Crítica

Raramente o que luz é ouro

Obras de Jörg Widmann interpretadas pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música (OSPCdM) sob a direcção do seu maestro titular, Baldur Brönnimann.

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As obras de Jörg Widmann interpretadas no passado sábado pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música (OSPCdM) sob a direcção do seu maestro titular, Baldur Brönnimann dr
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O facto de Jörg Widmann ser dos “compositores [vivos] actualmente mais tocados em todo o mundo” diz muito sobre o afastamento do público da melhor produção musical do seu próprio tempo, assim como da eventual necessidade dos programadores seguirem a triste lógica dos “mercados”.

Lembremos uma entrevista de 2015, em que Helmut Lachenmann sublinhava a distinção entre um artista e um “entertainer”. Não está em causa se o “entertainer” tem ou não formação “clássica”, se sabe orquestrar eximiamente, se consegue compor fazendo o pino em simultâneo e se tem muita graça ao fazê-lo, ou ainda se é de uma enorme simpatia. Em causa deverá estar a diferença entre o entretenimento — a capacidade de ocupar o tempo do público, esvaziando-o de preocupações e isentando-o de reflexão – e a faculdade do compositor conduzir o público à auto-formulação de novas questões e desenvolvimento de novos pensamentos, fazendo ele próprio isso mesmo, acrescentando à sua arte algo de novo, que acompanhe o momento em que cria, impregnado do fumo das mudanças em curso.

As obras de Jörg Widmann interpretadas no passado sábado pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música (OSPCdM) sob a direcção do seu maestro titular, Baldur Brönnimann, apontam para o campo do entretenimento, em especial a Babylon Suite, que preencheu a segunda parte do concerto (concerto esse com a duração perfeita de duas meias-horas).

A OSPCdM cumpriu sem falhas (assim como sem detalhes que pudessem suscitar deslumbramento), tanto na Abertura da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberga, de Richard Wagner, como na obra concertante de Jörg Widmann Elegie [2006], que contou com o próprio compositor no papel de solista, ao clarinete. Mais interessante do que a suite da ópera que compôs em 2012, a Elegie teve ainda o mérito de apresentar um solista capaz de belíssimos multifónicos em pianíssimo e de dar a escutar algumas sonoridades cuidadas, em que predominavam as cordas de que pontualmente emergiram delicados sons agudos de um acordeão em pianíssimo. Chegando ao final, um intervalo de quinta imperfeita deixou em dúvida se se trataria de uma consequência da microtonalidade a que o compositor recorreu, naquele ponto específico, de mera desafinação.

A Babylon Suite, que o público aplaudiu com maior vigor do que aquele que Brönnimann empenhara na direcção musical, fez lembrar, pela antítese, fabulosos exemplos de colagem (como a Sinfonia de Berio), esses sim, graciosos e repletos de interesse.

Não nos convençamos de que, se o público parece gostar, então é isto que deverá ser-lhe dado. A Casa da Música bem tem provado (operando uma significativa mudança nos hábitos de consumo e até mesmo da forma como os próprios músicos encaram o repertório) que o público aprende a consumir de acordo com a programação que lhe é proposta.