Draghi na despedida: “Agora todos dizem que o euro é irreversível”

De forma discreta, Mario Draghi deixou, na sua última conferência de imprensa como presidente do BCE, recados aos críticos. “A realidade fala mais alto”, disse.

Mario Draghi, na sua última conferência de imprensa como presidente do BCE, em Frankfurt
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Mario Draghi, na sua última conferência de imprensa como presidente do BCE, em Frankfurt LUSA/RONALD WITTEK

Embora reconhecendo que o BCE ainda terá de manter por um longo período de tempo as medidas expansionistas que adoptou durante o seu mandato, Mario Draghi defendeu esta quinta-feira, na última conferência de imprensa como presidente do Banco Central Europeu, o seu legado, lembrando as melhorias registadas desde o auge da crise da zona euro e respondendo que “a realidade fala mais alto” às críticas que lhe são feitas desde a Alemanha.

A despedida de Draghi, não só das conferências de imprensa, como das próprias reuniões do conselho de governadores do BCE, aconteceu depois de nas últimas semanas presidentes dos bancos centrais nacionais de vários países (Alemanha, Holanda, França e Áustria) terem criticado publicamente as decisões tomadas por maioria entre os membros do BCE, nomeadamente o reinício do programa de compra de activos.

Será que isto pode colocar em causa o legado de Draghi como presidente do BCE? O ainda presidente da autoridade monetária optou por minimizar a importância dos desentendimentos, sem deixar contudo de reafirmar que ele – e a maioria dos membros do conselho de governadores – é que tem razão. “Francamente a resposta é não [à possibilidade de as críticas públicas poderem manchar o legado]. Todos os bancos centrais têm desentendimentos. Às vezes são tornados públicos, outra vez não. Tomei isto como parte das discussões normais”, afirmou, garantindo que não falou com os governadores em causa sobre o assunto.

Na reunião desta quinta-feira, disse Draghi, o que ouviu desses governadores dissidentes foi “apelos à união”, especialmente no que diz respeito à execução das medidas adoptadas pela maioria. E, para além disso, defendeu, “tudo o que aconteceu na economia desde Setembro mostraram que aquilo que o BCE fez é justificado”.

Em termos gerais, aliás, quando questionado sobre as críticas que, durante o seu mandato recebeu da Alemanha, Mario Draghi limitou-se a argumentar que os dados económicos e o mandato do BCE (de colocar a inflação “abaixo, mas perto de 2%") são o suficiente para justificar as suas acções. “A realidade fala mais alto”, disse - uma forma de se declarar o vencedor.

Draghi, sempre de forma discreta, também puxou dos galões, quando falou das crises vividas na zona euro nos primeiros seis anos do seu mandato e que é creditado por ter resolvido quando afirmou estar disposto a “fazer tudo o que for preciso” para salvar o euro num discurso em 2012.

Em relação à Grécia, que este mês emitiu dívida de curto prazo a taxas de juro negativas, disse que isso era, não um risco, mas “claramente um sucesso”. “É um bom momento para a Grécia e um bom momento para a zona euro”. E, em relação à Itália, quando questionado sobre os riscos de em algum momento o país querer sair do euro, Mário Draghi afirmou que, ao contrário do que aconteceu no auge da crise, “agora todos dizem que o euro é irreversível”.

Nem tudo é positivo na zona euro, reconhece no entanto. O maior risco é uma contracção da economia e aquilo que mais falta faz à união monetária “é uma capacidade orçamental central”, capaz entre outras coisas de pôr em prática uma política contra-cíclica.

Mas, por isso mesmo, justifica-se o regresso recente do BCE às políticas mais expansionistas. “É verdade, gostaríamos de ter tido uma normalização da política. E começámos a fazer isso. Mas as condições mudaram, e o que está acima de tudo é cumprir o mandato desta instituição. E por isso tivemos de mudar de curso outra vez”, afirmou, reconhecendo que “as taxas de juro vão manter-se baixas durante muito tempo”.

Conhecido por ser pouco expansivo, Mario Draghi não mudou de tom numa conferência de imprensa em que a maior parte das perguntas foram, não sobre política monetária, mas sim de carácter mais pessoal.

As respostas de Draghi foram sempre curtas, revelando o menos possível.

O que retira da experiência dos últimos oitos anos? “Foi uma experiência intensa, profunda, fascinante, vou levar isto comigo. Mas é demasiado cedo para reflexões pessoais”.

O que sente sobre o fim do seu mandato? “Sinto-me como alguém que tentou cumprir o mandato que tinha o melhor que me foi possível”

De que é que se arrepende mais? “Foco-me sempre naquilo que pode ser feito e não naquilo que não se pode mudar”.

De que é que se orgulha mais? “A forma como o conselho cumpriu o seu mandato. Nunca desistimos disso”.

O que vai fazer agora? “Não tenho uma ideia concreta. É melhor perguntar à minha mulher, ela deve saber. Espero que saiba”.

O que vai fazer ao capacete “pickelhaube“ oferecido pelo jornal alemão Bild no início do mandato? “’Das Geschenk ist das Geschenk’ [um ditado alemão que significa ‘o presente é o presente’].  Planeio guardá-lo”.

Na reunião do conselho de governadores já esteve presente a futura presidente do BCE, Christine Lagarde, que irá tomar posse no dia 1 de Novembro. Para já, a francesa, ex-directora geral do FMI, não participou nas discussões nem nas deliberações. Questionado sobre que conselho deixa à sua sucessora, Draghi voltou a não abrir o jogo: “Para Lagarde, não são precisos conselhos, ela sabe melhor que ninguém o que fazer e o que dizer”.