Crítica

Apple Arcade, um buffet gourmet de jogos

Há aproximadamente um mês no mercado, o novo serviço da Apple disponibiliza várias dezenas de videojogos, alguns imperdíveis. É uma proposta aliciante por 4,99€ mensalmente, ficando por saber se o músculo de Cupertino tem resistência a longo prazo.

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É precisa disciplina para experienciar as obras incluídas no Apple Arcade, o novo serviço da gigante de Cupertino que está disponível desde o dia 19 de Setembro. Mediante o pagamento de uma mensalidade definida nos 4,99 euros, os jogadores têm neste momento acesso a mais de oitenta videojogos e a Apple promete que o número passará uma centena durante o Outono.

São obras que podem ser jogadas no iPhone, iPad, iPod touch, Mac e Apple TV, com o progresso feito a ser sincronizado através da conta iCloud. Não há publicidade, compras nas aplicações, ou tempos de espera obrigatórios entre sessões de jogo. Trabalhando de perto com vários criadores, a Apple quer que o bilhete pago mensalmente garanta o acesso ilimitado a tudo o que está em montra.

Mesmo antes de ser aberto o primeiro jogo, a secção Apple Arcade na App Store revela uma apresentação cuidada com recomendações de uma curadoria que vai mostrando aos jogadores as novidades. No topo há uma obra em destaque rotativo. Há também espaço para colocar à nossa frente as últimas novidades, os exclusivos Apple Arcade, as diferentes categorias, e no final uma lista com tudo aquilo que está disponível no catálogo.

Não é tudo. A apresentação cuidada vai além das imagens vibrantes e dos pequenos vídeos que tentam atiçar a curiosidade dos clientes. Por exemplo, o Apple Arcade afirma que “estamos aqui para te ajudar”, inserindo na página principal vários guias em Português com dicas para diferentes obras, explicando as mecânicas básicas e chamando a atenção dos fãs para processos que lhe podem ter escapado. A utilidade pode ser discutível, mas fica a interiorização de que o serviço não é uma manta de retalhos cosida à pressa.

Por muito apelativa e segura que seja a apresentação, a espinha dorsal do Apple Arcade é obviamente o videojogo. O grande trunfo do serviço que está agora a celebrar o seu primeiro mês no mercado é a diversidade. Há ofertas para os jogadores habituados às complexidades dos títulos habitualmente disponíveis no PC e nas consolas caseiras, mas há também videojogos para os clientes casuais, para quem procura minutos pontuais de entretenimento sem sede para serem reis e rainhas do mundo digital.

Sonic Racing faz chegar ao serviço as corridas arcada, com Skate City a deixar que os jogadores realizem manobras em cima de uma prancha de skate. De seguida, dois destaques incontornáveis: Shinsekai Into the Depths, obra publicada pela Capcom, decorre debaixo de água, levando-nos a explorar um cenário progressivamente maior e mostrando uma riqueza técnica acima da média para uma obra lançada nos dispositivos móveis.

O outro destaque é Sayonara Wild Hearts. O jogo foi desenvolvido pela Simogo, produtora sueca que já tinha conquistado uma legião de fãs com Device 6 e Year’s Walk. A qualidade elevou-o a um dos títulos que marca 2019, tanto pelo design dos níveis, como pelo argumento e pela excelente banda sonora. Porém, havia uma enorme expectativa sobre o seu lançamento depois de meses e meses de espera. Sayonara Wild Hearts não é um exclusivo Apple Arcade, mas esteve presente na sua chegada ao mercado, gesto que serviu com um atestado de credibilidade ao serviço.

Neo Cab, Mutazione, Jenny LeClue, nomes que tiveram um efeito semelhante. Inseridos em géneros diferentes, são obras que geraram burburinho na cena independente e que são, por direito próprio, videojogos com princípio, meio e fim. Mais: são videojogos com uma qualidade acima da média, independentemente da plataforma onde estão publicados; afirmando-se como aventuras com algo a dizer, pejados de emoção.

Outros dos destaques a que tenho dedicado o meu tempo durante estas semanas é Grindstone. O jogo da Capy é pensado para os ecrãs tácteis, colocando-nos uma grelha com várias criaturas que temos que aniquilar para conquistar o nível. Combinar as cores em linha não é uma mecânica nova, contudo, a produtora dá profundidade à sua obra com a criação de equipamento e com uma gestão táctica na grelha e também fora dela. Enquanto vamos amealhando gemas preciosas e tentando cumprir objectivos secundários, quando reparamos temos em mãos uma obra facílima de compreender, complexa de dominar, e sobretudo complicadíssima de deixar de jogar.

Até este momento, o Apple Arcade fica também marcado por estender uma passadeira vermelha à experimentação. Assemble with Care, título da ustwo Games, casa que assinou Monument Valley, é extremamente curto, porém, oferece a possibilidade de desmontar, reparar, e dar uma segunda vida a diferentes objectos. Patterned é uma experiência relaxante dotada de uma arte capaz de mesmerizar. O objectivo é simples: peça a peça, dar cor a um padrão inserido num vibrante desenho, mostrando que até uma fórmula de puzzles clássica pode ser reutilizada.

Aos poucos, os lançamentos de novas obras começam a ser pequenos acontecimentos na comunidade. Há um burburinho semanal, algo compreensível quando Pilgrims, jogo produzido pela produtora que nos entregou Machinarium, foi lançado de forma surpreendente a 5 de Outubro. Uma semana mais tarde, dia 11 de outubro, entre outros, Stela e Inmost foram também lançados no serviço, reforçando o sentido de renovação semanal do catálogo. A 18 de Outubro foram mais quatro novidades, entre as quais está Manifold Garden, um jogo inspirado no trabalho de M.C. Escher que passou sete anos em desenvolvimento.

Importa sublinhar um facto: nem todos os videojogos mencionados são exclusivos Apple Arcade, com as produtoras a alimentarem o PC e as consolas. Contudo, em muitos casos, são propostas que não podem ser jogadas nos dispositivos que têm o Android como Sistema Operativo. Stela, por exemplo, está também disponível na Xbox One e o PC receberá o jogo no início de 2020. Obra de plataformas e puzzles em 2D claramente inspirado pelo excelente Inside, não há obviamente paridade gráfica entre o iPad e a Xbox One, porém, a versão para iPadOS não é uma abominação gráfica, ficando sobretudo a perder nos controlos por toque comparativamente à precisão de um comando sem fios tradicional.

Todavia, os comandos PlayStation 4 e Xbox One são compatíveis com o serviço. Tendo em consideração as mecânicas intrínsecas ao movimento de alguns títulos, há obras em que a interacção tem que ser feita directamente no ecrã. Ainda assim, não só o processo de emparelhamento através do Bluetooth é facílimo, como não há quebras na ligação e o acessório faz a diferença nos videojogos que são compatíveis.

A informação sobre a compatibilidade com o acessório está mencionada na página de cada jogo, ainda que alguns não tenham o ícone, mas acabem por funcionar. Nessa página, além de uma breve sinopse sobre o título, há também informações sobre a categoria, a produtora, o número de jogadores, o idioma e ainda o tamanho que o download vai ocupar no vosso dispositivo. São detalhes básicos, mas que ajudam no momento de decidir se vale a pena ou não fazer a instalação da obra.

E o acto de fazer o download pode rapidamente ser um problema. Há iPads comercializados com 32GB de memória e há iPhones onde a opção de armazenamento mais baixa é de 64GB. O Apple Arcade tem no seu catálogo videojogos que ocupam 3.66GB (Stela), 3.1GB (Manifold Garden), 2.14GB (The Bradwell Conspiracy), 2.12GB (EarthNight), 1.74GB (Shinsekai), apenas para mencionar alguns exemplos. Se tivermos em consideração que o vosso dispositivo não vive apenas e só para o serviço, não é preciso muito para que o armazenamento necessário possa exigir algum malabarismo.

A disciplina mencionada no primeiro parágrafo deste artigo é então aplicada à forma como fazem download dos jogos. Não só por questões de armazenamento, mas para terem algum foco entre a experimentação das ofertas. E é recomendada essa experimentação, pois não perdem nada e podem efectivamente acabar por descobrir algo fora da vossa zona de conforto, algo como The Get Out Kids, onde são misturados puzzles em dioramas para contar uma narrativa de amizade.

Num mundo tecnológico que vive cada vez mais de serviços pagos por subscrição, o Apple Arcade faz bastante para merecer os vossos 4,99 euros mensais. Neste momento, vale o investimento, oferecendo diversas obras que justificam esse pagamento – e podem experimentá-lo durante 30 dias sem qualquer custo. Além disso, a subscrição pode ser partilhada por até seis membros do mesmo agregado familiar. Será sempre um serviço que vai falhar ou afirmar-se mediante o suporte das produtoras e graças à construção progressiva do catálogo. O primeiro mês foi favorável ao investimento da Apple e se tal continuar, são os jogadores que acabarão por ser beneficiados.