“Cansados” mas “em bom estado”, espeleólogos portugueses já saíram da gruta

O nível da água dificultou as operações de resgate dos quatro espeleólogos do Clube de Montanhismo Alto Relevo de Valongo.

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O grupo antes de entrar para a gruta Alto Relevo - Clube de Montanhismo
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CARLA CARVALHO TOMAS / PUBLICO

Os quatro espeleólogos portugueses do Clube de Montanhismo Alto Relevo de Valongo, distrito do Porto, que estiveram, desde sábado de manhã, presos na gruta de Cueto-Coventosa, em Espanha, já subiram à superfície. Foram localizados às 13h45 locais (12h45 em Portugal continental) e estão “em bom estado, mas muito cansados”, segundo o serviço de socorro da Cantábria. Segundo disse à agência Lusa Martín González Hierro, da Fundação Espeleosocorro Cántabro (ESOCAN), os quatro portugueses começaram a sair da gruta a pouco e pouco pelas 16h30. Menos de uma hora depois, o resgate foi concluído. 

Por volta das 17h10, um dos portugueses resgatados da gruta espanhola disse, em declarações à SIC Notícias no local, que todos estavam bem de saúde e que a sua única preocupação enquanto esteve preso foi a “preocupação que estavam a causar nos familiares e amigos”. “Nós estávamos bem e não podíamos avisar”, disse um dos quatro espeleólogos que garantiu que o grupo estava preparado para as dificuldades que encontrou: tinha comida para mais dias e estava também preparado para as baixas temperaturas.

Ao final da manhã, a conselheira do Interior do governo da Cantábria, Paula Fernández já antecipara que a operação de resgate pudesse ficar concluída ainda esta segunda-feira, apesar de a falta de comunicações com os quatro elementos do Clube de Montanhismo Alto Relevo de Valongo atirasse ainda estes dados para o campo das “hipóteses”.

Desde domingo à noite que foi accionada uma equipa de resgate para localizar e resgatar os quatro homens, mas os trabalhos de socorro foram dificultados pelo elevado nível da água. Contudo, sem previsão de chuva para hoje, a água começou a baixar. Em declarações à imprensa, depois de se reunir com os responsáveis pelo resgate, Paula Fernández salientava a importância de se concluírem hoje mesmo as operações de resgate, por causa da chuva intensa que é esperada para o dia de amanhã. 

A responsável do governo espanhol salientou que os quatro portugueses estavam “perfeitamente preparados, e conheciam a gruta, tinham-na estudado antes da travessia”, pelo que há a expectativa que, existindo condições, eles possam também encaminhar-se para a saída.

Também o embaixador português na capital espanhola, Francisco Ribeiro de Menezes, disse à Lusa que, “aparentemente”, os quatro desaparecidos “estão bem”. "Estamos em contacto com as autoridades de protecção civil e aparentemente estão bem”, disse, acrescentando que “se for necessário” o cônsul de Portugal em Bilbau irá até ao local, o que ainda não está previsto.

À agência de notícias portuguesa, Vítor Gandra, coordenador da secção de espeleologia do Clube de Montanhismo Alto Relevo de Valongo, explicou que os quatro desaparecidos "são todos espeleólogos muito experientes com idades de cerca de 30 anos, mas não estavam à espera do contratempo causado pela subida do nível das águas”. A subida rápida das águas não foi antecipada pelos quatro elementos do grupo de sete que desceram no sábado, explicou Vítor Gandra, que se prepara para, ainda esta segunda-feira, seguir para Espanha.

Na noite de domingo, quatro especialistas da equipa de espeleologia conseguiram aceder à gruta, no município cantábrico de Arredondo, já depois das 22h locais. No entanto, só conseguiram avançar cerca de 50 metros devido ao nível de água, segundo a agência de notícias EFE. Um vídeo partilhado na página de Facebook da ESOCAN mostra as condições na gruta quando foram feitas as primeiras tentativas de socorro.

Água baixa lentamente

O serviço de emergência do governo da Cantábria, que coordena a operação, informava, então, em comunicado que os especialistas indicavam que a água estaria a baixar no interior da gruta a uma velocidade de 10 centímetros por hora, muito mais lentamente do que se previa inicialmente e menos do que as previsões mais recentes. Ao final da manhã desta segunda-feira, a água já teria baixado 20 centímetros, segundo as autoridades.

Na entrada da área dos três lagos, a equipa de resgate instalou um ponto de acampamento, aguardando a diminuição do nível da água. A previsão da Agência Estatal de Meteorologia é que não chova durante o dia de hoje, mas as chuvas devem regressar com intensidade na terça-feira, pelo que os avanços conseguidos esta segunda-feira se revelam muito importantes.

Os quatro portugueses entraram no sábado pela entrada de Cueto às 11h (10h em Portugal), de acordo com o serviço de emergência espanhol, citado pela EFE. Antes disso, tinham comunicado o seu plano às equipas de resgate locais. Na ausência de notícias dos espeleólogos, outros três companheiros entraram ao meio-dia (hora local) de domingo por Coventosa para ver se os encontravam, mas o elevado nível da água impossibilitou que prosseguissem a marcha.

Assim, às 16h30 (15h30 em Lisboa), notificaram o centro de coordenação do 112, a partir do qual foi mobilizado o dispositivo de resgate. A operação integra a equipa da ESOCAN, além de técnicos da Direcção-Geral do Interior do governo da Cantábria, agentes da Guarda Civil e voluntários da Associação de Protecção Civil de Arredondo.

A gruta é das mais profundas da Europa e não é a primeira vez que é necessário resgatar pessoas que ali são surpreendidas pela subida do nível das águas. Ainda em Julho foi necessário resgatar três espeleólogas espanholas que ali ficaram presas durante todo um fim-de-semana, acabando por ser retiradas de boa saúde na segunda-feira seguinte.

Já este fim-de-semana, no mesmo dia em que os quatro portugueses entraram na gruta, outros espeleólogos também o fizeram, tendo conseguido sair sem problemas. A diferença, segundo El Diário Montañés, é que os espeleólogos da zona da Cantábria entraram quatro horas antes dos portugueses, e conseguiram sair pelas 21h de sábado, quando o interior da gruta ainda estava seco. “Nessas quatro horas de diferença entre os dois grupos tudo mudou no interior. A corrente tornou-se tão forte que inundou as galerias, sobretudo as zonas mais estreitas, e os portugueses já não conseguiram sair”, escreve-se no jornal.

Ao ser uma das grutas mais procuradas de Espanha a Coventosa é, também, uma das que acumula mais resgates: foram 25 desde que há registo. Dessas pessoas, apenas uma morreu: um espeleólogo britânico, por electrocussão, em 1991.