Opinião

O fenómeno Joker e a loucura do mundo

O filme reflecte a chamada “nova normalidade” de um mundo que perdeu as suas referências e a sua identidade, invadido cada vez mais por uma multidão de “jokers”.

Há muito, muito tempo que não escrevo sobre um dos meus temas favoritos: o cinema. Mas aconteceu o fenómeno Joker, um fenómeno que, diga-se de passagem, é mais do que um filme, para além das suas extraordinárias qualidades visuais, por vezes a roçar a genialidade. Joker será porventura um dos mais perturbantes reflexos cinematográficos do mundo em que vivemos, um mundo onde o caos, a violência, a vertigem e a loucura se têm instalado até ao ponto de perdermos a noção da realidade. Daí que tenha sido irresistível para mim escolhê-lo para tema desta crónica.

Neste mundo de Trumps, Bolsonaros, Erdogans, Putins ou outros candidatos a representantes da demência do poder, Joker faz todo o sentido e impõe-se como uma oportuna e aterradora metáfora, apesar das características especiais da ficção em que se inspira — incluindo a Gotham City com um Batman aqui ausente e dispensando elaborados efeitos especiais de ficção científica. Vencedor do último Festival de Veneza e celebrado pela crítica, Joker tornou-se também um grande sucesso de público à escala internacional, suscitando um poderoso efeito de identificação e cumplicidade entre os espectadores (como eu próprio pude fazer a experiência com amigos). Só que esse efeito é tanto mais inquietante quanto a experiência de ver Joker nada nos oferece em sensações e emoções confortáveis ou inebriantes. Pelo contrário: estamos aqui em território de uma desapiedada crueldade, em que o sofrimento e a loucura do protagonista nos transportam a esse mundo das trevas em que ele sofre, vive — e cujo horror reflecte.

Não me recordo, pelo menos em tempos recentes, que um filme tão ostensivamente agressivo e hostil — do ponto de vista do conforto dos espectadores — tenha conquistado audiências tão amplas e cúmplices, como se Todd Phillips — um realizador desconhecido para mim — e Joaquin Phoenix, numa interpretação verdadeiramente genial, com o seu riso-choro convulsivo, alcançassem o prodígio de nos fazer mergulhar nos fantasmas mais sombrios dos nossos dias, em que a revolta dos palhaços contra as elites, numa metrópole simbólica submersa pelo lixo e a caminho da desintegração, espelha as rupturas sociais a que hoje vamos assistindo.

“É impressão minha ou o mundo está cada vez mais louco?”, interroga-se o Joker. E conclui: “Só espero que a minha morte faça mais sentido do que a minha vida.” “Não fui feliz um único dia na minha vida. Pensava que a minha vida era uma tragédia, mas afinal era uma comédia”, segundo confessa depois de se deixar possuir pelas suas derradeiras pulsões vingativas e assassinas contra uma sociedade que desde sempre o abandonou e o trata como o lixo que invade as ruas de Gotham. Uma sociedade em que todos gritam uns com os outros e não há espaço para comunicar verdadeiramente com ninguém.

Insisto: que um filme como este, tão desapiedado e cruel, subvertendo de forma tão drástica os códigos hollywoodianos, se tenha convertido num fenómeno de público com as imensas proporções que tomou constitui um sintoma imensamente revelador de como a loucura do mundo se tornou o seu próprio espectáculo. Joker reflecte a chamada “nova normalidade” desse mundo que perdeu as suas referências e a sua identidade, invadido cada vez mais por uma multidão de “jokers”.

P.S. — Catalunha, “Brexit”, Turquia, Síria e curdos, Hong Kong, Washington ou Moscovo, entre tantos lugares ou temas: não faltam de facto espelhos para os “jokers” se verem reflectidos…

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