Um país a resgatar (finalmente) Santareno, em ano de centenário

Uma dívida de gratidão pôs a actriz e encenadora Fernanda Lapa a desafiar dezenas de pessoas e instituições para celebrarmos, em 2020, o autor de O Lugre, obra que acaba de ser reeditada.

Vela
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Bernardo Santareno, enquanto médico, nos mares do fim do mundo DR

A actriz Fernanda Lapa anda a fazer de ponto, neste Portugal onde Bernardo Santareno deixou de ser leitura obrigatória nas escolas, lembrando aos mais esquecidos no palco o centenário do escritor, que se assinala a 19 de Novembro do próximo ano. E pelo programa que a sua Escola de Mulheres tem já assegurado – abrindo, logo a 18 de Janeiro, com um colóquio internacional na Gulbenkian – parece estar garantido que aquele que é, para muitos, o maior dramaturgo português do século XX (mas que morreu amargurado com o desinteresse que a sua obra suscitava no meio teatral), vai ter, em 2020, um ano como merecia ter vivido antes de nos ter deixado, em 29 de Agosto de 1980.

O centenário de António Martinho do Rosário coincide com os 40 anos da morte de Bernardo Santareno, o pseudónimo com que o médico, natural de Santarém, se deu a conhecer fora dos consultórios onde trabalhou. Bernardo, como o santo da devoção das gentes da aldeia natal - assim explicava há dias o amigo Vicente Batalha - Santareno por afecto à sua cidade, o escritor nasceu-nos em 1954, poeta, a testar, na sua destreza com a língua, os temas que haveria de percorrer a partir de 57 na sua obra teatral: mais de dezena e meia de textos produzidos em pouco mais de duas décadas.

Fernanda Lapa conheceu-o em 1961, num desses acasos da vida, jovem estudante do antigo 7.º ano com vontade de ser actriz, e colocada, entre dúvidas sobre o seu futuro académico e profissional, perante um psiquiatra no Instituto de Orientação Profissional. “Quando o vi, alto, cara de cavalo, 45 dentes arreganhados, reconheci-o”, conta ao PÚBLICO, numa viagem de meia hora por esses anos em que, com a ajuda dele, se meteu mesmo pelos palcos adentro, num país a começar um conflito militar, e a lidar mal com as greves estudantis de 62. Afeiçoaram-se. Ela leu-lhe manuscritos, e como assistente social, trabalhou com o médico no apoio a estropiados da Guerra Colonial, e aos cegos - esses “a quem Santareno ensinou a ver teatro”, para citar de novo Vicente Batalha -, com os quais manteve uma dedicação de muitos desconhecida, na Fundação Raquel e Martin Sain, em Lisboa. 

A directora da Escola de Mulheres assume, assim, estar a pagar uma dívida de gratidão: a um amigo, e a um escritor cuja desilusão, nos últimos anos de vida, acompanhou. Mesmo sem a censura a atrapalhar-lhe o caminho, Santareno viu o seu trabalho subir ao palco menos do que parecia merecer o talento que lhe creditavam, e Fernanda Lapa considera-o um dos injustiçados do teatro em Portugal. Um centenário não reparará essa distracção colectiva - quebrada aqui e ali, e nos últimos anos pelos esforços do Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) para reeditar a sua obra centrada na pesca do Bacalhau, com a editora E-Primatur, e pela produção de A Promessa, no Teatro Nacional de São João, em 2017. Mas seria ainda mais grave que a efeméride ficasse esquecida.

PÚBLICO -
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O médico, num dos navios em que prestou assistência, no final da década de 50 DR

Reedição de O Lugre

O ano Santareno até já começou. Há precisamente 60 anos, num fim de Outubro como este, a companhia de Amélia Rey Colaço levava ao palco do Teatro Nacional de Dona Maria II, Lugre, texto construído a partir da experiência do dr. Martinho – assim o recordam pescadores desse tempo – enquanto médico de bordo em navios da pesca do Bacalhau. 

A obra acaba de ser reeditada pela mesma dupla E-Primatur/MMI, que já em 2016 nos tinha resgatado um dos objectos mais raros na bibliografia de Santareno, o livro de crónicas Nos Mares do Fim do Mundo, que vale pelo objecto literário que é, na sua prosa poética que não foge, em tempos e censura, ao lado mais humano, e trágico da faina maior, mas também porque se trata, na verdade, de um exercício de desocultação das histórias, reais, com que ele haveria de aparelhar O Lugre. Um texto que, para ano, haveremos de escutar, rumorejando entre as vagas, em vários palcos, um deles o navio-hospital Gil Eannes, num dos vários projectos com que o Centro Dramático de Viana do Castelo, um dos parceiros destas comemorações, assinalará o centenário do dramaturgo.