A internacional das lágrimas do documentário de autor

Noli me tangere e In Ashes, dois títulos do concurso internacional do Doclisboa, colocam o espectador no lugar e na cabeça do outro que tantas vezes ignoramos.

<I>Noli Me Tangere</i>, de Christophe Bisson
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Noli me tangere, de Christophe Bisson DR

Neste mundo contemporâneo em que o Joker de Joaquin Phoenix e Todd Phillips se tornou sintoma e espelho da confusão moral que por aí pulula, há outros sintomas, outros espelhos que não são menos perturbantes, mas que não têm a “sorte” (ou o “azar”) de virem com a máquina de marketing de Hollywood. Podíamos estar, por exemplo, a falar do Nunca Estiveste Aqui, de Lynne Ramsay (que até percorre territórios aparentados aos de Joker); mas não, estamos a falar de dois filmes da Competição Internacional do Doclisboa que colocam o espectador precisamente nesse mesmo lugar do outro que Phoenix e Phillips reclamaram.

Curiosamente, ambos vêm de cineastas que começaram ou mantêm carreira nas artes plásticas e inserem-se no chamado “documentário de autor”, que recusa as formas convencionadas do registo documental para explorar outras maneiras de fazer passar a realidade. O mais conseguido – e, desde já, um dos grandíssimos filmes desta edição do festival – chama-se Noli me tangere (nova exibição na segunda-feira, dia 21, às 16h15, no Cinema São Jorge) e vem assinado pelo pintor e cineasta francês Christophe Bisson, que dá por inteiro o ecrã a uma série de deserdados da vida habitando uma casa de recuperação em Caen.

Victor desenha numa folha de papel gigante afixada na parede a Paris por onde andou dias a fio, Joël dá de comer aos patos com a sua T-shirt de Johnny Hallyday, Robert traça a marcador num mapa as viagens que fez como trabalhador sazonal, Gilles recria com lápis e aguarelas as fotografias de família que ainda guarda. Não há verdadeiramente uma narrativa em Noli me tangere, apenas pequenos instantâneos de um quotidiano ensimesmado, entre obsessões quase autistas e agorafobias aparentes. São retratos de gente magoada e incerta do seu papel no mundo exterior, gente vazia à procura de se encher, mas em cujo vazio existe todo um universo no qual nos podemos perder e com o qual nos podemos identificar. Poema tonal à flor da pele que nos faz ver o mundo pelo olhar dos outros, prosseguindo um trabalho que Bisson já tinha realizado em 2016 com Silêncio (rodado no Porto em colaboração com a Escola das Artes da Universidade Católica e mostrado no Porto/Post/Doc), Noli me tangere é uma assombrosa assombração.

Igualmente assombrado, mas agora pelo passado, é In Ashes (nova exibição na sexta-feira, dia 26, às 16h15, na Culturgest), da artista multimédia colombiana Camila Rodríguez Triana. Inspirado pela história verídica de Marcos, um ex-guerrilheiro colombiano que não quis dar a cara, In Ashes é uma ficção teatralizada, altamente alegórica, à volta da identidade e da realidade. Marcos assumiu diversas identidades para sobreviver, mas o medo de que a sua família seja castigada pelo seu passado criou-lhe um trauma que Rodríguez Triana encena como uma sessão espírita invocando fantasmas, figuras, pesadelos.

É um filme que se coloca por inteiro dentro da cabeça de um homem dilacerado, mas – à imagem de outros títulos vistos nesta edição, como Santikhiri Sonata – corre o risco de ser demasiado específico de uma vivência local para ser compreendido por inteiro pelo espectador. No caso de In Ashes, o distanciamento altamente intelectualizado da abordagem de Rodríguez Triana dificulta a nossa empatia, e resume o filme a um objecto cerebral e abstracto que parece pertencer mais a um cubo de galeria do que ao grande ecrã. Mas tem belíssimos momentos – como aquele em que um dos alter-egos de Marcos se desfaz em lágrimas ouvindo o hino da Internacional Socialista. Já dizia Shakespeare (e já o diziam também os This Mortal Coil), isto acaba tudo em lágrimas.