O que eles deixaram no manicómio (II)

O crepúsculo do relojoeiro

No início, a caixa cheia de ponteiros de relógio era um objecto órfão. Nada se sabia sobre o seu dono, a não ser o que era possível adivinhar: que era relojoeiro e que, se esteve internado no Manicómio Bombarda, só pode ter sido porque, a dada altura da sua vida, enlouqueceu. Ou não.

Nunca tinha tocado num ponteiro de relógio, sempre os conheci protegidos e inalcançáveis debaixo do vidro do mostrador. Não sabia que peso tinha um, que consistência, não sabia que eram assim ao toque, moles e apegadiços. No início, não percebi logo o que eram.