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Nina Franco quer mostrar o que une as mulheres (e livrar-nos do patriarcado)

Mulheres entrelaçadas em fios de agressões. Um altar erguido para aquelas que foram assassinadas. Linhas vermelhas que tecem cabides, os mesmos usados ao longo de décadas para abortos clandestinos. A exposição Sobre(viver), da brasileira Nina Franco, quer sussurrar histórias perante um mundo que grita violência.

As fotografias ganham textura com fios de lã que transbordam dos corpos retratados. Os emaranhados em tons de vermelho são pontuados por pregos que marcam as chagas da violência contra as mulheres, “crucificadas o tempo todo”. As linhas cruzam-se, “emboladas”, mostrando o ciclo de violências vividas. Será sangue? Uma representação do “sagrado feminino”, propõe a artista Nina Franco. No sábado, 19 de Outubro, a fotógrafa brasileira, afrolatina, inaugura a exposição Sobre(viver), na Galeria Paulo Nunes, em Vila Franca de Xira. A sua primeira exposição em Portugal reúne obras como a série Ciclo de Sobrevivência, Instituição sagrada e Clandestina.

Os fios vermelhos que tecem as histórias das mulheres estão por todo o lado. Historicamente, as mulheres pobres “sempre foram costureiras”, conta a artista, que elege a linha como símbolo do feminino — das mulheres pobres, anónimas. “O que junta a história de todas as mulheres é a violência, seja ela social, de género, de classe de raça”, define. Entre os quadros cheios de camadas surge um poema, como um suspiro. “Quisera ser livre como uma esfera/ E circular por aí”, lêem-se nas paredes as palavras de Stella Arbizu. Descreve Nina: “A gente tem esse ‘banho de sangue’, e aí vem o poema, para dizer” — interrompe para um longo suspiro — “calma, vamos continuar.”

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Sobre(viver) sussurra histórias perante um mundo que grita violência. Nina Franco decidiu trazer também para a arte a sua própria experiência de violência e abuso, tornar visível o pessoal. “Foi a primeira vez que tive tanta dificuldade de conseguir desenvolver o trabalho. Às vezes estava no meu estúdio e tinha várias crises de ansiedade. Foi um trabalho em que coloquei realmente toda a minha dor”, conta. Foi, por isso, também catarse: “Peguei a dor, coloquei e falei, ‘pronto, agora não está mais em mim’. E aí eu compartilho com o mundo.”

A primeira exposição de Nina Franco em Portugal surge a convite do galerista Paulo Nunes, que se cruzou com a obra da artista numa feira de arte em Madrid, onde a fotógrafa apresentava uma versão em ponto pequeno de Clandestinas. Feito o convite, a primeira ideia foi reflectir sobre a violência contra mulheres a partir da caça às bruxas na Europa. E, apesar de as experiências pessoais da artista a terem levado a focar na violência nas relações, a opressão das instituições religiosas sobre as mulheres ainda é clara na exposição: nos véus que cobrem quadros e instalações, nos pregos que prendem os materiais como tule e fios de lã às fotografias, no altar erguido para as vítimas de feminicídio.

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Aqui, no meio de um quarto de casal — um ambiente de amor tornado de morte pela violência de género —, Nina Franco escreveu os nomes de 200 mulheres mortas pelos seus companheiros nos últimos anos, no Brasil e em Portugal. Permeando, a vermelho: “... E livrai-nos do patriarcado”. Nascida no Rio de Janeiro, criada pela mãe e pela avó numa família onde identidades queer e religiões de matriz africana eram parte do quotidiano, não tem medo de desafiar instituições, não apenas a Igreja, mas o próprio conceito binário de mulher. “Em todo o meu trabalho, quando falo de ser mulher, estou falando além.” Prefere, antes, falar no plural: nas mulheres brancas e lésbicas, “que sofrem um tipo de violência”, as mulheres negras e lésbicas, ou negras e pobres, as mulheres trans, as pessoas não binárias. “Enfim, são várias mulheres.”

Vidas negras “só importam se falarem inglês”

Circular pela arte de Nina Franco não se limita à contemplação. O sofá de onde se pode observar a exposição é também coberto com um véu, interpelando o espectador. “Sento ou não sento? É para fazer o quê? Em briga de marido e mulher não se mete a colher ou é de meter a colher, sim? Qual é o seu papel nisso tudo?”, questiona a autora. 

Ao evocar as mulheres mortas em abortos à margem da lei, Nina Franco desperta a consciência de que há lutas ainda não ultrapassadas em outras partes do mundo que muitos países ocidentais estão a ignorar. Enquanto em Portugal a interrupção voluntária da gravidez por opção da mulher já é legal, ainda é interdita a mulheres por todo o mundo. “Enquanto você está aqui de boa, a gente está morrendo lá.”

A fotógrafa fala em outras formas de solidariedade que ainda encontra, maioritariamente, na própria comunidade: a exposição em Portugal só foi possível com o apoio de mulheres latinas, as únicas que responderam ao apelo nas redes sociais para arrecadar dinheiro. “Aí a gente vê quem é que quer que a gente chegue lá.”

Nina Franco veio para a Europa em 2011, quando se mudou para Dublin. Passou pela Grécia e vive hoje em Londres. No Rio de Janeiro, onde nasceu, envolveu-se com movimentos sociais desde a adolescência, mas conta que foi apenas fora do Brasil que sentiu realmente o peso do racismo — e se reconheceu “politicamente” como mulher negra. “Oficialmente, no meu documento está escrito que sou parda”, descreve, recordando que nunca foi chamada de negra no Brasil — “sempre de mulata, parda, moreninha”. A questão do “colorismo”, contudo, colocava-se de forma completamente diferente na Europa. “Assim que me mudei para Dublin entendi esse corpo aqui como um corpo negro, latino, imigrante”, explica.

Partilha ainda a dificuldade de falar das lutas da América Latina no contexto europeu. Quando se envolveu com movimentos sociais em Londres, “ninguém sabia o que estava a acontecer no Brasil”, lamenta. Quando Marielle Franco foi assassinada, contava pelos dedos os ingleses que viu no protesto à frente da embaixada: “Black Lives Matter only if they speak English..” Ou, em português: “As vidas negras só importam se falarem inglês.”