Opinião

Chile: crise no paraíso neoliberal

Depois de uma década de retrocessos sociais e derrotas para esquerda, os levantes populares em Chile, Equador ou Líbano têm em comum a insurgência de uma massa que se levanta contra as políticas neoliberais a nível internacional.

A crise no Chile retoma um antigo debate sobre a eficácia dos sistemas políticos neoliberais. Por muitos anos o país foi tratado por economistas e políticos defensores desse sistema como o ideal a ser seguido. Instaurou pela primeira vez sob as alçadas de um governo autoritário e de extrema-direita – liderado por Pinochet – um modelo de ditadura que foi o laboratório para políticas neoliberais no mundo, até há bem pouco tempo utilizado como exemplo de como essa política de Estado mínimo à custa da população é capaz de trazer benesses económicas. 

Na esteira dos ideais da Escola de Chicago, que depois foi exportado para outros países neocoloniais e finalmente para a Europa e EUA – esse mesmo modelo de políticas tem se transformado nas últimas três décadas em senso comum. Deixou de ser restrito da extrema-direita, invadiu a esfera pública e impôs seus ajustes e reformas económicas à classe trabalhadora e o meio ambiente, com imposição de livre comércio, ataques aos direitos sociais, precarização do trabalho, privatizações de serviços públicos e um extractivismo brutal das riquezas naturais. Imagina-se que a água fosse privatizada e que grande parte da população tem problemas de acesso à mesma porque ela foi monopolizada pelos grandes grupos económicos da agroindústria, energia e sector mineiro. Essa é a realidade no Chile.

O filósofo chileno Ricardo Espinoza Lolas já há algum tempo chamava a atenção ao facto de que o modelo neoliberal implementado no país impõe o ideal de um capitalismo hierárquico, militarizado, já que é incapaz de cumprir as demandas sociais. Lolas alerta que o ideal de capitalismo bem-sucedido que o Chile exportou para o mundo, e que o atual Presidente Sebastián Piñera insiste em defender, nada mais é que um sistema politico que pretendia manter as pessoas presas em sua subjetividade, no gozo individualista, sem vínculos com o tecido sócio-histórico – onde até os mais pobres se sentiam empreendedores, a ponto de se tornarem soldados radicais dessa economia ideológica que os transforma em zumbis com o passar do tempo.

Resultou numa grande concentração de renda e riqueza, onde uma oligarquia do poder político e económico oprime progressivamente seu povo e retira a responsabilidade do Estado em diversas áreas em prol do benefício do mercado. Os anos da troika em Portugal, com a imposição externa dum programa austeritário de ajustamento estrutural, dão nos uma pequena ideia do sofrimento que a população Chilena teve de aguentar durante décadas.

As recentes manifestações lideradas por estudantes de secundária que tiveram início em 14 de outubro, e paralisaram as estações de metro com protestos contra o aumento na tarifa de transportes públicos, rapidamente se converteram em protestos contra a ordem hegemónica neoliberal instaurada no país há décadas e deixaram evidentes As veias abertas da América Latina – título de um dos textos clássicos do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, onde critica as políticas imperialistas que invadiram e ainda hoje massacram a região.

Os protestos emergem como o estopim de uma série de demandas que têm sido constantemente negligenciadas pelo governo – e que conduziram à precariedade generalizada nas mais diversas áreas do serviço público. O estado de exceção perpetrado pelo Estado chileno com o intuito de legitimar a violência contra os manifestantes tem tido como resposta o levante de várias greves parciais que foram convocadas nos últimos três dias - mais de vinte portos foram fechados e recentemente o sindicato dos mineiros do Chile (uma das categorias mais importantes do país) apelou à greve em solidariedade aos estudantes.

Depois de uma década de retrocessos sociais e derrotas para esquerda – avista-se uma nova onda de contestação social que desestabiliza governos –,​ os levantes populares em Chile, Equador, Líbano têm em comum a insurgência de uma massa que se levanta contra as políticas neoliberais a nível internacional.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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