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O Reino Unido nunca vai sair da União Europeia

Convenhamos, apesar de todas as emoções em torno do “Brexit” — o qual, confesso, tem sido uma fonte inesgotável de diversão (cá em casa já não há pipocas) —, o seu propósito nunca foi a saída da União Europeia per se.

O “Brexit” estava condenado à popularidade. É uma questão divisora, fracturante, é o sim contra o não, sair ou ficar, Norte contra Sul, Este em vez de Oeste, britânicos de um lado e imigrantes do outro, Kramer contra Kramer, o julgamento de Salomão.

E digo popularidade pelo modo como os tablóides, e restantes meios de comunicação por arrasto, têm alimentado esta discussão, envolvendo ao longo de três anos e meio o público deste país num dos maiores debates, senão o maior debate, da sua história.

O objectivo, no entanto, nunca foi chegar ao fim mas antes andar às voltas, e às voltas e às voltas, sem nunca atingir nenhuma conclusão, nenhum resultado, nenhum fim. Não é possível, sendo o episódio do passado sábado o mais recente exemplo. O “Brexit” esteve sempre condenado à popularidade, mas nunca ao sucesso.

Então, para quê o “Brexit”? Para quê milhares de milhões de litros de tinta em jornais, para quê horas sem fim de reuniões, para quê o impacto na economia britânica ao longo de três anos e meio de incerteza, para quê os protestos, os acordos e desacordos, os compromissos repetidamente chumbados no Parlamento?

Convenhamos, apesar de todas as emoções em torno do “Brexit” — o qual, confesso, tem sido uma fonte inesgotável de diversão (cá em casa já não há pipocas) —, o seu propósito nunca foi a saída da União Europeia per se.

Não. O “Brexit”, já aqui o disse e volto a repetir, foi um voto de protesto de um povo de rastos no chão depois de décadas de desemprego, perda de direitos, sem meios de produção ou fabrico, sem pescas, sem agricultura ou pecuária, sujeitos a quotas e directrizes externas, sem fábricas, minas, indústrias, incapazes de fazer chegar a sua voz a uma Bruxelas por demais distante.

Ainda mais quando o povo é iletrado e vítima de uma crescente privatização do ensino, numa terra onde só tira um curso superior quem puder pagar 9000 libras por ano de propinas, mais o resto.

A intenção do “Brexit” era uma e uma só, igual à de tantos outros povos: a melhoria das condições de vida, emprego, estabilidade, educação, saúde, um futuro, uma casa, o mínimo quando o mínimo já não existe há muito.

De então para cá passaram três anos e meio. O “Brexit” ainda está por acontecer e o país está mais pobre, a economia ressente-se, o desemprego aumenta, a incerteza e a precariedade também, há cada vez mais gente a dormir nas ruas.

A vida de quem vive neste país não vai melhorar com a saída ou a permanência na União Europeia. A vida de quem vive neste país vai melhorar quando as políticas governativas, e consigo os dirigentes políticos, passarem a olhar para as pessoas e a falar com as pessoas sobre as suas vidas, anseios e sonhos.

Quando esse dia chegar, já ninguém vai querer saber se saímos ou ficamos na União Europeia. O importante são as pessoas e enquanto o Reino Unido for gerido por esta sucessão de privilegiados de Eton mais o seu séquito feudal, a delapidação da qualidade de vida das populações será sempre uma certeza.

E a União Europeia? A União Europeia foi sempre areia para os olhos. Enquanto o objectivo for a subjugação de um povo aos interesses de privados, o Reino Unido nunca vai “sair” da União Europeia, mesmo que saia, mesmo que assinem os papéis, mesmo que o Parlamento esteja de acordo. Basta, aliás, olhar para o nosso próprio país como exemplo. Temos 2,3 milhões de emigrantes à volta do mundo, fruto de sucessivas campanhas de espoliação dos nossos recursos, riquezas e meios de produção. Nós sabemos de cor o sabor da palavra emigrar. E a este ritmo, e muito em breve, os britânicos também.