Opinião

Médio Oriente – bandeiras negras à vista

A instabilidade está também a ganhar terreno no vizinho Iraque. Os protestos populares contra o corrupto governo iraquiano estão a ter consequências cada vez mais dramáticas, fazendo lembrar o início do conflito sírio aquando da escalada de protestos contra Bashar al-Assad.

Na semana passada o mundo assistiu a um relato cénico do Presidente Donald Trump sobre o ataque norte-americano que vitimou o líder do Daesh Abu Bakr al-Baghdadi. O facto apresentado com a pompa e circunstância de uma superpotência que pretende representar a lei e a justiça numa determinada geografia acontece, de forma não inocente, no atual contexto em que os EUA retiraram tropas do Médio Oriente. Com a morte de al-Baghdadi, Trump quis passar a mensagem que o mundo estaria agora mais seguro, mas na verdade verifica-se uma instabilidade renovada no Médio Oriente e, por consequência, no resto do mundo. 

O conflito entre o Irão e os EUA e seus aliados tem aquecido até temperaturas escaldantes. No último episódio, os EUA acusaram o Irão de estar por de trás do ataque com drones a instalações da Saudi Aramco, na Arábia Saudita, e ameaçaram com o uso da força. Por sua vez, uma retaliação do Irão poderá ocorrer em várias frentes, nomeadamente com milícias xiitas na Síria e no Iraque, ou de forma mais indireta via Hezbollah contra Israel, outro aliado norte-americano. 

Na Síria continua aceso o principal foco de tensão. A atual operação militar turca, tolerada e apoiada pelos EUA e Rússia, pretende esmagar o sonho curdo de criação do Curdistão. Contudo, o efeito secundário decorrente desta operação é negro. As forças curdas, que combateram o Daesh e que guardavam os campos de prisioneiros, têm agora outra prioridade — a sua sobrevivência e das suas famílias. A intervenção turca gerou uma fuga em massa de população curda e a fuga da prisão de veteranos de guerra jihadistas que procurarão reorganizar-se e tirar partido da crescente violência no nordeste da Síria. 

A instabilidade está também a ganhar terreno no vizinho Iraque. Os protestos populares contra o corrupto governo iraquiano estão a ter consequências cada vez mais dramáticas, fazendo lembrar o início do conflito sírio aquando da escalada de protestos contra Bashar al-Assad. O que se passa no Iraque esteve e estará intimamente ligado com a instabilidade na Síria. Foi na sequência da invasão do Iraque em 2003 que nasceram os grupos jihadistas que deram origem ao Daesh e é no Iraque, em zonas desérticas entre Fallujah e Mosul, onde ainda se situam os principais campos de prisioneiros das chamadas “famílias do Estado Islâmico”, que mantém o seu modo de vida e práticas sociais e religiosas, em condições que as organizações humanitárias consideram desumanas e sob o olhar laxista das autoridades iraquianas. 

Muitos analistas não crêem no ressurgimento do Daesh nos mesmos moldes do passado recente; consideram que as atuais condições no terreno não são propícias para que um grupo organizado preencha vazios territoriais, que neste momento não existem na mesma escala com que existiam. Contudo, as condições que criaram esses vazios estão a ganhar dimensão novamente: a iminência da queda de governos corruptos e falhados, o abandono de grandes porções de território decorrente da fuga de população civil, a libertação de radicais e veteranos de guerra e o imemorial e sempre presente conflito entre xiitas e sunitas.