Sánchez vai a Barcelona e pede a Torra que condene violência “de modo taxativo e inequívoco”

O chefe do governo vai visitar os polícias feridos nas manifestações. Numa carta enviada ao presidente da Generalitat, Sánchez pede que Torra os apoie.

Quim Torra
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LUSA/JULIEN WARNAND

O chefe do governo espanhol Pedro Sánchez anunciou, nesta segunda-feira, uma “visita surpresa” a Barcelona, para ver os polícias feridos nos confrontos na capital catalã. Também tornou conhecida uma carta endereçada a Quim Torra, presidente do governo autonómico. Num tom crítico, Sánchez pede a Torra que condene a violência e apoie as forças de segurança.

A viagem a Barcelona foi anunciada de surpresa e não são conhecidos muitos pormenores. De acordo com o La Vanguardia, que cita fontes do Executivo, Sánchez prevê encontrar-se com as forças de segurança estatais, encarregadas da segurança na Catalunha, e visitar os polícias hospitalizados. A visita não consta na agenda oficial — de acordo com o El País, para evitar que os independentistas tivessem tempo de organizar protestos contra Sánchez.

Também o ministro do Interior, Fernando Grande Marlaska, esteve no sábado em Barcelona para visitar um dos agentes hospitalizados. Outros líderes partidários espanhóis também estiveram na capital catalã nos últimos dias, como Albert Rivera (Cidadãos, um partido nascido na Catalunha para contrariar os movimentos independentistas), que esteve duas vezes em Barcelona, para comícios. Outros anunciaram visitas, como Pablo Casado (Partido Popular) que se desloca nesta segunda-feira à capital catalã – uma viagem anunciada há vários dias e da qual se conhecem alguns pormenores. Sabe-se, por exemplo, que o líder do PP vai visitar as chefias superiores da polícia às 13h.

Sánchez pede que Torra evite “discórdia civil"

Ao mesmo tempo que anunciava uma visita a Barcelona, o chefe do governo espanhol deu a conhecer uma carta de resposta a Quim Torra, presidente da Generalitat.  Sánchez quebrou o silêncio e, em nome próprio, respondeu a Torra, numa carta escrita num tom duro. Na missiva, o chefe de Governo escreve que Torra “evitou condenar de modo taxativo e inequívoco as condutas violentas que aconteceram com virulência e assiduidade em vários pontos da Catalunha, até a pouca distância do seu gabinete”.

“O primeiro dever de qualquer responsável público é velar pela segurança dos cidadãos, assim como pela segurança de qualquer espaço público ou privado face às condutas violentas. O segundo é preservar a convivência entre todos os integrantes da sociedade civil e evitar a fractura da sua comunidade. A sua conduta nos últimos dias segue o caminho contrário”, lê-se na carta.

Voltou costas às forças de segurança autonómicas e estatais, que protegem a ordem pública com grande profissionalismo e expondo-se a graves riscos. Voltou costas e ignorou mais de metade da população catalã, simplesmente porque não partilha os seus objectivos, em vez de comportar-se como o Presidente de todos os catalães”, continua.

Por fim, lembrou as “três obrigações que deve cumprir qualquer governante”: “condenar rotundamente a violência, apoiar as forças de segurança que a combatem e evitar a discórdia civil”.

Torra já havia tentado contactar directamente Sánchez, para lhe pedir que marque “dia e hora” para uma “negociação sem condições” sobre o futuro político da Catalunha. No entanto, Sánchez nunca lhe atendeu o telefone.

De acordo com um comunicado divulgado pela Moncloa no sábado, não haverá diálogo enquanto Torra não condenar a violência. Após várias tentativas de contacto falhadas, Torra enviou, no mesmo dia, uma carta a Sánchez, de quem recusa receber lições. “Eu, à semelhança do movimento independentista, durante todos estes anos lutei sempre e condenei sempre todas as violências. Todas”. 

A partir de Bruxelas, o ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont reagiu à missiva de Sánchez através do Twitter: “A sério que vai viajar a Barcelona e não se vai encontrar com o presidente da Generalitat? A sério que faz distinção entre os feridos, em vez de preocupar-se com todos? Um governante deveria desejar que todos os feridos, polícias e cidadãos recuperassem. Todos, sem excepção”.

A três semanas das eleições legislativas, antevê-se que a crise catalã domine a campanha. A divisão reina: à direita, pede-se que seja invocado o artigo 155.º da Constituição para suspender a autonomia da Catalunha; à esquerda não se arrisca um novo artigo 155 e age-se com cautela. Algo que tem vindo a ser criticado pelos independentistas: exemplo disso foi o facto de Gabriel Rufián Romero, da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), ter ouvido gritos de “traidor” quando passou pela Praça Urquinaona.

Começaram por ser demonstrações pacíficas, mas desde a semana passada que há registo de confrontos violentos entre a polícia e os manifestantes, em protestos contra as condenações de 12 dirigentes independentistas pelo Supremo Tribunal de Espanha.