Os leitores de amanhã devem ser “mais capazes, mais sérios e mais seguros quando agarram um jornal”

Já está online o novo site do PÚBLICO na Escola. A apresentação da nova edição do projecto teve lugar no auditório do jornal, em Lisboa, com a presença do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues.

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O Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, considera ser fundamental apostar na literacia mediática
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A jornalista Bárbara Simões, uma das coordenadoras do novo PÚBLICO na Escola
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A professora Luísa Gonçalves é uma das responsáveis pela nova fase do projecto
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O investigador Manuel Pinto foi o primeiro coordenador do projecto PÚBLICO na Escola
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O ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e o director do PÚBLICO, Manuel Carvalho
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“Notícias falsas” é um “paradoxismo que jamais podemos estar cómodos a utilizar”, afirmou o Ministro da Educação no relançamento do projecto PÚBLICO na Escola, que teve lugar na terça-feira, na redacção do jornal em Lisboa.

O projecto de educação para os media que nasceu com o PÚBLICO e funcionou durante mais de duas décadas regressa com foco numa nova plataforma online, mantendo as suas marcas distintivas: os recursos pedagógicos para trabalhar com notícias em sala de aula e o concurso nacional de jornais escolares, que terá o regulamento para este ano lectivo publicado em breve.

O director do PÚBLICO, Manuel Carvalho, abriu a sessão felicitando o arranque dos trabalhos para “finalmente começar a comunicar com as escolas, com os pais e professores”, num projecto em parceria com o Ministério da Educação e a Fundação Belmiro de Azevedo.

Sorrisos se abriram quando Tiago Brandão Rodrigues começou a citar o texto de uma aluna que, na edição do concurso de jornais escolares de 2002/2003, escrevia sobre “o futuro do jornal”: “Por volta do ano 4039 já existirá um aparelho de inúmeras funções. Uma dessas funções será a leitura de jornais. Pagar-se-á mensalmente pelo multibanco jornais a que se quer ter acesso e poderemos ler pelo visor do aparelho sempre que quisermos. Seleccionamos a secção que desejamos — nacional, internacional, opinião, cultura, utilidades, etc — e as notícias aparecem sob a forma de texto, fotos e pequenos vídeos. Este método revolucionará por completo o conceito da informação.”

“Em 4039, imaginem”, brincou o governante, que também recordou o jornal A Cábula, que fundou no 7.º ano, afirma, à revelia da direcção da direcção da escola (que desgostava do título), uma experiência que diz ter-lhe ensinado “o quão importante é para uma comunidade escolar ter uma forma de comunicar, de dizer aquilo que tantas vezes é incómodo”. Um espaço, também, para dizer o que “muita gente pensa que os outros sabem, mas que afinal não sabem, ou sabem com um prisma diferente, de forma não esclarecida e não sistematizada”.

Apostar na literacia mediática, afirma Tiago Brandão Rodrigues, poderá permitir que os “leitores de amanhã possam ser os mais capazes, os mais sérios e os mais seguros quando agarram um jornal”, para que possam fazer “escolhas informadas”, compreender a natureza dos diversos conteúdos do jornal e, “acima de tudo, para tirarem partido das oportunidades”. Entender o mundo através dos outros, diz o governante, “é algo que na Babel do tempo [das nossas avós] era diferente do que é na Babel do nosso tempo”, mais confusa e cheia de gadgets, tecnologia, redes e aplicações, em que “quase tudo acaba por se equiparar, relativizar, equivaler”.

“Fazer jornais vivos”

Manuel Pinto, professor da Universidade do Minho que foi, há 30 anos, mentor do lançamento do PÚBLICO na Escola, sublinhou a importância de aprender a interpretar e a ler criticamente um mundo “complexo, tantas vezes de tanta informação em que temos dificuldade em nos orientarmos”. Recorda o concurso nacional de jornais escolares que “marcou muitos jovens, muitas escolas”, sublinhando um desafio que se mantém “independentemente de haver concursos ou não”: “dar voz aos jovens” e “fazer jornais vivos, que ousem em terrenos nos quais temos medo enquanto adultos”. 

O antigo provedor dos leitores do Jornal de Notícias traçou, ainda, a relação entre a literacia mediática e a prática de direitos constitucionais, desde logo a capacidade de descodificar a informação e compreender questões como “quem decide o que é notícia e o que não é”, ou seja, conhecer o papel de mediação desempenhado pelos jornalistas. Salienta que o direito de informar, o direito de informar-se e o direito a ser informado “são aspectos diferentes do direito à informação” e estão entre as “aprendizagens básicas da nossa cidadania que temos que trabalhar”. A educação para a comunicação, nota, “joga-se também na escola, nas famílias, nas associações e espaços de cultura”. E, no final das contas, “nada disto faz sentido se não for para comunicarmos melhor uns com os outros.”

A assistir à sessão em que a jornalista Bárbara Simões e a professora Luísa Gonçalves, coordenadoras do projecto, apresentaram as coordenadas da nova edição, estiveram também presentes os secretários de Estado da equipa de Tiago Brandão Rodrigues, representantes de vários organismos ligados ao Ministério da Educação (localizado no mesmo bairro da redacção) e outras entidades como o Conselho Nacional de Educação, além de professores e também alunos — “jornalistas mirins”, como lhes chamou o ministro.

Beatriz Fialho, de 16 anos, e Tomás Mesquita, de 18, faziam parte do grupo de alunos da Escola Secundária Professor José Augusto Lucas, em Linda-a-Velha, que estavam no auditório. Estes quatro membros da iniciativa “Líderes Digitais” (um projecto de literacia digital da SeguraNet com o patrocínio da Direcção-Geral da Educação) estão a ser acompanhados para que possam, eles próprios, explicar aos colegas “os perigos da Internet, como podem se expor ou não, o que devem fazer caso tenham algum problema”, explica Beatriz, aluna de Humanidades. Tomás está em Economia mas conta que sempre esteve “muito ligado à área da informática”. “Não sei tudo, como é lógico, mas acho que me senti na responsabilidade de passar um bocadinho do pouco que sei para os mais desactualizados.”

Ao lado, a professora de Filosofia Anabela Pires, coordenadora de cidadania do ensino secundário na escola Professor José Augusto Lucas, mostra-se confiante na ligação entre o projecto de cidadania digital e o desafio dos jornais escolares. “Estão muito motivados, ainda por cima agora com a responsabilidade de tentarem desenvolver o jornal da escola”.