Opinião

Os protestos na América Latina: uma vaga provocada ou geração espontânea?

A situação mais relevante, alarmante e surpreendente vem a ser a do Chile, que figura entre as democracias mais estabilizadas.

1. No final da semana passada, em Bogotá, teve lugar a XX edição do Foro Ibero-América, em que participei. Trata-se de uma “plataforma” da qual fazem parte muitos antigos presidentes, primeiros-ministros e governantes dos países ibéricos e latino-americanos, bem como inúmeros jornalistas, artistas, empresários e académicos. De entre portugueses, nela pontificam Francisco Pinto Balsemão – que actualmente, juntamente com o ex-presidente uruguaio Julio Sanguinetti, é co-presidente do Foro – e Artur Santos Silva (antigo presidente da Fundação Gulbenkian e do BPI).

Embora pautado pelo lema do “conhecimento e sociedade do futuro”, o Foro Ibero-América, ocorrido neste preciso momento e nesta conjuntura, foi profundamente marcado pelos movimentos de protesto que estão a assolar a América Latina. Eis uma matéria a que o Estado português – e a União Europeia em geral – tem de estar muito atento, tem de estar atentíssimo.

2. Olhando para o mapa da América Latina, há desenvolvimentos que eram expectáveis e previsíveis, havendo em conta uma série de sinais anteriores. É o caso da Venezuela, que vem a ser o mais grave e preocupante de todos. Neste momento, o número de refugiados já alça aos 4,5 milhões de pessoas – o maior movimento migratório alguma vez registado em todas as Américas.

A situação económica e social ultrapassou todos os limites da decência da dignidade, estimando-se, por exemplo, que já abandonaram o país mais de 30.000 médicos, matando o já periclitante sistema de saúde. É também, num plano totalmente diverso, o caso da Argentina, em que os sintomas de uma crise financeira profunda e recorrente apontavam para a reconquista da presidência para os “peronistas” e, em especial, para a facção dos antigos presidentes Kirchner.

Esta mudança lança sérias incógnitas sobre o destino próximo da economia argentina, mas muda também o mapa dos equilíbrios políticos em toda a região. Não por acaso, o Presidente eleito Fernández está em visita ao México de López Obrador, não escondendo ambos uma simpatia pelo “bolivarianismo populista”. Este eixo pode ditar uma atitude muito mais aberta e compreensiva quanto ao terrível regime de Maduro na Venezuela. Mas terá naturalmente reflexos, porventura mais preocupantes, noutras paragens, designadamente no Chile que se encontra em convulsão. E ditará também provavelmente um maior isolamento do Brasil de Jair Bolsonaro, que tinha na Argentina e no Chile, vizinhos bastante contemporizadores.

Um outro caso em que as convulsões, sem grande surpresa, não páram de aumentar, é justamente o do México. A eleição de López Obrador significou uma viragem para o populismo de esquerda e tem deixado ainda mais à vista a incapacidade do Estado para combater o narco-tráfico, deixando-o – especialmente em alguns estados federados – totalmente à mercê de forças privadas e paramilitares.

3. A par destes desenvolvimentos, existe um conjunto de movimentos políticos, a decorrer em diferentes Estados, que parecendo ter uma etiologia própria e privativa, se oferecem como uma onda ou vaga que pode estar a varrer o continente. A situação mais relevante, alarmante e surpreendente vem a ser a do Chile. Apesar de um notório fosso social, a verdade é que o Chile figura entre as democracias mais estabilizadas e institucionalizadas da América do Sul, com indicadores positivos em muitas áreas.

O actual movimento de contestação, fortemente alavancado nos pensionistas e nos jovens estudantes, é muito amplo, independente dos partidos da oposição e não apresentando líderes ou rostos destacados com os quais o governo do Presidente Piñera possa dialogar. As manifestações, impressionantes pelo seu volume e recorrência, nem sempre têm decorrido de forma pacífica, lançando destruição e caos nas ruas das principais cidades chilenas. Igualmente preocupante, e tendo começado um pouco antes, são os tumultos que se têm verificado consistentemente no Equador, muitos deles ligados à situação dos indígenas. É preciso não esquecer que, com a última eleição presidencial, o Equador saiu da órbita do socialismo bolivariano.

Entretanto, na Bolívia o Presidente Morales não só quer eternizar-se no poder como lhe são atribuídas fraudes neste último acto eleitoral. Esta imputação levou a um movimento forte de contestação de rua, que também está longe de se poder dar por encerrado.

4. Uma questão séria, que, de resto, perpassou o Foro Ibero-América – mais nos corredores e bastidores do que nas sessões formais – é a de saber se há uma origem comum ou uma relação entre todos estes desenvolvimentos de protesto cívico e político, em muitos casos a tocar a violência. O conhecimento das circunstâncias político-sociais de cada um destes Estados justifica, por si só, a eclosão destes movimentos – claramente originados por razões muito privativas de cada país. Isso não exclui, no entanto, um efeito de imitação, que sempre existiu e que hoje pode ser largamente ampliado e estimulado pela dominância das redes sociais e da lógica de comunicação que lhes é inerente. Mas aí, poderíamos ir até bastante mais longe, indo de Hong Kong ao Iraque, passando pelo Líbano, pela Argélia e pela Catalunha.

Uma parte importante dos observadores latino-americanos considera que, naquela região, há uma interferência conspirativa do regime do socialismo bolivariano de Maduro (e antes de Chávez). O governo venezuelano, por um lado, quereria desviar atenções para outros palcos da América Latina e, por outro lado, estaria a tentar romper o seu isolamento. Não parece muito realista nem convincente que o regime de Maduro tenha instrumentos e condições para alimentar um tal fenómeno. Claro que as coisas serão diferentes, se esse regime for apenas uma plataforma da liderança do Kremlin, quiçá via Cuba, quando sabemos que a primeira tem sido o principal instigador das ocorrências de desestabilização na Europa.

SIM 
John Bercow. Na hora da saída, o speaker do Parlamento britânico merece um enorme aplauso pelo modo como, em tempos de vertigem populista, defendeu a democracia representativa.

NÃO 
Ministro da Educação. A medida emblemática do programa do Governo de pôr fim às retenções no ensino básico revela, mais uma vez, a mera ambição estatística deste ministro.