Reportagem

Cachaça? Pura, obrigado

A Cachaçaria Macaúva viajou de Analândia, no Brasil, para a Rua de Miguel Bombarda, no Porto, com 46 das milhares de cachaças que existem. Aqui, há activistas.

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Nelson Garrido
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“Você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não/ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão”. Verdade seja dita, pouco mais sabemos sobre esta bebida – talvez que A (cachaça) mais B (açúcar amarelo) está no bom caminho para se transformar em C (de caipirinha) – com 500 anos de história e que agora ganha no Porto uma cachaçaria, uma carta com 46 marcas de cachaça “suficientemente boa para ser bebida pura”, um manual prático de degustação (expirar-beber-respirar), muitos produtores e as suas “incríveis alquimias”.

A entrada da Cachaçaria Macaúva, no número 552 de Miguel Bombarda, ainda estava disfarçada quando visitámos Marcelo Moschetti e Maísa, os guias da Fugas nesta “casa da cultura ligada à cachaça e à cultura brasileira”. “Por isso a escolha do Porto e de Miguel Bombarda, um dos focos da cultura na cidade”, apresenta Marcelo, que há seis anos fez o caminho Porto-Santiago de Compostela com direito a regresso ao Porto ("tal foi a paixão pela cidade"). Nessa sua primeira visita à cidade portuguesa, Marcelo Moschetti não era dono de bar. “Era professor universitário de Filosofia”, revela, enquanto traduz o símbolo da casa (a silhueta da montanha de Analândia com uma garrafa de cachaça no cume), que nasceu lá ("num lugar onde só tem boa cachaça") antes de vir para cá. “Para mostrar que existe cachaça de qualidade suficientemente boa para ser bebida pura.”

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Esta história começou há mais ou menos vinte anos, quando Milton Lima, “nascido, destilado e fermentado” em Pirassununga, começou a pesquisar sobre o fenómeno da desvalorização da cachaça, produto que há muito o fascinava. O trabalho deu origem ao site Cachacas, online há mais de uma década, e à fundação da Cúpula da Cachaça, o mais importante grupo de especialistas deste destilado.

Especialista há quatro anos ("num reencontro com esse amigo antigo"), também Marcelo, família em Castelo Branco, se define como “activista da cachaça”. “A ideia é mostrar que existe cachaça de qualidade. No Brasil, o consumo de cachaça, na maior parte das vezes, é feito em forma de caipirinha. No geral, os brasileiros desconhecem a cachaça de qualidade. E mesmo a caipirinha, em 70% das vezes, é consumida com vodka, a tal caipiroska. O público da cachaça de qualidade vem aumentando no Brasil. Mas devagar. A maior parte das pessoas no Brasil ainda tem um preconceito muito grande e acham que é uma bebida de mendigos ou algo parecido. Em Portugal, o desconhecimento é ainda maior do que no Brasil”, constata. “É um desafio trazer tantas marcas diferentes. Mas é um desafio que assumimos.”

A Cachaçaria Macaúva tem uma pequena biblioteca, uma galeria de artes, o som ambiente de DJ Paulão ("o maior divulgador de música brasileira na Europa) e petiscos ligados à cultura de bar luso-brasileira (parceria com o restaurante Sabores da Amazónia, da outra ponta de Miguel Bombarda). Isto para além da montra de 46 das cerca de cinco mil cachaças registadas no Brasil (para ser verdadeiramente cachaça, a bebida tem que obedecer a três regras: 1 - ter entre 38 e 48 graus de álcool; 2 - ter origem no caldo de cana-de-açúcar; 3 - ser feita no Brasil), país onde supostamente existem mais de 40 mil produtores e sensivelmente dois mil sinónimos para a palavra cachaça (segundo a Wikipédia, “a palavra com mais sinónimos na língua portuguesa e talvez em qualquer outra língua").

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“As cachaças de qualidade sempre existiram, mas não eram muito conhecidas. Quando existem grandes marcas que dominam o mercado (como a 51, a Ypioca, entre outras), não se garante a qualidade. A 51, por exemplo, tem uma linha especial de muita qualidade que é a Reserva 51 que chega ao mercado europeu agora”, explica Marcelo Moschetti, que nos serviu uma Dom Bré (40% de álcool; sem envelhecimento, “cachaça sem disfarce, a alma da cachaça”, palavra de Moschetti) e uma Capucana (42%; envelhecida em carvalho). “As cachaças são envelhecidas em mais de 30 madeiras diferentes”, diz. “As outras bebidas destiladas são quase todas envelhecidas em carvalho. A cachaça é envelhecida em carvalho, em amburana, amendoim do campo, jequitibá, jaqueira... uma lista gigante de madeiras.”

Antes da degustação, uma técnica para beber bebidas destiladas. “Beba devagar, primeiro soltando o ar dos pulmões, engolindo e depois respirando, num compasso. Engula com a boca fechada. Desta forma, a bebida não ‘queima’ na garganta, e aproveitamos melhor o aroma no final, prolongando o ‘retrogosto’, o sabor que persiste. Muda a vida de uma pessoa. Nunca mais bebemos uma bebida destilada de outra maneira.”

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Cada alambique tem o seu segredo”, sublinha Marcelo, que deixou a selva de pedra de São Paulo em 1989, “jurando que nunca mais voltaria a viver num lugar como aquele, movimentado, poluído e barulhento”. Viveu depois “em várias cidades ‘menores’ com 200 mil habitantes” antes de chegar ao Porto, “cidade cosmopolita que também dá muito valor à cultura local”. “É impossível ir até à esquina sem ouvir três línguas diferentes. O mundo passa pelo Porto. Acho isso maravilhoso. É uma cidade que adora novidades.”

Vida nova, a música tradicional. “Só não quero que me falte/ A danada da cachaça”.