Crítica

Humor e profundidade musical nas Noites de Queluz

Haydn, Beethoven e Mendelssohn estiveram em destaque no regresso a Portugal do Quarteto Chiaroscuro.

,Filarmônica Nacional
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Quarteto Chiaroscuro EVA VERMANDEL

A quinta edição do ciclo de concertos Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie, a decorrer entre 17 de Outubro e 10 de Novembro, destaca-se mais uma vez por um conjunto de propostas de elevada qualidade e pela presença de vários músicos de referência no âmbito da interpretação da música do Barroco e do Classicismo (com algumas incursões nos alvores do Romantismo) em perspectivas “historicamente informadas” e, na sua maioria, com recurso a instrumentos de época. Com o emblemático cenário setecentista do Palácio Nacional de Queluz como palco, este ciclo constitui um dos três pilares da Temporada de Música da Parques de Sintra, organizada em parceria com o Divino Sospiro – Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal, realizando-se os outros dois em Março (no Palácio da Pena, com música do século XIX) e em Maio (no Palácio da Vila, com repertórios da Idade Média e do Renascimento).

Depois de uma exuberante interpretação da integral dos Concertos Brandeburgueses, de J. S. Bach, no concerto de abertura (a cargo do Ensemble Zefiro, dirigido pelo exímio oboísta Alfredo Bernardini), em que a por vezes excessiva celeridade dos andamentos não ofuscou um trabalho de conjunto que soube equilibrar o brilhantismo individual da maior parte dos instrumentistas com a coesão dos tutti, os concertos seguintes foram dedicados à música de câmara. Um deles, na passada sexta-feira, trouxe de novo a Portugal o quarteto de cordas Chiaroscuro, fundado em 2005 pela violinista russa Alina Ibragimova, com um programa que colocou lado a lado os consagrados Haydn e Beethoven e a compositora Fanny Mendelssohn (1805-1847), cujos talento e prolífica produção musical (cerca de 500 obras, sobretudo para canto e piano) ficaram na sombra devido aos entraves que a sociedade e a mentalidade oitocentistas colocavam às mulheres com aspirações a uma carreira artística ou profissional.

Na Sala da Música do Palácio de Queluz, o Quarteto Chiaroscuro, que usa cordas de tripa e diferentes arcos históricos em função dos repertórios que aborda, fez justiça à sua crescente reputação internacional, mostrando uma proficiência técnica irrepreensível, estreita cumplicidade entre os seus elementos (mesmo quando Ibragimova assume de forma mais nítida a liderança) e uma energia contagiante que não é apenas fogo-de-vista, mas surge associada a uma leitura perspicaz das obras em termos de estilo e carácter. Tal foi bem evidente no Quarteto op. 33, n.º2, A Brincadeira, de Haydn, do qual emergiram a elegância de fraseados e a clareza polifónica entre as diferentes partes, mas também incisivos traços rústicos (no Scherzo). A forma como criaram suspense no Presto conclusivo (o andamento que está na origem do nome do quarteto) foi extremamente eloquente e teve o desejado efeito de “enganar” o ouvinte. Trata-se de um dos engenhosos exemplos de humor musical no qual Haydn era pródigo. Na secção final, uma longa pausa faz pensar que a peça acabou, mas logo depois regressa o tema principal, interrompido por pausas a cada dois compassos. Estas tornam-se cada vez mais longas, brincando com as expectativas do ouvinte face à conclusão da peça.

Seguiu-se o Quarteto em Mi bemol Maior, de Fanny Mendelssohn, que apenas teve a sua estreia pública em 1986. A obra tem por base uma sonata para piano da autora, deixada incompleta, inspirada em obras do irmão (o famoso Felix Mendelssohn) como o Quarteto op. 12 e a Fantasia Escocesa, para piano. Mas o facto de ter recorrido a esse material não se traduz numa criação menor ou superficial. A obra mostra que Fanny Mendelssohn estava perfeitamente a par das tendências do seu tempo, incluindo a linguagem de Beethoven, e revela grande consistência e profundidade expressiva, traço acentuado por uma interpretação percorrida por uma forte intensidade emocional da parte do Quarteto Chiaroscuro.

Depois do intervalo, o Quarteto op. 130, n.º13, de Beethoven (na versão que exclui a “Grande Fuga” inicialmente composta como andamento conclusivo), foi igualmente objecto de uma interpretação de alto nível. Nesta obra de grande fôlego e ousadia no plano da estrutura e da forma, diferentes coloridos de sonoridade e uma ampla paleta dinâmica, meticulosamente calculada, foram colocados ao serviço dos incisivos contrastes entre cada andamento, atingindo momentos de grande beleza como sucedeu na famosa Cavatina.

As Noites de Queluz prosseguem na quinta-feira com a prestigiada meio-soprano Angelika Kirchschlager, que partilha com o Divino Sospiro, dirigido por Massimo Mazzeo, um programa dedicado a Bach.