“Até agora, ninguém me conseguiu explicar o valor do ‘Brexit’. Nem o Farage”

Michel Barnier, negociador da UE com o Reino Unido, diz na Web Summit que a paz pode estar em risco.

Foto
LUSA/ANTóNIO COTRIM

A Web Summit é uma conferência euro-entusiasta. E aplaudiu Michel Barnier, nesta terça-feira, quando o negociador da União Europeia (UE) para o “Brexit” disse em palco que não compreende a razão por que o Reino Unido quis sair da União Europeia (UE). “Até agora, ninguém me conseguiu explicar qual é o valor que o ‘Brexit’ acrescenta. Ninguém. Nem mesmo o [Nigel] Farage”, disse Barnier. Uma plateia bem composta reagiu com uma gargalhada, mas logo voltou ao silêncio com o sério aviso do representante da UE no palco principal da Web Summit: “O maior risco do ‘Brexit’ não é a economia, não é o comércio. É sobre pessoas. É a estabilidade e a paz nas Irlandas, uma paz ainda recente, de 1998.”

No grande palco da Altice Arena, em Lisboa, Barnier disse que a UE está pronta a prosseguir com negociações assim que o Reino Unido aprovar o acordo alcançado em Outubro. E, por isso mesmo, destacou que o processo está longe do fim. “Todos perdem”, prosseguiu, mas o trabalho que está a ser feito pretende “preservar a cooperação e a amizade” entre a Europa continental e o Reino Unido.

O Reino Unido deve sair da UE a 31 de Janeiro, depois de se ter falhado a saída a 31 de Outubro. O primeiro-ministro Boris Johnson pediu eleições, agendadas para 12 de Dezembro, alimentando a esperança de conseguir uma maioria parlamentar que apoie o acordo que negociou com Bruxelas. 

Este acordo prevê condições que poderão satisfazer os deputados pró-"Brexit” do Partido Conservador. Ainda assim, Barnier avisa que uma saída do Reino Unido sem acordo continua a ser uma hipótese e um risco.

“É preciso continuarmos atentos, vigilantes, para evitar qualquer precipício”. Um deles, alertou, será desestabilizar a Irlanda do Norte, onde se obteve paz e estabilidade com o acordo de Belfast, de 1998.

Esse é um dos pilares das preocupações actuais, o da Segurança, descreveu o negociador da UE, acrescentando que o outro pilar é a Economia. E, nesse âmbito, antevê que ainda há “negociações duras pela frente em matéria de comércio” até porque “não há muito tempo” para as levar a bom porto. 

A este nível, lançou um aviso a Boris Johnson: “Não pensem que taxas zero e quotas zero serão suficientes.”

Barnier aludia à importância de proteger o mercado único europeu, “o maior activo da União e razão por que somos respeitados em Pequim e em Washington”. E acrescentou outro recado, o de que a UE “não vai tolerar vantagens competitivas injustas”.

“Sei que esta negociação será difícil e exigente”, insistiu, depois de enumerar as prioridades da Comissão Europeia: ajudas de Estado; direitos sociais; Ambiente; impostos.

“A história não termina quando o acordo for ratificado. Temos de construir uma nova parceria com o Reino Unido. O ‘Brexit’ não é um divórcio, é também o início de uma nova parceria”. Um acordo traria, por isso, “segurança às pessoas e às empresas”.