Pedro Fazeres
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Pedro Fazeres

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Pessoas com diversidade funcional, os bonecos de cera das legislativas?

Da esquerda à direita, foram variadíssimas as pessoas com diversidade funcional sujeitas a eleição. Todavia, nenhuma foi eleita. Nem uma. Estarão os partidos políticos a instrumentalizar a causa?

Aconselha a prudência que não se deve reagir a quente a um qualquer acontecimento que, em nós, cause algum impacto. Se tantas vezes falhei no acolhimento desse parecer, desta vez soube cumprir esse compasso de sensatez para hoje vos chegar sereno e, espero, mais razoável pelos dias de reflexão que consegui somar.

Vivemos recentemente um período de eleições legislativas que merecem o cuidado de uma avaliação atenta. Esta será apenas relativa à representatividade das pessoas com diversidade funcional nas listas apresentadas a votos, pela razão de nunca ter sido tão elevada. Da esquerda à direita, de Viana do Castelo a Faro, foram variadíssimas as pessoas com diversidade funcional sujeitas a eleição. Todavia, nenhuma foi eleita. Nem uma.

As perguntas surgem e quase se respondem por si. Estarão os partidos políticos a instrumentalizar a causa dos que vivem com diversidade funcional? Se o interesse pelo sector da diversidade funcional é realmente genuíno, por que razão é que estes potenciais deputados surgem nas listas apenas em lugares não elegíveis? O símbolo máximo destas questões tornou-se Jorge Falcato. Depois de, na anterior legislatura, ter sido eleito por uma votação invulgar, nesta baixou um lugar na lista e ficou de fora do Parlamento, sendo ultrapassado por quem não tem metade do seu percurso cívico e político. E a líder do seu partido pode vir com as explicações que entender. Nenhuma será suficiente.

Parece que foi produzida prova de que houve um claro aproveitamento político de um tema, causa ou sector que, ultimamente, tem merecido crescente atenção política, mas também pública. O notório aumento da consciência política das pessoas com deficiência e o seu maior desejo de participação nas decisões políticas não passou despercebido aos predadores de votos, ou seja, à generalidade dos partidos políticos portugueses.

Poder-se-ia dizer que, mesmo em lugares não elegíveis, a sua inclusão nas listas provocou o debate das questões importantes por que se batem. Mas não. O que observamos foi uma assinalável pobreza na campanha e o pouco que se viu pautou-se pela baixíssima participação e paupérrima visibilidade. Nada se viu. Pouco se passou.

Torna-se então pertinente perceber se faz ou não sentido que as pessoas com diversidade funcional aceitem participar nestas condições nas eleições legislativas. Valerá a pena a conotação partidária, numa causa que deverá estar acima de qualquer força política? Estaremos nós capazes de dispensar a independência dos nossos activistas? É que com a aproximação a determinada força política, inevitavelmente, perde-se unidade numa comunidade já frágil nesse âmbito. Esse preço é insofismavelmente alto. Muitas das nossas conquistas estão por fazer e outras encontram-se presas a arames demasiado fracos. Não estamos em condições de fazer qualquer concessão, como aparentemente nenhum partido está.

Precisamos, mais do que nunca, de valorizar as nossas ideias para um país verdadeiramente inclusivo, onde os seus cidadãos com diversidade funcional não vivam vulneráveis e em constante desvantagem. Se o lugar da lista de determinado círculo não é elegível, não nos interessa. Outros terão maior talento para serem bonecos de cera. Nós não. Precisamos de aprender a dizer não.