Sam The Kid: “E se a minha música fosse tocada com orquestra?”

Foi a andar de carro que o rapper português teve a ideia de um espectáculo de hip-hop orquestral. Dez anos depois do último concerto em nome próprio, ei-lo nos Coliseus de Lisboa e do Porto para cumprir o desejo.

Sam the Kid
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Nuno Ferreira Santos

Que existe expectativa da parte do público é inegável. O concerto desta sexta-feira no Coliseu dos Recreios de Lisboa esgotou em quatro dias, e o do Porto, marcado para 8 de Novembro, está quase. E da parte do rapper, músico e produtor? “Estou motivado e tranquilo”, diz-nos Samuel Mira, ou seja, Sam The Kid, 40 anos, que já não dá um concerto em nome próprio há uma década. “Tento não me colocar pressão e ficar inquieto, até porque, à minha volta, os Orelha Negra, a produção e a orquestra têm gerado um ambiente muito bom. Existe boa vibração. Não há qualquer tensão.”

Ainda assim, quando subir ao palco esta noite, Sam The Kid não evitará o nervoso miudinho. Afinal, falamos daquele que para muitos é o rapper mais credível e respeitado do país. Há 12 anos, quando editou o álbum Pratica(mente), tinha Portugal a seus pés. Os pedidos de colaboração abundavam e na digressão que se seguiu mostrou-se um performer imparável, acompanhado por aqueles que viriam a ser os seus companheiros nos Orelha Negra. Depois, nunca tendo deixado de laborar, remeteu-se a um papel mais discreto, sendo apenas um dos Orelha Negra, abraçando projectos (dos Mundo Segundo aos Classe Crua), prosseguindo as suas cooperações ou fomentando a TV Chelas.

No ano passado, quando o entrevistámos a pretexto do regresso aos originais com o tema Sendo assim e a compilação Mechelas, já era visível que a vontade de voltar aos palcos em nome próprio estava lá. Acontece agora, em dois concertos especiais, acompanhado por cúmplices de sempre (João Gomes, Francisco Rebelo, DJ Cruzfader, Fred Pinto Ferreira, ou seja, os companheiros dos Orelha Negra), alguns convidados vocais e, a grande novidade, uma orquestra de 24 elementos conduzida pelo maestro Pedro Moreira. “A orquestra acaba por ser o ponto de partida e o fio condutor deste regresso em nome próprio”, confessa ao PÚBLICO. A ideia surgiu-lhe enquanto conduzia e ouvia a sua última canção no carro.

“Foi aí que comecei a divagar e a ter ideias, imaginando como seria se aquela música fosse tocada por uma orquestra e eu desse um concerto com ela”, conta, acrescentando que, num segundo momento, outro cenário tomou forma na sua mente. “Comecei a pensar que música do meu repertório gostaria de ouvir com orquestra, e numa primeira abordagem a opção era óbvia: iria escolher temas que já contêm elementos orquestrais por via dos samples. A orquestra iria reforçar essa dimensão. Mas depois pensei numa segunda abordagem: músicas que não têm elementos orquestrais, mas que poderia ser interessante virem a ter. E foi assim que tudo começou.”

Do alinhamento constarão temas dos álbuns Entre(tanto), de 1999, Sobre(tudo), de 2002, e Pratica(mente), de 2006. De fora ficará apenas o álbum de temas instrumentais, Beats Vol.1 – Amor, de 2002. Não haverá temas novos, mas uma mão cheia de canções terá aqui a sua estreia ao vivo. “Vou a todos os discos e haverá temas, como Hereditário, que nunca toquei em concertos e que agora abordarei, e também um ou outro tema dos Orelha Negra.” A razão para esta última opção é fácil de descortinar. “É uma situação bonita”, caracteriza ele. “Da última vez que me apresentei em palco em nome próprio esta banda e estes músicos já existiam desta forma, mas não se chamavam Orelha Negra. Aliás, acabámos por projectar tudo depois, como consequência dos concertos.”

E depois destes dois concertos, o que se seguirá? Virá aí um novo álbum de originais? “Não estou ansioso com nada”, responde Sam The Kid, acrescentando que os dois espectáculos servirão também para aquilatar se está totalmente confortável com um eventual regresso ao papel de liderança. “Está tudo em aberto”, afirma, adiantando que os últimos anos têm servido também para trabalhar elementos que vão “da escrita às respirações vocais ou à abordagem à voz”, que até então não tinham a sua atenção exclusiva.

“Há sempre espaço para novas aprendizagens”, diz. É até possível que este formato com a orquestra se venha a repetir excepcionalmente por mais algumas datas. Depende de várias circunstâncias. Agendas. Orçamentos. Disposições. “Não estou fechado numa redoma e quero mesmo desfrutar deste momento”, sublinha. “É um privilégio apresentar-me neste formato.”