Opinião

Um SNS consumido pelo monstro das Urgências

Portugal é já o campeão europeu de afluência às urgências. Temos de deixar de alimentar o monstro.

O SNS, principalmente na sua componente hospitalar, está a ser liquidado por um monstro. O monstro das Urgências.

Todos os partidos, todos os governos, todos os ministros da Saúde dos últimos anos, despejaram enormes quantidades dos limitados recursos disponíveis nos Serviços de Urgência, alimentando um monstro que acaba por lhes dinamitar o seu próprio prestígio junto dos eleitores.

Numa das frequentes crises do Serviço de Urgência do Hospital Amadora-Sintra, com espera superior a 24 horas, um ministro da Saúde declarou publicamente que ia disponibilizar dois milhões de euros para a remodelação do Serviço, passando a mensagem aos utentes de que podiam, a partir daí, acorrer mais ao referido Serviço de Urgência, agravando o desastre já instalado.

Os portugueses não vão às Urgências por maldade, fazem-no por falta de alternativa. Há uns anos atrás, uma reforma dos Serviços de Urgência, de má memória para o ministro Correia de Campos e para a funcionalidade do SNS, encerrou os SAP (Serviços de Atendimento Permanente) nos Centros de Saúde, fechando a única porta extra-hospitalar alternativa que existia para as situações agudas, inesperadas, mas que não têm necessidade de cuidados hospitalares (o entorse ligeiro, a sutura da ferida cutânea ou a infecção sem gravidade). Desde então, o monstro das Urgências Hospitalares não parou de crescer, exaurindo os meios dos Hospitais de um modo dramático.

Alguns consultores médicos muito ouvidos pelos ministros advogam que a solução é precisamente dar mais comida ao monstro. Criar uma especialidade médica só para as urgências, mais monitores, mais aparelhos, mais espaço, mais meios. Ora a solução é obviamente a oposta. Portugal é já o campeão europeu de afluência às urgências. Temos de deixar de alimentar o monstro.

Todos os meios que têm sido investidos neste crescimento disfuncional deveriam (deverão…) ter sido investidos em portas alternativas ao Serviço de Urgência. E é algo já experimentado em alguns cenários clínicos. Os hemodialisados e os doentes oncológicos e com sida raramente vão às urgências, porque têm os seus médicos sempre disponíveis nos hospitais de dia. Basta replicar o modelo para todas as outras doenças crónicas e retiram-se de uma penada os doentes mais complicados do Serviço de Urgência. Que é mesmo o último lugar que os mesmos deveriam frequentar, pelo perigo de contraírem infecções graves. Mas para isso os Hospitais têm de ser pagos no hospital de dia, pelo menos de um modo igual à Urgência. E isso ainda não acontece.

Há uma série de outras medidas, já testadas com sucesso noutros países, que permitem abrir portas alternativas à urgência. Nem precisamos de inventar a roda.

Mas nem tudo são más notícias. Finalmente começam a nascer centros de hospitalização domiciliária por todo o país, que é uma forma humanizada de retirar doentes do hospital, com bons cuidados médicos. Mas é preciso que quando o seu estado de saúde se agrava não tenham que reentrar pela Urgência, o que continua a acontecer.

E recentemente foi inaugurado o novo Centro de Saúde de Mafra, já com um Atendimento Complementar (semelhante aos SAP), dotado de análises simples, RX e ECG, que necessita de replicação urgente em todo o território nacional.

Invistam em alternativas ao monstro, deixem de o alimentar e ele, naturalmente, voltará ao seu lugar. Apenas a porta de acesso do doente emergente ao Hospital.