Austrália

Aborígenes choram sobre o leito de um rio seco

Tracey Nearmy|REUTERS
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Conjuntos de poças de água estagnada, de cor mostarda graças à concentração de pesticidas, carcaças de gado e peixe em decomposição: é esta a visão actual sobre o rio Darling, em Menindee, a vila que se situa 830 quilómetros a Oeste de Sydney, o local onde "a sede se transformou em ira", de acordo com a agência Reuters. Os residentes culpam o Governo australiano pela presente situação, acusando-o de ter canalizado parte do caudal, em 2017, para irrigação de terrenos agrícolas de outras regiões.

Patricia Doyle, aborígene, constata, em entrevista à Reuters: "É a partir do rio que nos alimentamos; é ele também a nossa fonte de água. Era a nossa subsistência." Hoje, afirma, já quase ninguém utiliza a água que sai das torneiras para beber ou mesmo para dar banho a crianças ou bebés, uma vez que causa irritações cutâneas. A água engarrafada é, por isso, já parte da rotina da população. No jardim das traseiras da casa de Patricia, que tem vista para o rio, vê-se claramente o leito do rio exposto e coberto de detritos. "Quando se vive junto ao rio e se tem de comprar água no supermercado para consumo diário, o que é que isso significa? Que o nosso sistema não está a ser devidamente preservado."

Os últimos dois anos foram os mais secos na região desde que há registo, ou seja, desde o ano de 1900. Em 2018, em Menindee, as temperaturas chegaram aos 38 graus. A seca está a pesar sobre o crescimento económico e as condições meteorológicas adversas levaram a que o país, pela primeira vez em 12 anos, tenha tido que importar trigo — um cereal que, geralmente, exporta. O Governo já criou um comité para avaliar e compreender a gestão das águas e promete soluções para breve.

A tribo Barkindji, "gentes do rio" em língua aborígene, baptizou como “Barka” o rio Darling. É o seu leito que está no centro das histórias que remontam à origem da tribo e da sua vida cultural, o que se torna particularmente evidente em Menindee, onde um terço dos 550 residentes são indígenas. Kyle Philip, caçador, pastor de cabras e membro da comunidade minoritária, afirma que o rio já não tem o mesmo peso ou a mesma relevância que tinha, enquanto meio de subsistência, no passado. Hoje, toda a sociedade de Menindee está a sofrer devido à deterioração de Darling. Os pais proibiram as crianças de nadar nas poças mais volumosas, onde os peixes que ainda sobrevivem se tornaram impróprios para consumo. "É possível sentir o sabor a lama no peixe", descreve Philip. "É mesmo impossível comê-lo."

No sentido de "curar o Barka", a comunidade indígena tem realizado alguns festivais nas suas margens. Os rituais, encabeçados por homens de pele decorada a tinta branca, consistem em danças em redor de fogueiras que decorrem ao entardecer. O objectivo é venerar o rio, sim, mas também alertar a restante população e as autoridades para a necessidade de intervenção. "Vamos começar a dançar e a cantar pela terra", explica o organizador de um dos festivais, Bruce Shillingsworth, à Reuters. "Vamos dançar e cantar até que o ambiente em nosso redor se torne saudável de novo." Nenhum deus fica de fora destas preces. A igreja anglicana de Menindee também lhe dirige orações, garante a reverenda Helen Ferguson. "O rio deve continuar a correr. Quando o rio flui, as pessoas ganham uma nova energia e toda a cidade ganha vida, o que já não acontece há algum tempo. Rezo para que as pessoas não esmoreçam."

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