Análise

Os chilenos provaram a prosperidade e agora querem muito mais

Os protestos que percorrem a América Latina têm um pano de fundo comum: a desaceleração do crescimento e a emergência de novas aspirações.

Uma onda de protestos percorre a América Latina. Vêem-se tanques nas ruas do Chile e barricadas na Bolívia. O Presidente do Equador teve de mudar a sede da capital para fugir aos motins da gasolina. Há agitação política no Peru e no Paraguai. Da Venezuela não vale a pena falar. Do Haiti também não. No Brasil, governa Bolsonaro. Amanhã há eleições “normais” no Uruguai e eleições “dramáticas” na Argentina, uma vez ameaçada de falência.

A analista Marta Lagos, directora do instituto de inquéritos Latinobarómetro, avisa que o crescimento dos protestos violentos e de crises políticas não obedece à cor política dos governos. Não se trata de esquerda e direita. Porque está toda a gente nas ruas de Santiago? “Porque as pessoas sabem que, descendo à rua, são escutadas.” Prevê que as manifestações irão continuar em torno da exigência de “garantias sociais”.

Estas “crises” são muito diferentes entre si mas parecem ter um pano de fundo comum: a desaceleração do crescimento. A América Latina cresce muito mais lentamente do que o prometido. Durante esta década, o crescimento médio foi de 2,2%, claramente abaixo da média mundial, 3,8%, e muitíssimo abaixo da Ásia, 7,1%.

Os anos 1960 e 1970 foram marcados por ditaduras militares. Os anos 1980 foram a “década perdida” das crises da dívida. A seguir, veio a chamada era do “consenso de Washington” e das receitas de crescimento elaboradas pelo FMI. A década de 2000 assistiu ao boom das matérias-primas e fez acreditar que o futuro já tinha chegado. As Américas deram passos de gigante na redução da pobreza e na estabilização das democracias. Mas, em 2012-13, os preços das matérias-primas recomeçam a cair. A América Latina descobre-se de novo apanhada na ratoeira das matérias-primas. As economias não foram capazes de se diversificar à velocidade exigida.

E há uma má notícia, escreve Brian Winter, director da revista Americas Quarterly: “O mundo avançou e avizinham-se desafios como automatização e a inteligência artificial. A América do Sul está a envelhecer rapidamente, o que torna particularmente urgentes as reformas do sistema de pensões.”

Um círculo vicioso

Os países não são iguais, têm tradições políticas distintas e seguem diferentes modelos económicos. É útil uma breve referência à Argentina onde, como sempre, se assiste a um confronto eleitoral entre peronistas e antiperonistas.

A economia argentina tem uma doença crónica, designada por “restrição interna” e que significa escassez de divisas. Faltam-lhe sempre dólares para sustentar o crescimento. Resume um centro de estudos económicos: “Das últimas 16 recessões económicas que sofreu desde o fim da II Guerra Mundial, 15 surgiram porque o país ficou sem dólares.”

A economia argentina funciona por ciclos contraditórios. O Governo tem de escolher entre endividar-se ou impor um controlo de capitais, de modo a evitar a saída de dólares. Em termos simplistas funciona assim: a expansão económica aumenta a produção industrial; mas isto faz subir as importações porque a indústria depende de componentes importados – o sector automóvel, um dos mais importantes, importa 70% de componentes. Ou seja, crescer implica aumentar as importações.

Por trás do círculo vicioso está uma velha realidade: a economia depende excessivamente das exportações agrícolas. E, por mais soja ou milho que exporte, está a vender produtos com baixo valor acrescentado contra importações mais valiosas.

Explosão das expectativas

O Chile foi uma surpresa – era um modelo de estabilidade política e a economia que mais crescia. Crescerá este ano acima da média da região. A pobreza foi fortemente reduzida. A desigualdade de rendimentos é grande mas não superior às dos vizinhos. É um país menos desigual do que, por exemplo, o Brasil ou o México.

É já um lugar-comum apontar o fracasso do modelo económico neoliberal do Chile. É um raciocínio que não permite explicar por que rebentam os tumultos agora. Lembram os analistas que, nas eleições de 2017, o programa neoliberal de Piñera foi preferido pelos eleitores por ter sido encarado como o mais eficaz para relançar o crescimento. Os chilenos não se revoltaram antes. Interessante é saber por que o fazem agora.

O argumento encerra uma verdade: o modelo neoliberal chileno parece esgotado. Não foi capaz de resolver a dependência do cobre. A economia não se diversificou o suficiente. E os altos níveis de desigualdade deixaram de ser socialmente tolerados. “O Chile precisa de um modelo de crescimento mais inclusivo”, escreve o Financial Times em editorial.

Por outro lado, o sistema chileno é vítima do seu próprio sucesso. A modernização é largamente responsável pelo descontentamento dos cidadãos. Trouxe novas aspirações e novas exigências. Os salários são muito baixos, o custo de vida é muito alto, as pensões de reforma são baixíssimas. O sistema de saúde, assente em seguros privados, é demasiado caro e não serve a maioria. O sistema de ensino é dos melhores da região mas abaixo dos padrões dos países desenvolvidos e, por isso, é um dos temas recorrentes do protesto social.

A taxa de pobreza foi certamente reduzida. Mas os que saem da pobreza e aspiram a entrar numa classe média querem mais – e agora. Michael Reid, correspondente da Economist na América Latina, aponta três chaves de leitura para os protestos: o descontentamento económico da emergente classe média, a fúria contra o sistema político e a influência do “protesto global”: dos “coletes amarelos” franceses às espectaculares mobilizações de Hong Kong, passando pelos “incêndios” de Barcelona.

A classe média chilena “provou a prosperidade”, aprendeu que ela é possível, segue com atenção o que se passa “do outro lado do mundo”, quer subir de patamar e reagirá se a “elite” lhe quiser fechar a porta. Piñera foi reeleito anunciando o advento de um “mundo melhor”. Repete Marta Lago: “Na América Latina já temos as liberdades. O que necessitamos agora são as garantias sociais.”

O protesto continua, maciço e menos violento. Em Novembro, realiza-se no Chile a cimeira do Fórum de Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC). E, em Dezembro, a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (COP25). Serão momentos propícios à visibilidade mundial do Chile e seus protestos. Esta história não acabou.

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