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Megafone

(Des)carta aberta a Manuel Bourbon Ribeiro

Ainda não sabe que um dos indícios mais evidentes da demagogia e do populismo é confundir a “vontade do povo” com os interesses e opiniões do próprio. Maior liberdade implica maior escolha, mas não é apenas sobre aquilo que nos convém.

Caro Manuel,

Tenho 28 anos e uma vida pela frente. Sinto e sei que posso fazer algo pelo meu país. Logo, vou pôr as mãos ao trabalho. Não vai ser fácil. Não é só o meu país que é difícil, é o mundo e a vida. Não é só a sua geração que sente dificuldade, são todas. Não há exclusividade, apenas a sua ilusão.

Se esta carta fosse escrita há 500 anos faria todo o sentido. O problema é esse. Os saudosismos e os queixumes só nos fazem andar atrás da nossa própria sombra.

É verdade que eu não frequentei um colégio de topo. Também é verdade que não o podia escolher. Mas, a julgar pela sua carta, ainda bem. A minha professora de História, aquela que tive numa escola pública, ensinou-me os grandes feitos de Portugal, assim como os seus custos e consequências. Também aprendi, com a minha professora de Português, que o “Quinto Império” simboliza um Portugal regenerado cultural e espiritualmente. Infelizmente, não temos como pedir algum esclarecimento a Fernando Pessoa, mas julgo que o autor não estava a pensar em investimentos privados. Entre a História e as Ciências, também houve espaço para educação sexual e formação cívica. Não se deve confundir sexo com identidade de género. São coisas muito diferentes, mas não se preocupe, há muita literatura sobre o assunto. Contudo, adquirir a sensibilidade necessária para perceber a diferença entre poder votar e mudar de género já é um processo mais complexo. São questões incomparáveis, dado que não apresentam as mesmas variáveis, o mesmo substrato, a mesma fórmula. Enfim, é confundir alhos com bugalhos.

Talvez, nestes intensos dois meses de aulas de Direito, ainda não tenha aprendido que as eleições legislativas são para eleger os 230 deputados da Assembleia da República. O Governo é formado posteriormente, tendo em consideração a maioria parlamentar. E o Governo de que fala foi formado tão legitimamente como outras coligações passadas. A essência da Democracia representativa estava lá. Pode é não lhe ter agradado.

Também ainda não sabe que um dos indícios mais evidentes da demagogia e do populismo é confundir a “vontade do povo” com os interesses e opiniões do próprio. Maior liberdade implica maior escolha, mas não é apenas sobre aquilo que nos convém. A liberdade de escolha não se reduz a escolher um colégio em vez de uma escola pública, nem a políticas de incentivo ao investimento privado. A liberdade de escolha implica respeitar outros modos de vida, outras concepções de mundo e outros valores morais. A verdadeira liberdade nasce da tolerância que somos capazes de ter para com quem pensa de forma diferente. E o desafio da Democracia é saber construir um espaço público capaz de responder à diferença que existe entre nós. Entre mim e o Manuel. Entre o eu e o outro. Compreendo perfeitamente que o relativismo existencial assuste e preocupe, mas fingir que ele não existe não resolve problema nenhum.

Sem dúvida que há muito para melhorar, em todos os sectores da sociedade portuguesa: contudo, nem é tão fácil como pensa nem através das aparentes soluções que apresenta.

Sei que tem apenas 17 anos, mas dizer, através de um órgão de comunicação social, que o país “parece parvo” apenas porque não corresponde aos seus anseios, ultrapassa os limites da imaturidade.