Terra-natal dos humanos modernos fica no norte de Botswana

Cientistas assinalam o lugar preciso em África de onde vieram os humanos modernos a partir da mais antiga linhagem maternal e segue o rasto das primeiras migrações empurradas pelas mudanças no clima.

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A geneticista Vanessa Hayes a conversar com Ikun Ikunta, chefe de uma familia da região Chris Bennett, Evolving Picture/Sydney

Há uma nova actualização a fazer no mapa da evolução humana. A sul do rio Zambeze, no Norte do Botswana, deve ser colocado um sinal que, a partir de agora, indica a “pátria” ancestral de todos os humanos que (sobre)vivem no planeta. A indicação geográfica do lugar preciso de origem dos humanos anatomicamente modernos (Homo sapiens sapiens) é uma das principais conclusões de um estudo publicado esta segunda-feira na revista Nature. O estudo conjuga e sobrepõe dados da genética, arqueologia, clima e muitas outras disciplinas desvendando onde, quando e como começaram as primeiras migrações.

“Já sabíamos há muito tempo que os humanos modernos vieram de África. Mas não se sabia de onde exactamente”, começa por referir Vanessa M. Hayes, geneticista do Instituto de Investigação Médica Garvan de Sydney, na Austrália, e de várias instituições académicas na África do Sul, logo no início da conferência de imprensa organizada pela Nature sobre o estudo. A seguir, pouco a pouco, a cientista e outros dois autores da investigação vão desvendando a sua incrível versão da história das origens dos humanos modernos. O comunicado de imprensa do instituto anuncia que estamos perante uma janela para os primeiros 100 mil anos de história dos humanos modernos, que se serviu do ADN como cápsula do tempo.

Esta versão tem dados mais precisos do que qualquer outra contada até agora, apontado para um lugar específico e sugerindo datas e rotas das primeiras migrações dos humanos modernos. Tudo a partir da análise daquela que é considerada como a mais antiga linhagem materna, pertencente ao haplogrupo de ADN mitocondrial L0. Os investigadores usaram dados de várias disciplinas, cruzando a distribuição geográfica de mais de mil mitogenomas (genomas mitocondriais, ou seja, o ADN de origem materna) de africanos vivos do Sul de África.

“Este projecto é sobre as pessoas que andam por aí nos dias de hoje”, sublinhou a investigadora, adiantando que muitas das descobertas de fósseis que nos remetem para outros locais e outros tempos dizem respeito a espécies humanas que acabaram por desaparecer da face da terra, sem deixar marcas preservadas no nosso ADN. Aqui, apresenta-se a maior amostra da mais ancestral linhagem materna (do haplogrupo L0, com 198 novos mitogenomas e um total de 1217 mitogenomas) de africanos do Sul de África contemporâneos.

“O ADN mitocondrial age como uma cápsula do tempo das nossas mães ancestrais, acumulando mudanças lentamente ao longo de gerações. A comparação do código completo do ADN, ou mitogenoma, de diferentes indivíduos fornece informações sobre as relações entre eles”, explica Vanessa Hayes, que liderou este estudo.

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Alguns representantes da população da região mostram à investigadora Vanessa Hayes como fazem fogo Chris Bennett, Evolving Picture, Sydney, Australi

A estas informações genéticas juntaram-se outras, entre as quais modelos climáticos que ajudaram a reconstituir o que se aconteceu naquele lugar há muito tempo, revelando a existência de um imenso lago onde hoje encontramos um pântano e a abertura de “corredores verdes” que indicaram o caminho de saída da região aos nossos antepassados.

O grande X no mapa deve então ser colocado a sul da região da bacia do rio Zambeze, que inclui toda a extensão do norte do Botswana até à Namíbia, a oeste, e ao Zimbabwe, a leste.

Uma espécie de paraíso

Então, salvaguardando a omissão de alguns detalhes mais técnicos sobre este trabalho, a história que Vanessa Hayes conta recua há 200 mil anos e a acção passa-se num enorme lago (quase duas vezes maior do que é hoje o Lago Vitória) no Sul de África. Mais precisamente na região dos actuais pântanos de Makgadikgadi. O imenso lago acabou mais tarde por quebrar-se em lagos mais pequenos que foram evaporando. Hoje sobra uma terra seca com desertos e salinas. Foi aqui que a geneticista encontrou aquela que defende ser a população de origem dos humanos modernos. A nossa “terra-natal”.

Segundo o estudo, os humanos modernos estabeleceram-se nessa região quando era verdejante e exuberante, à volta do enorme lago. A descrição leva-nos para uma espécie de paraíso. E ali os caçadores-recolectores permaneceram durante 70 mil anos. Vanessa Hayes explica que não encontrou nos dados genéticos sinais de divergências neste período. “O que quer dizer que durante essa altura estes humanos permaneceram nesta região.”

Mas foi então que o clima mudou, abrindo corredores verdes à volta que permitiam a aventura das migrações. E a população começou a dispersar-se, defende Axel Timmermann, do Centro de Física Climática da Coreia do Sul.

A primeira linhagem a separar-se, prossegue a geneticista, terá abandonado o local há 130 mil anos e seguiu na direcção a Nordeste do rio Zambeze. Mais tarde, há 110 mil anos, outra divergência nos dados genéticos denuncia mais uma migração rumo a sudoeste. Segundo esta versão da história, foi a partir daqui – a partir destas migrações por estes primeiros corredores verdes a sair de uma região onde existiu um imenso lago no norte do Botswana que hoje é um deserto – que começou a longa e viagem dos humanos modernos para fora de África e, depois, para o resto do planeta.

Esta é, frisamos, a história que a linhagem materna mais antiga nos conta sobre os humanos modernos. Não será, no entanto, “o princípio de tudo”, admite Vanessa Hayes, que constata que o estudo refere que aqui encontramos a pátria ou terra-natal (homeland, na expressão em inglês) dos humanos modernos, mas não necessariamente o “berço”. “Sabemos que aqui estava a população fundadora”, esclareceu, deixando em aberto a história sobre os indivíduos que ali se juntaram.

Apesar de as migrações da população que ia dispersando pelos corredores verdes, alguns ficaram. E alguns permaneceram ali até hoje. Vanessa Hayes conta que as descobertas relatadas no artigo que assina na Nature não surpreenderam as pessoas que vivem ali agora. Acompanhado o artigo, Vanessa Hayes aparece numa fotografia com outras pessoas a formar um círculo na terra seca. A legenda diz que ali vemos a investigadora “a aprender a fazer fogo com os caçadores Ju’hoansi na terra-natal agora seca do grande Calaári da Namíbia”. Há dez anos que a geneticista visita e estuda o lugar. “As pessoas que vivem ali disseram-me que o que queriam deste projecto é que a sua história fosse contada. A mesma que foram contando de geração em geração. Disseram-me ‘nós sabemos que sempre aqui estivemos.’”