Crónica

Não há alternativas? Só se não quisermos

Não vale a pena ter ilusões. Vivem-se tempos de desnorte. Mas esta pode ser também uma altura transformadora, desde que a crescente insatisfação em todas as suas formas venha a ter algum tipo de articulação e amplitude.

Estão por todo o lado. Convulsões em Santiago, Quito, Barcelona ou Paris. Milhares em Londres, Bagdad, Líbano ou Hong Kong. Isto para já não falar do planeta na rua pelo ambiente. Uns brancos, outros indígenas, árabes, asiáticos, homens, mulheres ou crianças. Mas seja em castelhano, inglês ou árabe, surpreende a semelhança dos cartazes e das palavras de ordem.

A base desta ira generalizada, quase simultânea, não é comum. São histórias diversas. Motivações específicas. A lei da extradição. O preço dos combustíveis. Longas penas de prisão. O custo dos transportes. Há expectativas que não foram cumpridas. Liberdades colectivas e individuais postas em causa. Crescentes desigualdades. Mas nenhum destes protestos pode ser reduzido a apenas uma só questão, inclusive a económica.

O que há de idêntico é a fúria, ou mesmo por vezes a violência, contra autoridades, na maior parte dos casos, legitimamente instituídas. Outro traço é a forma como num primeiro momento os poderes reagem com músculo, para depois recuarem. Revoga-se leis e medidas concretas. Satisfaz-se as exigências. Mas os protestos mantêm-se. E isso acontece porque o fósforo que ateou a desordem, foi pretexto. Foi aquilo. Podia ter sido outra coisa. Correspondeu à expressão de um descontentamento profundo que já estava lá, latente, que podia ser accionado em qualquer instante. Mesmo depois dos recuos, as reclamações continuam. Deixa de haver motivo concreto a anular. A revolta torna-se difusa. Para onde e quem a canaliza?

Numa lógica clássica, marcam-se eleições, e a esperança é que quem alcance o poder, mude a trajectória. Mas este é outro tempo, com impasses à esquerda e direita, onde é a própria lógica modelar que parece estar em causa. Em alguns destes casos não estaremos a assistir às consequências do arrastar da pior crise das últimas décadas? Não será daí que, em alguns destes casos, virá esse mal-estar oculto e disseminado? Disse-se aos cidadãos que era altura de sacrifícios. Trabalhar mais. Pagar mais impostos. Adiar sonhos. O resultado seria bom para todos. Uma década depois, apenas alguns sorriem. A desigualdade social explodiu. A economia estagna. Os recursos ambientais revelam-se limitados. A democracia degrada-se. Para muitos torna-se evidente que o actual sistema não é sustentável.

Há cada vez mais gente a dizê-lo de forma crítica. Os que o fazem são de imediato conotados com conspirações de “marxismo cultural”, e outros absurdos, sintoma de quem profere tais narrativas não consegue transcender lógicas duais, sair de passados mitificados e conceber outros horizontes possíveis. A lógica, como na altura mais aguda da crise, quando a via da austeridade era proclamada como a única possível, é sempre a mesma: tentar demonstrar que não existem alternativas aos modelos socioeconómicos dominantes, como se a solução fosse continuar a acreditar na utopia no crescimento infinito.

Este caldo revoltoso é propício a populismos e totalitarismos. Soluções simplistas para questões complexas. Mas isso não é uma fatalidade, ao contrário do que dizem agora os que acenam com esses cenários aos que se manifestam, como se a solução fosse a resignação. Não vale a pena ter ilusões. Vivem-se tempos de desnorte. Mas esta pode ser também uma altura transformadora, desde que a crescente insatisfação em todas as suas formas (económicas, ambientais, identitárias) venha a ter algum tipo de articulação e amplitude, no sentido de pensarmos num horizonte mais empático, igualitário, livre e democrático.

Não temos que viver em contínua insatisfação. Há sempre opções. Cabe construí-las com resiliência, não acreditando em insurreições miraculosas, mas em criteriosas escolhas políticas, sociais e culturais. O futuro nunca está escrito de antemão.