Opinião

Lutas climáticas e associativismo “pós-político”

Esperemos que o grito da geração de Greta Thunberg seja capaz de arrancar a apatia atualmente reinante no campo das lutas académicas.

A nova vaga de protestos em torno das lutas climáticas sinaliza uma potencial viragem geracional. Atendendo às tendências mais recentes de transformação do mundo, estes sinais só podem ser vistos como uma possível promessa de inversão no atual curso dos acontecimentos a nível sociopolítico na escala global. Recentes episódios como a controvérsia em volta da intervenção de Greta Thunberg na ONU, mas sobretudo a crescente amplitude das manifestações da “Greve Climática” requerem novos questionamentos não só em torno do futuro do planeta mas também a propósito da própria noção de política e de como ela se prende com tudo o que hoje preocupa as pessoas e a humanidade no seu conjunto.

A história da era moderna ensina-nos que as subjetividades e comportamentos intergeracionais oscilam entre ciclos de maior adesão ao statu quo e ciclos de maior rebelião contra a ordem vigente. Olhando um pouco para trás, vemos diferentes dinâmicas a alternar-se nas lutas sociais, inclusive imprimindo-lhes um sentido mais politizado em certos momentos, menos politizado noutros momentos, mais materialista ou mais pós-materialista. Ao longo da segunda metade do século passado alternaram-se períodos marcados por enérgicos movimentos rebeldes com outros em que os comportamentos sociais se mostraram em plena sintonia com o poder dominante: ativismo versus conformismo, radicalismo versus consumismo, coletivismo versus individualismo. A própria presença da componente ideológica evoluiu entre fases de intensa disputa para – como nas últimas décadas – um alegado “fim das ideologias”, ainda que esse “fim” funcione como uma das mais poderosas ideologias.

Entenda-se aqui o conceito de política enquanto “pratica imanente dirigida a questionar uma dada ordem” (H. Arendt) ou, por outras palavras, a política está para além das instituições, exprime o sentido da ação e das subjetividades que interpelam o poder e o sistema, obrigando-o a alterar as assimetrias e o estado agónico de importantes setores da sociedade. É este o sentido da política que hoje parece estar a reemergir a propósito das lutas climáticas, numa era que muitos classificam de “pós-democracia”. Nem a “Geração Y” nem os “Millenials” nem, muito menos, o atual dirigismo associativo do ensino superior, evidenciam nos seus modelos de participação um verdadeiro ativismo no sentido político do termo.

A questão climática tem animado nos últimos tempos inúmeras discussões no campo académico e na opinião pública. Não é por ser um tema “da moda”, mas sim porque está a ganhar contornos de um problema urgente e assustador, porque está a acontecer agora, e porque cada vez mais gente, em especial os jovens, ganham consciência da catástrofe em curso. A ameaça ecológica não é, portanto, nova, e inclusive boa parte dos porta-vozes das causas ambientais são, de certo modo, corresponsáveis pela sua “despolitização”. E aqui há um certo paralelismo entre o ambientalismo e o associativismo estudantil, quanto às suas diferentes sensibilidades e dinâmicas cíclicas.

Há décadas que políticos de topo, líderes mundiais e até grandes magnatas vêm assumindo posições públicas alertando contra o aquecimento global, o excesso de emissões de carbono e as alterações climáticas. Mas se o problema, em vez de ser contido, se vem agravando com uma intensidade tão inquietante, é preciso discutir não apenas a questão do ambiente de per se mas o próprio discurso dominante em torno do fenómeno. Diversos académicos e ativistas (S. Žižek, U. Bech, E. Swyngedouw, T. Skocpol, D. De La Porta, W. Streeck ou B.S. Santos, entre outros), num registo mais radical, quiçá mais realista, posicionam-se e denunciam essa ecologia ‘soft’ e ‘institucional’. Contestam a linguagem (tecnicista ou naturalista) em torno do clima como assumindo o papel de “cavalo de Tróia” da pós-política, no sentido em que olha a crise climática como um dispositivo tecno-gestionário fundado em amplos consensos. Ou seja, a abordagem do “capitalismo verde”, ao exprimir uma linguagem ecológica dirigida a todos, apela a uma espécie de irmandade global, uma ecologia ecuménica e sem conflito, que exclui a visão política do problema, contribuindo para naturalizar a catástrofe iminente e, desse modo, “paralisar” as suas primeiras vítimas. Ao afastar a dissensão exclui-se a conexão com o sistema económico capitalista e a sua crítica. Se não somos iguais nas condições económicas, nos flagelos da guerra e da doença – se as desigualdades são flagrantes em todos os domínios da vida –, também as tragédias e riscos naturais estão longe de atingir a todos nas mesmas proporções. É para isto que as correntes do eco-socialismo alertam: é urgente reverter a “ambientalização da política” numa nova “politização do ambiente”.

Ao personificar uma nova postura de indignação, com um discurso de crítica radical à atual liderança do mundo, Greta Trunberg é muito mais do que ela própria. Por isso, não adianta centrar a atenção apenas na personagem ou mesmo numa suposta “ingenuidade” dos atuais manifestantes. É o que ela simboliza no atual panorama e o volume do movimento que incomodam o sistema e os setores nele mais comodamente instalados. É a crescente adesão de milhões de adolescentes em todo o mundo a encher ruas e praças nas mais diversas latitudes que, com um sentimento de revolta dirigida contra o cinismo da atual elite – e que representa muito mais do que declarações pomposas –, está a fortalecer as manifestações de massas, da massa que melhor representa o futuro (as crianças e adolescentes). É este emergente turbilhão de protestos, com a sua linguagem naif e os seus posts no Instagram, que pode abanar as consciências e contaminar setores adormecidos da sociedade, nomeadamente a atual geração universitária, que anda entretida a reproduzir clichés, a acotovelar-se no palco mediático, nos bastidores partidários e a trabalhar para alcançar lugares sonantes na hierarquia do establishment.

No caso do movimento estudantil, as oscilações entre a pulsão rebelde e a indiferença individualista e resignada têm evidenciado cambiantes de matizes semelhantes, embora as últimas décadas sejam marcadas sobretudo pelo apaziguamento, por fracas lideranças e estratégias de ação em que os objetivos individuais parecem sobrepor-se a qualquer visão sistémica dos problemas geracionais que lhes bloqueiam o futuro. A geração universitária que hoje se debate contra a precariedade – é claro que não se deve generalizar, mas é essa a mentalidade que prevalece – surge (tristemente) bem retratada na fórmula sarcástica e caricatural com que os autores do Jovem Conservador de Direita a descrevem:     

“Greves pelo clima? É assim que querem arranjar empregos no futuro? Sabem qual é a melhor competência que o mercado procura? Capacidade de adaptação. Eles querem jovens que aceitem a realidade como ela é e que se adaptem a ela. Não querem jovens que querem mudar as coisas. Um bom colaborador não faz greves para mudar as coisas. Olha para a situação e procura ser o mais produtivo possível em função dessa situação. É por isso que vocês vão ser praxados quando chegarem à universidade. Os vossos colegas da praxe vão arrancar a rebeldia de dentro de vocês aos gritos e tornar-vos preparados para, com sorte, serem colaboradores das empresas de sucesso contra as quais protestaram ontem.” (in PÚBLICO, 28/09/2019, “Mensagem para Greta Mortágua e os jovens ridículos que se preocupam com o ambiente”).

É a meu ver esta postura – submersa entre uma geral desinformação sociopolítica, a absorção na superfície do consumismo e uma obsessão pela carreira com base em lealdades e bajulações feitas à medida – que precisa de ser travada e invertida com urgência. Esperemos que o grito da geração de Greta Thunberg seja capaz de arrancar a apatia atualmente reinante no campo das lutas académicas, em vez de sucumbir ao poder alienante da cultura praxista e do atual associativismo “pós-político”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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