Sánchez rejeita qualquer contacto com governo catalão antes deste condenar a violência

Ministro do Interior critica silêncio de Torra sobre a violência e diz que se está a investigar se esta está a ser coordenada.

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Quim Torra e Pere Aragonès com os autarcas de Girona, Tarragona e Lleida QUIQUE GARCIA/EPA
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Algumas pessoas agradeceram à polícia pela sua actuação na sexta-feira Reuters/JON NAZCA
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O governo catalão pediu neste sábado uma reunião urgente com o presidente do Governo espanhol em funções, Pedro Sánchez, para abordar a crise na região autonómica. “Instamos Sánchez a marcar dia e hora para uma negociação sem condições, como é sua obrigação”, disse o presidente da Generalitat, Quim Torra, que estava acompanhado pelo vice-presidente, Pere Aragonès.

Torra contactou Sánchez. Porém, este recusou falar e condicionou qualquer contacto à rejeição da violência por parte do presidente do governo catalão. Torra deve “condenar rotundamente a violência, o que não fez até ao momento, e reconhecer o trabalho das forças e corpo de segurança do Estado e dos Mossos, e solidarizar-se com os polícias feridos”, fez saber a Moncloa (sede do Governo espanhol) em comunicado.

Perante a recusa de Sánchez - que no Twitter elogiou o trabalho “exemplar dos corpos policiais” na Catalunha -, o presidente catalão escreveu uma carta ao chefe do governo espanhol. Nela diz que Sánchez não pode dar lições sobre “condenar e lutar contra a violência”. “Não procure desculpas onde elas não existem e assuma a sua responsabilidade de fazer política de forma democrática”.

Torra reuniu de manhã com os presidentes de câmara de cidades da Catalunha – Girona, Tarragona e Lleida; Ada Colau a autarca de Barcelona, do Barcelona em Comum, não quis participar – e com alguns conselheiros (ministros) catalães para avaliar o dia de sexta-feira, em que se realizou uma marcha de cerca de 500 mil pessoas, uma greve geral e mais uma jornada de desobediência cívica.

O dia acabou em violência, pela quinta vez consecutiva desde que foram anunciadas, na segunda-feira, as condenações entre nove a 13 anos de prisão para os dirigentes independentistas que participaram no referendo de Outubro de 2017, considerado ilegal pela Justiça.

Nem Torra nem Aragonès se referiram de forma incisiva à violência. “O desejo de independência expressou-se pacificamente. A violência nunca será a nossa bandeira. Fazemos um apelo conjunto à responsabilidade e nenhuma forma de violência nos representa”, disse apenas o presidente da Generalitat.

O vice-presidente catalão criticou a “atitude do Governo espanhol”. “Estamos numa situação grave, em primeiro lugar por uma sentença injusta dada a representantes da Catalunha”, disse, citado pelo La Vanguardia.​ E criticou a Polícia Nacional por considerar que está a actuar de forma desproporcional à ameaça dos protestos.

O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, que está neste sábado em Barcelona, criticou Torra e a sua equipa por não mencionarem a violência e defendeu que não houve “desproporcionalidade” no uso da força. “Ninguém entende que ministros falem minutos e minutos e não condenem. Devem escolher o caminho das instituições democráticas porque não há outro caminho”, disse, citado pelo El País.

O ministro, que visitou feridos nos hospitais, disse que “em poucas ocasiões houve” em Espanha “violência com estas características”, explicou que está a ser investigado se há uma coordenação dos grupos violentos e elogiou todas as polícias mobilizadas em Barcelona “sem distinção de cores de uniformes”. Torra, quando criticou a polícia, não mencionou os Mossos, a polícia catalã.

Neste sábado, os Comités de Defesa da República (CDR), classificaram os Mossos (a polícia catalã) de “força de ocupação”, como a Polícia Nacional e a Guarda Civil.

Agradecer à polícia

A violência de sexta-feira à noite na Catalunha fez 182 feridos, 152 deles em Barcelona, segundo os dados oficias. Os restantes são de Girona, Tarragona e Lérida.

PÚBLICO -
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Manuel Valls JRR

Um total de 83 pessoas foram detidas, segundo o Ministério do Interior citado pela AFP.

Na manhã deste sábado, com o cheiro a queimado ainda a sentir-se nas ruas onde dos confrontos, os serviços de limpeza retiraram pedras, vidros e cartuchos de balas de borracha.

No centro da cidade, junto à Via Laietana, grupos radicais e a polícia entraram em confronto, com um lado a atirar pedras e objectos metálicos, e o outro a responder com balas de borracha, gás lacrimogéneo e, pela primeira vez, com canhões de água.

Na zona onde os confrontos foram mais intensos, na Laietana, algumas pessoas cumprimentava nesta manhã a polícia, relata o enviado do PÚBLICO, João Ruela Ribeiro - houve quem oferecesse flores e alimentos aos agentes. E um dos que quis ir cumprimentar os agentes foi Manuel Valls, o antigo primeiro-ministro francês que é agora político na Catalunha, tendo sido eleito para a Assembleia Municipal de Barcelona (candidatou-se a presidente da câmara com o apoio do Cidadãos, mas perdeu). 

Antes dos confrontos da noite, mais de meio milhão de pessoas manifestaram-se pacificamente em Barcelona, quando se juntaram cinco marchas contra as sentenças aplicadas aos dirigentes independentistas que participaram no referendo de 2017.

Os protestos e a violência começaram na segunda-feira em toda a Catalunha, mas sobretudo em Barcelona, na segunda-feira, mal foi conhecida a sentença que condenou os independentistas catalães a penas entre os nove e os 13 anos de cadeia.