentemente, Silas, mesmo com todos os contratempos que enfrenta em Alvalade, pôs o dedo na ferida. “Temos de ser valentes e apostar em jovens jogadores, mas é preciso tempo e paciência. Os jovens merecem oportunidades. Se não corresponderem não se pode tirá-los logo e encostá-los”.

Salvo honrosas excepções, é mais ou menos isso que tem acontecido e basta olhar para os números de há cerca de uma década para concluirmos que o cenário se agravou. Em 2008, de acordo com um outro estudo do CIES, validado pela UEFA, Portugal já ocupava um confrangedor segundo lugar no ranking do número de futebolistas estrangeiros (53,7%), então só superado por Inglaterra (59,1%). Mas enquanto a Premier League baixou ligeiramente a sua exposição ao mercado estrangeiro (hoje está nos 57,9%), a Liga portuguesa cresceu uns inimagináveis 10 pontos percentuais.

Continua a ser defensável, do ponto de vista do rendimento imediato, a procura de activos já “prontos a usar” e este exemplo utilizado, há uns anos, por Vítor Pereira, é elucidativo: “Quando vi o James Rodríguez pela primeira vez fiquei encantado. Como é que um jogador aos 19 anos tem tamanha maturidade e qualidade? A formação demora muito mais e dá muito mais trabalho”. Mas a verdade é que o caso do colombiano é a excepção que confirma a regra.

A regra que nos diz que a diferença de qualidade entre o jogador português e o estrangeiro, na maioria dos casos, dificilmente justifica o investimento extra-muros, com todas as condicionantes de adaptação que acarreta. E que nos leva a questionar se não estamos a puxar o tapete ao talento doméstico já com a meta à vista.