Opinião

A verdade oculta por trás do documentário Game Changers

O Game Changers tinha tudo para ser um bom documentário. Mas não, o resultado final foi mais um documentário de propaganda vegan, sem contraditório, assente em raciocínios falaciosos, apelo ao sentimentalismo fácil e experiências de “vão de escada”.

,The Game Changers
Foto
Lewis Hamilton, Arnold Schwarzenegger, James Cameron e Novak Djokovic

O título deste artigo utiliza uma das estratégias mais usadas para aumentar a visibilidade de qualquer documentário: a promoção do medo. Por isso se o está a ler neste momento é sinal de que a armadilha resultou na perfeição e de que é mesmo o público-alvo a que ele se destina.

O Game Changers tinha tudo para ser um bom documentário. Um ilustre realizador (James Cameron), intervenientes conhecidos (como Arnold Schwarzenegger), um tema polémico (dietas vegan e performance desportiva) e visibilidade pelo Netflix. Podia ter aproveitado para unir as quase sempre extremadas “facções” vegan e omnívora com uma narrativa isenta, baseada em toda a evidência científica (e não apenas naquela que convém para validar um certo argumento) e dando conselhos sobre como fazer uma dieta vegan sem colocar em causa a performance desportiva. Mas não, o resultado final foi mais um documentário de propaganda vegan, sem contraditório, assente em raciocínios falaciosos, apelo ao sentimentalismo fácil pelos bombeiros e pelo pai do protagonista e experiências de “vão de escada” com uma amostra de 3 atletas, capazes de fazer corar de vergonha qualquer pessoa que tenha noções básicas de metodologia científica e nutrição.

Existe uma quantidade gigantesca de argumentos a rebater no documentário, algo que seria impossível de fazer num artigo tão curto. Ainda assim, para quem quiser consultar um fact-checking mais alargado (e os próprios conflitos de interesse dos intervenientes no documentário — e são tantos…), estes três excelentes artigos fazem-no de forma detalhada.

Resumindo o essencial da mensagem, um atleta que faça uma dieta omnívora muito pobre em legumes, fruta e oleaginosas (e há tantos por aí), logicamente vai sentir-se muito melhor quando começa a fazer uma dieta vegan onde necessariamente irá incluir todos esses alimentos. Isso acontece pelo acréscimo de vitaminas, minerais e fitoquímicos na dieta (com todas as suas vantagens), não necessariamente pela retirada de alimentos de origem animal igualmente importantes como os ovos, lacticínios, carne e peixe. Os atletas do documentário que comiam frango frito todos os dias e grandes quantidades de carne vermelha antes dos jogos e passaram para uma dieta vegan melhoraram a sua performance, não por terem tirado a proteína (sendo certo que toda aquela quantidade de proteína e gordura antes de um jogo é impensável em qualquer atleta), mas sim porque aumentaram a quantidade de hidratos de carbono ao comerem mais massa, arroz, batata, leguminosas e fruta. A intensidade a que se disputam jogos ou provas é sempre a máxima que cada atleta consegue tolerar e quanto maior a intensidade do esforço, maior a nossa dependência de hidratos de carbono para produzir energia. Qualquer atleta que trabalhe com um bom nutricionista, quer nos dias dos jogos quer na véspera, faz uma alimentação praticamente vegan, pois convém que se “encha” de hidratos de forma a maximizar as suas reservas de glicogénio muscular.

Este documentário escolheu artigos científicos a dedo de modo a utilizar uma linguagem science-based, mas aos quais falta o contraditório que este artigo se presta a fazer. Por exemplo, não precisamos de recuar ao tempo dos gladiadores romanos e à sua suposta melhor densidade mineral óssea com dietas vegan pois existem meta-análises (compilações de resultados de vários estudos) de 2019 a comprovar que em comparação com omnívoros, indivíduos vegetarianos e vegans possuem menor densidade mineral óssea no colo femoral e coluna lombar e que os vegans têm taxas de fraturas mais elevadas, muito provavelmente por um aporte mais deficitário de cálcio.

Outro ponto que “curiosamente” foi descurado no documentário foi a maior prevalência de défice de ferro e anemia em vegetarianos. Quem trabalha com atletas sabe da importância transcendente que a optimização dos níveis de hemoglobina possui na performance (principalmente na atleta feminina e em atletas de endurance), ao ponto destes níveis serem monitorizados várias vezes no decorrer de uma época desportiva. Treina-se em altitude para, entre outras coisas, melhorar estes valores e uma das substâncias dopantes mais utilizadas no desporto (eritropoietina) tinha justamente o objectivo de aumentar os níveis de glóbulos vermelhos, aumentando assim a capacidade de transporte de oxigénio e consequente melhoria do desempenho. Podemos logicamente dizer que também há omnívoros com níveis de densidade mineral óssea abaixo do ideal/fracturas e anemias. Claro que há e que necessitam igualmente de melhorar a alimentação e eventualmente recorrer à suplementação. O que os estudos nos dizem é que em vegetarianos estas situações altamente limitadoras da performance desportiva acontecem mais frequentemente.

Outro facto ocultado foi o de atletas vegetarianos possuírem menores níveis intramusculares de creatina e carnosina (dado que se encontram fundamentalmente na carne e no peixe), sendo estes dois compostos proteicos, dos suplementos com melhor evidência na melhoria da performance (no caso da carnosina o suplemento é a beta-alanina pois é o aminoácido limitante para a síntese endógena deste dipéptido). Neste caso, a situação não é tão grave, dado que mesmo atletas omnívoros devem suplementar estes dois compostos pois é impossível chegar às doses recomendadas só com a alimentação. Mas mais uma vez, até são os atletas vegans que respondem melhor a esta suplementação dado que os níveis de base presentes no músculo são menores. E tendo em conta que no documentário aparecem testemunhos de atletas de 400m, halterofilistas e ciclismo de pista, todos eles beneficiariam e muito desta suplementação. Aliás, uma das estrelas da narrativa, o “strongmanvegan Patrik Baboumian, suplementa diariamente com creatina, beta-alanina, proteína vegetal, glutamina e BCAA’s, mas curiosamente este facto também não foi referido no documentário. Também não é preciso ser vegan para usufruir do efeito vasodilatador da beterraba ou do seu sumo concentrado. Grande parte dos atletas omnívoros bem acompanhados nutricionalmente já faz esta suplementação, sendo necessário gerir expectativas pois a melhoria de performance expectável nada tem a ver com os 19% citados no documentário. Mesmo com esta maior probabilidade de carências nutricionais que possam afectar a performance, atletas vegetarianos (bem monitorizados e suplementados se houver essa necessidade) possuem todas as condições para terem tão bons resultados como atletas omnívoros e isso já foi demonstrado em diversos estudos. Não vale a pena é vender uma ideia de superioridade da dieta vegan baseada em estudos com 3 pessoas sem ajuste dos vários factores confundidores seja na função endotelial, seja nas erecções nocturnas (boa táctica para captar o público masculino mais rudimentar, mas totalmente irrelevante na performance atlética) como se fez no Game Changers.

Para um nutricionista que exerce baseado na evidência, o sentimento final que fica com o Game Changers é contraditório. Por um lado, apetece agradecer pela mensagem forte que transmite e que fará com que muitos atletas finalmente comecem a olhar com outros olhos para a fruta, sopa, legumes e aumentar a porção de hidratos de carbono no prato ao invés de carne vermelha. É importante perceber que a alimentação sendo fundamental para qualquer atleta, está ainda abaixo do treino, da genética e do talento no que à performance diz respeito, caso contrário eram os nutricionistas que ganhavam medalhas ou campeonatos. Por outro lado, lamenta-se o atestado de estupidez que tentou passar a toda a gente com o chorrilho de falácias e a manipulação e maltrato da ciência que foi presenteado durante todo o documentário e que consegue tirar do sério qualquer pessoa que domine o tema e que seja independente na análise.

E aqui entre nós que ninguém nos ouve: se é profissional de saúde/exercício, ou um “instagrammer”/“influencer” e sentiu necessidade de partilhar com as redes sociais a sua ignorância científica ao assumir que este documentário (ou qualquer outro, pois documentários não são evidência científica nem possuem contraditório) é a “derradeira prova de que as dietas vegan são melhores para os atletas”, finja-se de morto durante uns tempos e apague sorrateiramente essa publicação. A parte boa das redes sociais é que da polémica de hoje, amanhã já ninguém se lembra.

PS: Só algumas notas rápidas para mais algum contraditório:

- Sim a alface tem mais antioxidantes do que o salmão. O salmão também tem mais ómega 3 do que a alface. Ninguém vai aos legumes procurar ómega 3 (nem a noz e a linhaça se salvam) nem à carne/peixe procurar antioxidantes;

- Demoniza-se a indústria do tabaco, da carne e lacticínios no documentário, mas o mesmo critério não foi usado para estudos lá citados e financiados pela Hass Avocado Board ou para o facto de o realizador James Cameron ser o CEO da Verdient Foods, o que quer dizer que só os conflitos de interesses dos outros é que são relevantes, os “nossos” não.

- Gorilas e touros conseguem ter toda aquela musculatura comendo apenas plantas/ração (os gorilas até podem comer alguns insectos), porque para além de questões genéticas (as mais importantes), conseguem extrair energia da celulose das plantas (coisa que os humanos não conseguem). Utilizar este argumento tal como “o ser humano é o único mamífero a beber leite após a amamentação” faz com que seja melhor reler uns manuais de biologia ou ciências do ensino básico.