Crónica

Cancro: Tirem dez minutos da vossa semana, palpem as vossas maminhas

O Cancro da Mama afecta uma em cada 11 mulheres em Portugal, e mata cerca de 1600 mulheres por ano. Descobri, à força, que é uma realidade que pode afectar qualquer mulher, em qualquer idade, por isso tirem dez minutos da vossa semana, palpem as vossas maminhas

Imagem da Campanha "Don't be Shy" T-shirt solidária criada pelo designer Luis Carvalho
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Imagem da Campanha "Don't be Shy, Touch Yourself" T-shirt solidária criada pelo designer Luis Carvalho DR

2019 não foi um ano meigo… Ainda assim não posso dizer que não tenha sido carinhoso comigo. Estava ainda a recuperar de uma cirurgia quando fui fazer a minha ecografia mamária de rotina, ao sítio do costume com o meu médico de sempre, e preparada para a usual conversa de circunstância que costuma rolar enquanto o aparelho rola sobre o gel frio na pele, até se constatar que está tudo bem e que posso limpar o mesmo gel e as preocupações a um naco de papel dado pela enfermeira e voltar passado um ano para repetir o processo.

Neste 2019 foi diferente, e saí do hospital com um furo da agulha da biópsia na mama esquerda e com a sensação que tinham furado demasiado fundo e atingido o coração. Os dias que se seguiram foram um misto de ansiedade, apatia e esperança, afinal aos 33 anos a estatística costuma estar a nosso favor mas, no dia em que Notre Dame estava a arder, foi-me dado o relatório da biópsia que confirmou um Carcinoma Invasor Grau 3.

Depois desse dia fui apanhada por um turbilhão de exames médicos, fiz várias viagens num carrossel emocional e tive múltiplos fantasmas a sussurrar-me ao ouvido na hora de dormir. Esta fase de digerir a notícia, acho que foi a mais atribulada do processo. Acordar de manhã com a normalidade de sempre para passado dois segundos me lembrar do que estava a acontecer, contar aos que estão à minha volta e ainda ter de os consolar, gerir as imensas opiniões e conselhos sobre ‘o tio afastado que teve cancro no intestino mas que foi salvo pelo curandeiro de Alcobaça’ e tudo isto enquanto me mentalizava que ia fazer quimioterapia e ficar careca… Foi uma fase intensa e peculiar, mas recebi tanto (vou reforçar aqui o ‘tanto’) amor! Tomara que toda a gente a passar por um momento difícil recebesse o amor que eu recebi! Depois começaram as boas noticias, e o meu caso foi repleto delas e não caibo em mim de gratidão pela sorte que tive: A ressonância revelou que o tumor era 2mm mais pequeno do que inicialmente se viu na biópsia.

Afinal, podia começar o tratamento pela cirurgia. Fiz apenas tumorectomia. Os três gânglios da axila que me tiraram na cirurgia estavam negativos… Tudo isto, junto com aquele amor todo que referi ali em cima e com uma equipa de médicos por quem senti uma tremenda empatia e confiança foram-me carregando baterias e forças e, antes de começar a quimioterapia já tinha metido na minha cabeça que, uma vez que tinha de passar por isto e tinha, ia fazê-lo da forma mais optimista e leve que estivesse ao meu alcance. Para o meu bem e para o bem dos que me amam. Durante os 12 ciclos de quimioterapia que fiz, comi o que os livros diziam ser melhor para o meu corpo, treinei pelo menos três vezes por semana (nem que fosse apenas uma caminhada nos dias em que estava exausta), bebi dois litros de água, batalhei as insónias com chás e ansiolíticos e não fiz fretes. Fui cortando o cabelo, primeiro acima dos ombros, a seguir bem curto até que depois do quarto tratamento, e de acordar numa almofada com mais cabelo do que eu, o rapei. 

Fui encarando a quimioterapia (assim como estou a tentar encarar todo o tratamento) como uma contagem decrescente para o regresso à normalidade. Ao longo de um Verão sem férias, sem praia, água do mar, mergulhos na piscina nem noites a dançar, cada sessão que fazia era menos uma que faltava fazer. Os efeitos secundários que tive foram suportáveis e possíveis de gerir com medicação e muita paciência. De repente a quimioterapia acabou, sem adiar nenhum ciclo nem nenhum imprevisto. Seguiu-se a radioterapia, que também fluiu normalmente. 

Estou a escrever este texto sem ter passado ainda uma semana do final da radioterapia e, apesar do longo período de tratamento que tenho pela frente, sinto um tremendo alívio por estar a recuperar a minha vida devagarinho, por poder voltar ao trabalho e a sítios cheios de gente, bactérias e vírus. Não sou da opinião de que ‘a cura está na nossa cabeça’, porque há muita gente com o pensamento mais positivo do que o meu que não tem a sorte que eu tive, e acho injusto a culpa que essa afirmação deposita nessas pessoas, mas acredito que ser positivo ajuda e facilita o processo. 

E sobre este 2019 pouco meigo, não consigo dizer que não tenha sido carinhoso comigo porque mostrou-me amor a uma nova escala, ensinou-me a ser paciente, ditou-me prioridades, alertou-me para a necessidade de gerir stress e cuidar de mim, sublinhou a fluorescente que não há nada mais importante do que a nossa saúde.

O Cancro da Mama afecta uma em cada 11 mulheres em Portugal, e mata cerca de 1600 mulheres por ano. Descobri, à força, que é uma realidade que pode afectar qualquer mulher, em qualquer idade, por isso tirem dez minutos da vossa semana, palpem as vossas maminhas e estejam alerta porque um diagnóstico precoce pode salvar uma vida. Por aqui, eu sei que ainda faltam três meses, mas já estou em contagem decrescente para um 2020 mais tranquilo e terno.

Styling & Creative Direction, rosto da T-shirt solidária criada por Luis Carvalho