Suspeito de fraude com barras de ouro adulteradas na China fugiu para Portugal

As barras de ouro foram adulteradas com volfrâmio. Serviam de garantia de empréstimo — num total de mais de dois mil milhões de euros —, mas quando foram fundidas viu-se que só continham 36,5% de ouro puro.

Ouro como investimento
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Barras de ouro austríacas REUTERS/Leonhard Foeger/ARQUIVO

O suspeito de uma fraude que envolve empréstimos sobre ouro adulterado, que provocou perdas totais superiores a 2,4 mil milhões de euros em vários bancos do Noroeste chinês, terá fugido para Portugal, informou a imprensa local nesta terça-feira.

O esquema remonta a 2015, quando um primeiro empréstimo de 20 milhões de yuan (equivalente a 2,5 milhões de euros) foi concedido a um agricultor chamado Yang Jun pela Cooperativa de Crédito Rural do Condado de Tongguan, na província de Shaanxi, escreve a revista chinesa Caixin. Como garantia sobre o empréstimo, Yang deixou 26 barras de ouro, com o peso total de 100 quilos.

Com mais de 154 mil habitantes, estima-se que Tongguan possua 110 toneladas de depósitos de ouro nas montanhas de Qinling. A mineração de ouro representa mais de 70% da economia local.

“A cena não surpreendeu ninguém na Cooperativa de Tongguan, que está encarregada de atender às necessidades financeiras de um condado conhecido por ricas reservas de ouro”, explica-se na publicação. “Fazendeiros que carregavam barras de ouro para obter empréstimos era um cenário comum na Cooperativa”, acrescenta-se no artigo.

Barras de ouro com coração de volfrâmio

No entanto, a confiança naquele esquema de crédito foi abalada em Abril de 2016, quando Yang Jun não saldou a sua dívida e a Cooperativa de Crédito Rural de Tongguan começou a derreter as barras de ouro.

“Após o ouro brilhante à superfície derreter, revelou-se uma placa de tungsténio negro, e a Cooperativa de Tongguan descobriu que afinal as barras de Yang continham apenas 36,5% de ouro puro”, escreveu a Caixin.

Uma inspecção subsequente do principal órgão regulador bancário da China encontrou toneladas de ouro adulterado nos cofres de vários bancos nas províncias de Shaanxi e Henan, incluindo as filiais locais de dois dos maiores bancos da China, o Commercial and Industrial Bank of China (ICBC) e o Postal Savings Bank of China (PBS).

O ouro adulterado serviu como garantia para um total de 19 mil milhões de yuans (2,4 mil milhões de euros) em empréstimos.

Segundo a Caixin, a investigação apurou que a maioria dos empréstimos fluiu para cinco contas pessoais controladas pelo empresário Zhang Qingmin, fundador da refinaria de ouro Lingbao Boyuan Mining Industry Co. Ltd., e seus associados.

Zhang terá fabricado as barras de ouro adulteradas e contratado pessoas para solicitar os empréstimos, detalhou a Caixin, que cita fontes próximas da investigação.

A polícia chinesa prendeu quatro dos cinco principais suspeitos e dezenas de cúmplices, que foram já julgados e aguardam veredicto. Oito funcionários da Cooperativa de Tongguan foram também acusados criminalmente.

No entanto, Zhang Qingmin, de 34 anos, e o principal suspeito de liderar o esquema, terá escapado com a família assim que as barras de ouro adulteradas chamaram a atenção dos reguladores.

Segundo registos da polícia chinesa citados pela Caixin, Zhang Qingmin voou para Portugal via Chipre a 12 de Maio de 2016. A Interpol emitiu já um alerta vermelho e mandado de captura internacional.

Em Maio de 2016, a polícia encerrou a refinaria da Lingbao Boyuan Mining Industry, criada por Zhang Qingmin e o irmão Zhang Shumin, em 2007. Era uma das principais refinarias da cidade de Lingbao e fornecedora oficial de barras de ouro padrão para a Bolsa de Ouro de Xangai. No complexo fabril, a polícia encontrou as instalações ocultas onde eram fabricadas as barras de ouro adulteradas com tungsténio.