Oposição do DUP é o maior (mas não o único) obstáculo ao “Brexit” de Johnson

Governo britânico enfrenta revoltas em várias frentes do Parlamento, depois de unionistas norte-irlandeses rejeitarem acordo com a UE. Aprovação em Westminster dependente dos deputados rebeldes das duas bancadas.

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Nigel Dodds e Arlene Foster, figuras máximas do DUP Reuters/CLODAGH KILCOYNE

Dizer que fechar um novo acordo do “Brexit” com a União Europeia era a tarefa mais fácil que Boris Johnson tinha em mãos pode parecer exagerado, mas tendo em conta o que o espera no Parlamento britânico, no próximo sábado, talvez a avaliação até seja a mais acertada. O feito do primeiro-ministro, carimbado pelos 27 esta quinta-feira em Bruxelas, corre sérios riscos de se transformar em fracasso, por falta de apoios em Westminster, principalmente depois de o Partido Democrático Unionista da Irlanda do Norte (DUP), seu aliado parlamentar, ter anunciado a oposição ao acordo.

“[O acordo] não é benéfico para o bem-estar económico da Irlanda do Norte e compromete a integridade territorial do Reino Unido. Não podemos aceitar o que nos está a ser proposto sobre questões aduaneiras e outros assuntos”, lamentaram os unionistas, muitos críticos da solução encontrada por Johnson, que, apesar de incluir a Irlanda do Norte numa união aduaneira com o Reino Unido – como sempre exigiram –, mantém o território alinhado com as regras europeias para as exportações e importações e cria uma “fronteira” no Mar da Irlanda – que sempre rejeitaram.

Para além disso, segundo o texto aprovado em Conselho Europeu, o DUP perde direito de veto quando, de quatro em quatro anos, o parlamento da Irlanda do Norte se reunir para decidir, por maioria simples, se mantém ou reverte a solução – disposição que os unionistas dizem pôr em causa os acordos de paz de Sexta-Feira Santa (1998).

“A votação a estas propostas, no sábado, no Parlamento, será apenas o início de um longo processo até à aprovação de um qualquer acordo de saída na Câmara dos Comuns”, garantiu o DUP, forçado a emitir vários comunicados ao longo do dia para responder às celebrações em Bruxelas.

O resultado prático da posição do DUP para as contas do Governo é a perda dos votos dos dez deputados unionistas que durante os últimos dois anos permitiram ao Partido Conservador ter uma maioria na Câmara dos Comuns. Entretanto – e fruto de dissidências e expulsões várias – os tories perderam a sua maioria parlamentar, pelo que para aprovarem o acordo do “Brexit” precisam de votos como de água para beber.

Com apenas 260 votos garantidos do seu lado, são vários os grupos de deputados que Johnson terá de convencer para conseguir os cerca de 320 apoios necessários para triunfar onde Theresa May fracassou por três vezes. 

Até ao final da manhã desta quinta-feira, o foco do Governo estava nos 21 conservadores – que, por decisão do próprio primeiro-ministro há um mês, foram expulsos do grupo parlamentar por se oporem a uma saída sem acordo no dia 31 de Outubro – e em pouco mais de uma dezena de trabalhistas, brexiteers ou remainers, que mostraram interesse em aprovar o acordo.

Mas a tomada de posição do DUP pode por em causa a lealdade de vários elementos da facção hard-brexiteer do Partido Conservador, que, para além de serem profundamente unionistas, tomam a avaliação do acordo feita pelos ultraconservadores da Irlanda do Norte como fundamental para o seu sentido de voto. Entre os 80 eurocépticos que fizeram vida negra a May, cerca de um terço poderá ser influenciado pela decisão do DUP, acrescentando mais incerteza a uma votação já de si incerta.

Certo é que Partido Trabalhista, Liberais-Democratas e Partido Nacional Escocês, entre outros partidos da oposição, vão votar contra e forçar o Governo a cumprir a Lei Benn, que o obriga a pedir um adiamento do “Brexit” para se evitar uma saída sem acordo a 31 de Outubro.

Jeremy Corbyn até quer que Boris Johnson coloque o seu acordo a referendo, a par da permanência do Reino Unido na UE, mas rejeita um cenário em que o Labour dá luz verde ao acordo, no sábado, anexando uma emenda legislativa nesse sentido.

“O primeiro-ministro negociou um acordo ainda pior do que o de Theresa May”, criticou o líder trabalhista. “Este acordo não vai unir o país e deve ser rejeitado. A melhor forma de resolver a crise do ‘Brexit’ é voltar a consultar as pessoas”.