Teresa Pacheco Miranda

De cortiça ou com um “design sóbrio”, as raquetes portuguesas de padel apostam na qualidade

Nicolau Silva trocou o fabrico de próteses dentárias pelas raquetes de padel em cortiça — e assim nasceu a Cork. E Pedro Brito e Cunha sonhou com raquetes “muito bem desenhadas” — eis a Volt. As duas marcas acompanham o boom do padel em Portugal: desde o início de 2016, o número de jogadores federados subiu 313%.

Quando, esta segunda-feira, 4 de Novembro, arrancarem os primeiros jogos do EPA — European Championships, no Lisboa Racket Centre, Portugal não estará apenas representado pelos seus melhores jogadores de padel. Para fazerem os primeiros smashes, bandejas e amorties, alguns dos atletas da selecção nacional terão na mão trunfos “made in Portugal”. Num mercado extremamente competitivo e dominado por fabricantes espanhóis e argentinos, há duas marcas portuguesas de raquetes de padel que se afirmam pela aposta na qualidade: a Cork e a Volt, em Santa Catarina da Serra e no Porto, respectivamente.

Até há um par de anos olhado com cepticismo e visto como uma “moda passageira”, o padel continua a crescer a um ritmo impressionante e tem sido apontado como o desporto de maior crescimento a nível mundial. Portugal não tem passado ao lado deste vício e os números mais recentes são esclarecedores: desde o início de 2016, o acréscimo de clubes filiados na Federação Portuguesa de Papel (FPP) foi de 288%; o aumento do número de jogadores federados foi de 313%.

Com campos e clubes a abrirem por todo o país como cogumelos — em certos horários, a procura continua a ser muito maior do que a oferta —, o padel tornou-se num investimento atractivo, mas as oportunidades de negócio não estão apenas na construção dos cobiçados courts. Ao contrário do ténis, onde uma mudança de cordas é suficiente para que uma raquete recupere o seu potencial, no padel o prazo de validade de uma raquete é curto: na melhor das hipóteses e se forem estimadas, ao fim de ano e meio a dois anos de uso regular, os materiais utilizados na construção já perderam os seus atributos.

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Teresa Pacheco Miranda

O ciclo de vida curto das raquetes e a fé dos jogadores, que acreditam que será um novo modelo que lhes disfarçará as fragilidades e dará o boost para derrotar o rival, fazem com que em Espanha tenham sido vendidas mais de 700 mil raquetes — só em 2017. Uma percentagem relevante dessas vendas tiveram como destino Portugal. Mas, tal como no plano desportivo, onde já há jogadores nacionais a rivalizar com os espanhóis, no comércio das raquetes também começa a haver portugueses dispostos a competir com os vizinhos ibéricos.

Em Santa Catarina da Serra, a meia dúzia de quilómetros de Fátima, uma casa no meio de uma zona rural é o esconderijo da Cork, um projecto que nasceu para resolver “um problema grave”. Há cerca de uma década, quando os jogadores de padel ainda se tratavam quase todos por “tu”, o vício levava a que Nicolau Silva jogasse “quase todos os dias”. Mas “de 15 em 15 dias havia uma raquete partida”.

Para minimizar as despesas, o então técnico de prótese dentária socorreu-se dos seus conhecimentos profissionais e adaptou “a forma de fabrico das próteses às raquetes”. “Primeiro comecei a arranjar as minhas, depois os amigos começaram a pedir para arranjar as deles e tornou-se num pequeno negócio que durou dois ou três anos. Reparei todo o tipo de raquetes e, como tinha o conhecimento de como eram feitas, dediquei-me a fazer uma para mim.”

Nas experiências que foi fazendo na oficina construída nas traseiras de casa — no total foram “feitos cerca de 500 protótipos diferentes” —, Nicolau Silva lembrou-se da cortiça, que “para além de ser um produto português”, era “uma boa solução para resolver problemas de pintura, reduzir vibrações e proteger em termos térmicos”.

“Os Rolls Royce das raquetas”

E foi um dos ensaios de “Nico” que despertou a atenção de Pedro Plantier. Conhecido como o “pai do padel português”, o responsável pelo surgimento da primeira escola de padel em Portugal conta ao P3 que, um dia, viu o Nicolau, “o génio por detrás da Cork”, a jogar num torneio no Clube 7 com “algo que parecia o tronco de uma árvore”. “Fui ter com ele e perguntei-lhe: ‘Nicolau, o que é que é isso que tens mão?’”. Com “cepticismo”, Plantier, que em 2006 fez parte da primeira selecção portuguesa que competiu num mundial de padel, pediu para experimentar.

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“Quando bati na bola tive uma óptima sensação e percebi que aquilo era mesmo uma raquete. Estava pesada, vibrava um bocadinho e tinha algum descontrolo, mas era uma raquete de padel feita à mão. Disse-lhe que se conseguíssemos tirar alguma vibração e peso teríamos um mercado óptimo.”

Cinco anos depois dessa conversa, Plantier diz que “hoje a Cork se posiciona como os Rolls Royce das raquetes”. “Quisemo-nos diferenciar do comum no mercado: raquetes de baixa qualidade de construção, caras e que se partem facilmente. Queremos continuar a fazer modelos exclusivos com a máxima qualidade.”

A ideia é partilhada pelo seu sócio. Nicolau Silva garante que a Cork, a marca com que Miguel Oliveira e Vasco Pascoal jogam no World Padel Tour, trabalha com “os melhores materiais que existem no mercado” para fazer “raquetes únicas”: “Todas têm número de série e padrões de cortiça únicos. Tenho o registo e sei a história de todas.”

Apesar de lhe dizerem que as “raquetes são fantásticas”, “Nico” garante que no futuro ainda quer fazer “muito melhor”, nunca abdicando da “prioridade da Cork”. “Terá que continuar a ser um produto ‘made in Portugal’ e artesanal. A Cork é paixão. O que me fez deixar as próteses dentárias não foi o dinheiro. Foi o orgulho de ter um produto único, diferente e de qualidade superior.”

Um pouco mais a Norte, o projecto surgiu de forma diferente, mas com um objectivo semelhante: “Fazer raquetes de qualidade igual ou melhor às melhores que existiam no mercado”. Em 2016, dois amigos do Porto que “jogavam padel há algum tempo” repararam que “o design era negligenciado pelas marcas espanholas e argentinas”. E como “a grande maioria que joga não são atletas de alta competição”, mas sim “pessoas que vão jogar quando saem do trabalho e valorizam a parte estética”, Pedro Brito e Cunha viu a oportunidade para criar uma marca “com um design diferenciador”. “Algo muito clean e sóbrio, mas muito bem desenhado.”

Assim, em Julho de 2017, quando a “explosão do padel já tinha acontecido”, chegaram ao mercado as primeiras raquetes da Volt, marca que desde a origem apostou em comunicar em inglês, a pensar no mercado internacional: “No final do ano passado, mais de 90% das visitas ao nosso site eram de Portugal, hoje já estão abaixo de 60%. Temos uma lista de 30 a 40 países que visitam o site e procuram directamente a marca em motores de busca.”

Se a nível internacional a excelente prestação de Ana Catarina Nogueira no WPT — a jogadora do Porto é patrocinada pela Volt — está a dar notoriedade à marca, em Portugal a estratégia de Brito e Cunha passa por “estar em força nos clubes”, onde os alunos e jogadores querem “ser aconselhados” na hora de escolher a raquete.

Tendo como cliente-tipo “o jogador que vai comprar a segunda raquete” e “quer investir numa boa”, a Volt, garante, trabalha “com a fábrica onde são produzidas as melhores raquetes do mundo e, dentro dessa fábrica, produz com a melhor qualidade possível”. Por isso, “as raquetes têm valor e esse é o valor que as pessoas têm que dar”. “Vendemos produtos com um preço médio a alto, mas ninguém reclama. As pessoas sabem que é o preço justo.” Apesar de não pretender ser “uma marca de massas”, a Volt aposta em “ser global”, pelo que o objectivo é ter “uma oferta que cubra 70 a 80% do mercado”, não ultrapassando os “quatro ou cinco modelos no portefólio”.

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Diogo Rocha com a Volt 800 Teresa Pacheco Miranda

“Temos uma raquete de controlo puro [Volt 500], uma de controlo com um bocadinho mais de potência [Volt 800] e uma de potência com um bocadinho de controlo [Volt 700]. Temos espaço para lançar mais uma raquete. Estamos a trabalhar para que no início do próximo ano possa sair um novo modelo de potência.”

Enquanto a nova Volt não chega, o modelo mais recente, lançado já em 2019, tem a assinatura de Diogo Rocha. O melhor português no ranking da FPP conta ao P3 que no fabrico da Volt 800, raquete feita à sua medida, foram experimentadas “várias durezas de gomas, com várias elasticidades diferentes” até conseguirem uma raquete que “está perfeita”: “É muito equilibrada, com controlo e boa saída, o que não é fácil numa raquete leve. O balanço está perfeito, a goma está boa e é redonda como eu gosto, com pouco peso na cabeça.”

Com uma ligação à Volt profissional, mas também sentimental — “Os donos da Volt foram meus alunos e eram meus amigos já há muitos anos” —, Diogo Rocha confessa alguma surpresa pela forma como a marca cresceu. “Surpreendeu-me que conseguissem evoluir tão rápido. Ter jogadores como a Ana Catarina Nogueira, que é top 10 mundial, a jogar com Volt é sinal de que a raquete tem que ter muita qualidade.”

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Teresa Pacheco Miranda

Professor no Top Padel, o jogador portuense, que nos próximos dias vai representar Portugal no EPA European Championships, deixa um conselho para a sempre difícil decisão sobre qual a raquete certa para comprar. Seja Volt, Cork ou outra marca qualquer, a recomendação é que “comprem uma raquete leve”. “Cada vez mais vejo pessoas com problemas nos cotovelos, nos pulsos e nos ombros porque compram raquetes muito pesadas. Escolham uma raquete leve, que terá saída na mesma.”