Acusado de fraude, Evo Morales denuncia golpe de Estado

Resultados provisórios na Bolívia sugerem que o Presidente vai evitar segunda volta de uma eleição cuja contagem foi suspensa quando apontava cenário contrário. Protestos e violência podem continuar.

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Evo Morales é Presidente da Bolívia desde 2006 Reuters/DAVID MERCADO

Evo Morales pode estar perto de ser reeleito para o cargo que ocupa há 14 anos e, entre protestos e acusações de fraude, responde com denúncias de golpe de Estado com apoio internacional. Segundo os dados revelados pelas autoridades eleitorais da Bolívia, com 98,4% dos votos contabilizados o Presidente socialista lidera a contenda com uma vantagem de 10,1% sobre o ex-Presidente Carlos Mesa. A confirmar-se a distância, evita uma nova ronda. Um desfecho que a oposição vai contestar, tendo em conta a suspensão súbita da contagem, na segunda-feira, quando os números indicavam que a segunda volta era o desfecho mais provável das presidenciais de domingo.

De acordo com as regras eleitorais bolivianas, para que não seja necessário realizar uma segunda volta, um candidato tem de ultrapassar os 50% dos votos ou ter uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o segundo classificado. Quando a contagem foi suspensa, com 84% dos votos contabilizados, Morales tinha 45% e Mesa 38%. Mas os resultados actualizados dão 46,8% ao primeiro e 36,75% ao segundo – mais 10,1%.

Uma vantagem curtíssima e que está por confirmar, mas ainda assim suficiente para o Presidente se mostrar confiante na vitória. 

“Uma boa notícia: ganhámos a primeira volta. Só falta contabilizar 1,58% dos votos, que são das áreas rurais”, anunciou esta quinta-feira, em conferência de imprensa, garantindo que “seria lindo ir a uma segunda volta”, mas mostrando-se crente de que o apoio histórico do eleitorado nas zonas rurais e do movimento indígena no ‘seu’ Movimento para o Socialismo (MAS) lhe permitirá resolver já a eleição.

Acusado por Carlos Mesa de “romper sistematicamente a ordem constitucional”, compelido pela comunidade internacional – com a Organização de Estados Americanos (OAE) à cabeça – a avançar para a segunda volta independentemente dos resultados oficiais e pressionado pelos protestos e actos de violência registados em várias cidades do país, Morales denuncia a existência de um golpe de Estado para frustrar a sua candidatura.

“Está em marcha um golpe de Estado. Já o sabíamos antecipadamente. Quem o preparou foi a direita, com apoio internacional”, atirou, na véspera. “Quero que o povo boliviano saiba que até agora aguentámos humildemente, evitámos a violência. Não entrámos em confronto e nunca vamos entrar em confronto. Mas quero dizer ao povo boliviano: primeiro, um estado de emergência e mobilização pacífica e constitucional”.

A polémica suspensão da contagem dos votos motivou a demissão de um dos vice-presidentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e precipitou protestos e greves em várias cidades bolivianas, com os mais participados a terem lugar em La Paz, Santa Cruz, Cochabamba e Potosí. Paralelamente, foram organizadas diversas manifestações de apoio a Morales.

Na capital e em Santa Cruz foram registados nos últimos dias confrontos entre manifestantes e polícias, que levaram as autoridades a lançar gás lacrimogéneo para desmobilizar. Para além disso, várias mesas de voto e sedes do TSE, em diferentes pontos do país, foram vandalizadas.

"Protesto permanente"

Incidentes que Evo Morales, no poder desde 2006, diz serem motivados pelos “apelos à desobediência” vindos da oposição, que já disse que não vai reconhecer o resultado. Mesa, da candidatura Comunidade Cidadã, pediu um “protesto permanente” e prometeu continuar nas ruas “até que se reconheça que a segunda volta se deve realizar”.

“O nosso amado país não pode entrar no caminho da ditadura para o qual o Presidente Morales o quer levar”, criticou o homem que ocupou o cargo de Morales entre 2004 e 2005.

Em resposta, o actual Presidente acusou o seu adversário de ser um “cobarde e um delinquente”, relembrando-lhe a eleição de 2002, perdida por 2% para a dupla formada por Gonzalo Sánchez de Lozada (Presidente) e Carlos Mesa (vice-presidente).

“Quando perdemos não começámos a queimar mesas de voto e não pusemos a eleição em causa, mesmo sabendo que nos roubaram votos nessa altura”, afirmou Morales.

O Presidente da Bolívia garante que não houve qualquer fraude e desafia todos aqueles, dentro e fora do país, que denunciaram o processo de contagem de votos, a apresentarem provas. Incluindo a OAE, que também foi alvo de duras críticas: “Ainda a contagem não tinha terminado contagem e já tinham opinado e sugerido uma posição. Não quero pensar que a OAE está com o golpe de Estado, mas acho que deveria avaliar a sua missão também”. 

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