Zuckerberg mostra-se disposto a reduzir as suas ambições para a Libra

Fundador do Facebook tenta tranquilizar os reguladores norte-americanos sobre o projecto da rede social para criar uma divisa digital.

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Zuckerberg admitiu que não é o mensageiro ideal para o projecto LUSA/ERIK S. LESSER
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Se os EUA não autorizarem o Facebook a lançar um sistema de pagamento digital que possa impor-se globalmente, poderão acabar por ser ultrapassados pela China. O cenário foi defendido por Mark Zuckerberg, esta quarta-feira, no discurso de abertura da mais recente audição do presidente executivo do Facebook no Congresso norte-americano, em Washington. Desta vez, os congressistas questionaram o fundador da rede social sobre o futuro da moeda digital Libra e da carteira digital Calibra.

“Espero que possamos falar dos riscos de não inovar”, alertou Mark Zuckerberg, descrevendo o projecto da rede social para desenvolver uma divisa digital como um exemplo claro de “inovação norte-americana.”

Foi em Julho que o Facebook apresentou pela primeira vez os seus planos para um sistema de processamento de pagamentos e de transferências online a partir de aplicações como o Messenger e o WhatsApp, sem depender dos bancos tradicionais. O objectivo é criar um meio para milhares de pessoas com acesso à Internet e a um smartphone, mas sem acesso a uma conta bancária, transferirem e guardarem dinheiro com o telemóvel. Mas desde o começo a iniciativa tem sido questionada por reguladores que temem que a divisa seja utilizada para actividades criminosas como lavagem de dinheiro. E oito dos 28 parceiros institucionais iniciais – como a MasterCard, o Ebay e o PayPal – acabaram por abandonar o projecto nestas últimas semanas.

Durante a audição, Zuckerberg tentou tranquilizar os reguladores e mostrou-se aberto à possibilidade de reduzir as ambições que tem para a moeda de modo conseguir a aprovação. “Ainda não definimos exactamente como tudo vai funcionar”, disse Zuckerberg. “O objectivo é criar um sistema de pagamento global, mais do que uma divisa nova.” Isto pode vir a traduzir-se num sistema de pagamentos digitais que depende de várias moedas fiduciárias (como o PayPal), o que é menos ambicioso que o projecto original.

Um mensageiro pouco ideal

“Enquanto debatemos estes temas, o resto do mundo não está à espera”, frisou, no entanto, Zuckerberg. “A China está a avançar rapidamente com a ideia de lançar um projecto semelhante.” Em Agosto,  Mu Changchun, vice-director do Banco Popular da China, afirmou que o país está quase pronto para lançar a sua própria moeda digital. 

“Se a América não inovar, a nossa liderança financeira não estará garantida”, disse o fundador do Facebook. Contrariamente ao bitcoin ― a primeira e mais conhecida das divisas digitais, frequentemente criticada pela sua enorme volatilidade ―​​​a Libra seria inicialmente suportada por uma reserva de moedas fiduciárias, fornecida pelos membros da Associação Libra. “Se avançar, a Libra será apoiada principalmente por dólares e acredito que vai expandir a liderança financeira norte-americana bem como os valores democráticos em todo o mundo.”

A presidente do Comité da Câmara dos Estados Unidos para os Serviços Financeiros, Maxine Waters, não se deixou convencer – e em vez de focar as críticas nos planos do Facebook para Libra, também questionou o presidente executivo da empresa sobre as medidas em vigor para garantir a segurança das eleições e combater a difusão de notícias falsas nas aplicações da rede social. No começo da semana, a rede social admitiu que apagou recentemente uma rede de contas com origem russa que estavam a tentar manipular eleitores americanos através do Instagram (que o Facebook comprou em 2012). “Era benéfico para todos se o Facebook se focasse em corrigir as suas várias deficiências antes de avançar com o projecto Libra”, disse Waters.

“Sei que não sou o mensageiro ideal [para o projecto da Libra]. Temos enfrentado muitos problemas nos últimos anos e tenho a certeza que muitas pessoas preferiam que fosse qualquer entidade, que não o Facebook, a apresentar isto”, admitiu Zuckerberg. “Mas quero ser claro: isto não é uma tentativa de criar uma divisa soberana. Tal como todos os sistemas de pagamento online, é uma forma de as pessoas transferirem dinheiro.”

Mas não é só o governo dos EUA que tem levantado dúvidas sobre a Libra. Num artigo de opinião publicado a semana passado pelo jornal britânico Financial Times, Bruno Le Maire, o ministro das Finanças francês, alertou que a Libra representa um risco para a soberania de um país. “O projecto significa que uma empresa privada passa a controlar um bem comum e a assumir tarefas normalmente executadas pelos Estados”, escreveu Le Maire. “É inaceitável por razões económicas e políticas.” No começo de Outubro, o Banco Central do Reino Unido também tinha alertado que a Libra tem de obedecer a padrões semelhantes aos bancos tradicionais.

Ainda durante a semana passada, os restantes membros do G7 (os países das sete maiores economias do mundo) avisaram que moedas digitais apoiadas por moedas fiduciárias – como o projecto do Facebook – podem ameaçar a estabilidade financeira mundial.

A última vez que Mark Zuckerberg esteve no Congresso norte-americano foi em Abril de 2018, quando foi chamado a justificar o papel do Facebook no escândalo Cambridge Analytica, a consultora britânica que usou dados de 87 milhões de utilizadores da rede social, sem autorização, para orquestrar campanhas políticas personalizadas em todo o mundo”.