Crónica

A coragem de ser gaga

Joacine fazia parte de um pequeno grupo que não dizia “ámen” a tudo o que eu proferia.

Foto
Nuno Ferreira Santos

Cinco dias de ausência e quando chego a casa sou atropelada:

— Ó mãe, como é que nunca nos disseste que a Joacine é gaga?

— Como é que vocês sabem?

— Esteve no Ricardo.

“No Ricardo” é o programa Gente Que não Sabe Estar, por onde passaram tantos candidatos e políticos nos últimos tempos para conversar com Ricardo Araújo Pereira, na TVI.

— Que engraçado! A Joacine e o Ricardo nem sabem que já se tinham cruzado antes na vida, foi no nosso casamento... Sabiam que o padre Tolentino vai ser ordenado cardeal

— Ó mãe, isso agora não interessa nada! Como é que nunca nos disseste que é gaga?

A pergunta intriga-me. O que lhes terei dito sobre a então candidata do Livre, hoje deputada eleita à Assembleia da República? Conheci-a há mais de 20 anos, era ela adolescente e dei-lhe catequese. Quando a vi nos cartazes, comentei-o com os meus filhos e disse-lhes que então Joacine tinha longas tranças e que já era alta e bonita como é agora. Mantém os mesmos olhos curiosos, mas também desafiadores.

Ser cristão não é fácil e assimilar algumas “verdades religiosas” também não, sobretudo quando se é adolescente, quando se quer saber tudo e Joacine fazia parte de um pequeno grupo que não dizia “ámen” a tudo o que eu proferia. Então, sentada na última fila, olhava-me com um ar sério e perguntava. Sim, gaguejava. Sim, ao princípio, havia um ou outro que esboçava um sorriso, mas a verdade é que todos a respeitavam, porque ela era frontal e a gaguez nunca a impediu de intervir. Nem sempre ficava convencida com a resposta que o Evangelho, o Catecismo ou a Igreja davam e isso sempre me deu uma certa alegria, porque é tão importante sermos desafiados e confirmarmos, assim, a nossa fé.

São estas memórias que recapitulo frente aos meus filhos, ainda mal pousei a mala de viagem.

– Mas por que é que nunca disseste que é gaga? — insistem.

– Porque não é importante. O que é que queriam que vos dissesse: “A Joacine é uma jovem guineense gaga”? É isso que caracteriza uma pessoa, faz assim tanta diferença? — digo, começando a ficar exasperada.

— Faz, quando essa pessoa está a candidatar-se ao Parlamento respondem-me de imediato.

— Disse-vos o que era importante: era uma miúda inteligente e perguntadora. Não é isso que importa?

Durante as semanas seguintes debatemos a importância de todos à boa maneira bíblica: cegos, surdos e paralíticos estarem representados na polis, gagos incluídos. Se o Parlamento se adaptou às cadeiras de rodas, por que não há-de adaptar-se a quem gagueja? Está-se assim a abrir um precedente tão grande? O que é mais importante, a gaguez ou o pensamento?, insiste o pai. Respondem-nos que a retórica é importante na ágora

— O que diferencia o Churchill, o Obama ou o Costa? Não são os seus discursos? — insistem.

— Diz que o Aristóteles era gago... — respondo.

— Não havia rádio nem televisão... — exclamam.

— E o pai de Isabel II... — atalho.

— Não havia redes sociais e essas são horríveis, destroem uma pessoa. Não percebo como é que o partido achou boa ideia escolher a Joacine para cabeça de lista. Não sabiam que ia ser trucidada pelas redes sociais? — comentam. 

Num destes dias, ao jantar, comentamos os memes, gifs e quejandos que nos passam pelos olhos. Para onde vai a humanidade? O silêncio é quebrado com a informação de que há uma petição para impedir a tomada de posse de Joacine Katar Moreira e que já tem mais de 17 mil assinaturas. Não é porque é gaga, mas por alegada falta de patriotismo. Não tem fundamento jurídico, digo. 

— É uma grande falta de respeito para com ela e para com quem votou nela — reagem, zangados.

Quem votou sabia que Joacine é gaga e este é também um statement político, diz o pai. Eles torcem o nariz. Abominam os ataques a que está a ser sujeita, mas não têm a certeza de que tenha sido boa ideia ser a cabeça de lista do Livre. Sinto pena, confesso, e pergunto-me como tem coragem para se sujeitar aos ataques. Onde vai buscar a sua força? 

É essa a pergunta que faço a Joacine, numa troca de mensagens. “Penso sempre que não é sobre mim, mas sobre aquilo que represento.” E é ela que me descansa: “Bárbara, [deixa-me] dizer-te, para reduzir a agonia, que também não ando cem metros sem receber abraços e palavras de afecto.” Que bom, Joacine.