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Megafone

Está tudo “exclamado” da cabeça?

Todos os dias leio erros, todos os dias (provavelmente) os cometo, mas há apenas um que me deixa “nervosinho”: o ponto de exclamação. É tão mal aproveitado como a água num banho de imersão. Pode saber bem, mas é desnecessário.

Acho graça aos erros ortográficos, mas também aos gramaticais. Acho graça até quando sou eu a cometê-los por despiste, pressa ou falta de revisão. Nesses momentos, salvamo-nos pela desculpa “não reparei, sou um pouco disléxico”. Será? Não, mas é uma desculpa que cai bem mesmo quando é mentira porque ninguém argumenta contra.

Ortografia, gramática, pontuação. Três palavras e outros tantos que vão parar de ler aqui. Todos os dias leio erros, todos os dias (provavelmente) os cometo, mas há apenas um que me deixa “nervosinho”: o ponto de exclamação. É tão mal aproveitado como a água num banho de imersão. Pode saber bem, mas é desnecessário.

Ninguém consegue estar assim tão entusiasmado. Se imaginarmos que um ponto de exclamação deve ser utilizado “na expressão de sentimento ou emoção, admiração, surpresa, susto” (diz o Priberam), será que estamos a ser assim tão honestos quanto às nossas emoções? Agora, pensem na expressão facial que fazem e o que estão a sentir em cada ponto que deixam cair.

Por todo o lado, “chovem” pontos de exclamação como se fosse um dia de chuva torrencial. “Encharcam-se” páginas e parágrafos de pontuação, mas é nas caixas de comentários que se acumulam as maiores “poças”. E, tal como na vida real, são nas poças que vemos o reflexo descuidado da nossa aparência. Estaremos a perder o controlo? Talvez, mas quero-me manter como sou na vida: optimista.

Ainda não é preocupante, para mim, a sua utilização no jornalismo. É claro que tenho feito uma triagem do que considero bom e com respeito pela profissão. Isto de ser licenciado em jornalismo, de ter lido o código deontológico e tantas outras bibliografias importantes deixa-me com um sentido de responsabilidade que não queria assumir (nem quero), mas fica difícil de ser um ingénuo leitor.

Até porque apenas tenho visto um pequeno exagero nas versões digitais dos jornais desportivos, dos quais sou um grande fã. Cresci e sonhei como essa profissão e admiro a criatividade que lá está, especialmente durante o Verão e o mercado de transferências, também conhecida como silly season. Voltemos ao foco que isto seria todo um novo tema. Eu percebo as exclamações que nascem abruptamente nos textos e títulos desportivos, tal como ervas daninhas no quintal (que não tenho). É necessário (e fica bem) transmitir a emoção que se vive nos estádios em cada frase, onde as vírgulas são fintas “inacreditáveis”. Podia falar em arenas ou pavilhões, mas em Portugal ainda não têm grande expressão (mas está a crescer).

Se exageramos emoções, banalizamos sentimentos. Não quero entrar em clichés verdadeiros, mas são tão verdadeiros quanto aborrecidos (apenas porque são repetidos até à exaustão). O consumo é rápido, a concentração é pouca e é preciso encontrar novas formas de conseguir agarrar os leitores até ao fim. Tentem tudo. Com calma. Não há necessidade de se exaltarem enquanto tentam exaltar tanto público. Vamos ver o que o futuro nos reserva.

Pontuação à parte, hoje, adjectivamos como loucos excitados, mas prefiro deixar esse tema para outro dia. Os discursos aproximam-se, o distanciamento entre jornalista e leitor diminui, o que é bom, muito bom. Podemos só não exagerar? Espero-vos a meio do caminho, para que me puxem para cima e não se deixem ir abaixo. Na escrita, essencialmente.

Eu estou preparado para saber que um “ahah” nem sempre faz uma pessoa rir de verdade, mas, por enquanto, o jornalismo ainda adopta a fórmula “(risos)” e, felizmente, ainda não se converteu à simplicidade de um SMS.