Um Alverca que quer fama após 15 anos de solidão

A envolvência do estádio do Alverca é um autêntico “labirinto”, de ruas estreitas e sentidos proibidos. E é isso que o clube da N10 quererá ser nesta quinta-feira (20h45): um labirinto para o Sporting na luta por uma vaga na quarta eliminatória da Taça de Portugal.

Rodrigo Fabri, na última derrota do Sporting em casa do Alverca (2001)
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Rodrigo Fabri, André Macanga e Cajú na última derrota do Sporting em casa do Alverca (2001) LUSA

São já 15 os anos de solidão do Futebol Clube de Alverca. 15 anos sem futebol de primeira. 15 anos sem defrontar um dos grandes do futebol nacional. 15 anos de um Alverca mais pequeno do que gostaria quem vive perto da Estrada Nacional 10. E o número 10 até é um acaso coerente: é que foram precisos mais de 10 anos para este clube do distrito de Lisboa voltar a poder dizer “já não sou um clube dos Distritais”.

Foi em 2004 que o Alverca se despediu da I Liga, foi em 2005 que disse “adeus” ao futebol – enjaulado numa profunda crise financeira – e foi em 2006, apenas um ano depois, que renasceu e recomeçou do zero. Mesmo do zero, na última divisão dos Distritais de Lisboa. Em profunda solidão, como se não fosse o clube que tinha tido, pouco antes do abismo, nomes como Deco, Mantorras, Ovchinnikov, Nuno Assis, Caneira, Peixe, Chiquinho Conde ou Ricardo Carvalho.

A subida foi lenta, já que apenas em 2018 o clube regressou aos campeonatos nacionais. Agora, está no topo da série D do Campeonato de Portugal, sem derrotas, a “morder os calcanhares” ao Olhanense, e em luta para regressar aos campeonatos profissionais. Um desígnio atestado pela recente venda da SAD – o ex-futebolista Artur Moraes faz parte dos investidores –, pela finalização de dois campos anexos ao complexo desportivo, o tão aguardado centro de formação, e pela criação de uma equipa B, a competir nos distritais.

É um Alverca a querer ser e parecer grande, novamente, e, para isso, pouco mais poderia pedir do que um “presente” no sorteio da Taça de Portugal: saiu o Sporting, para uma festa que, por ali, não se vê há 16 anos. A última vez foi em 2003, um jogo que Rochemback e Liedson resolveram para os “leões”, contrariando um golo de Torrão. Fernando Santos treinava o Sporting, José Couceiro orientava o Alverca. E a última derrota “leonina” em Alverca data de 2001. Mantorras e Veríssimo (adjunto de Bruno Lage) jogavam no Alverca, enquanto do lado contrário havia o Sporting de Schmeichel, Acosta ou João Pinto.

Nesta quinta-feira (20h45), a diferença entre as equipas é diferente de 2001 e 2003. O “vermelho e azulão” do Alverca tem, a seu favor, um campo de dimensões mais reduzidas do que aquelas a que está habituado o Sporting, mas, por outro lado, não tem, ao contrário de muitas outras equipas nesta ronda de Taça, a possibilidade de “oferecer” ao “gigante” as dificuldades de um relvado sintético. Ali, joga-se em relva natural.

Para o Alverca, este é um jogo que pode mudar vidas. “Jogar com o Sporting é sempre especial para os jogadores e também para a estrutura. A expectativa é muito grande e os jogadores sabem que é um jogo que pode mudar alguma coisa na vida deles. É uma oportunidade de ouro”, disse, o presidente do clube, Fernando Ogre, à Lusa.

Perto do Complexo Desportivo de Alverca, a envolvência é um autêntico “labirinto”, de ruas estreitas e sentidos proibidos. E é isso mesmo que quererá ser o clube da N10: um “labirinto” para o “leão” na luta por uma vaga na quarta eliminatória da Taça de Portugal.

Um Sporting incógnito para o Alverca

Se, para o Alverca, este é o jogo de uma vida – mas no qual estará sem qualquer pressão ou obrigação –, a noite desta quinta-feira traz, para o Sporting, pelo amplo favoritismo, mais a perder do que a ganhar.

Coates e Wendel não vão a jogo, por terem chegado mais tarde das selecções, mas os “leões” são evidentemente favoritos, defrontando uma equipa que joga duas divisões abaixo. Ainda assim, Emanuel Ferro, treinador-adjunto do Sporting, relembrou, na antevisão da partida, que a dinâmica de vitórias do Alverca (sete nos últimos oitos jogos) faz esfumar-se a diferença entre patamares competitivos.

“O Alverca é uma equipa complicada, bem organizada e bem trabalhada. Vem com uma dinâmica grande de vitórias, o que torna indiferente o escalão de onde vem”, argumentou. E abordou, ainda, o crescimento dos “leões” na paragem para os jogos internacionais: “Tivemos duas semanas para trabalhar dinâmicas que fazem parte do nosso jogo e da nossa equipa. Os jogadores estão, progressivamente, a ficar alinhados com os nossos processos e, apesar das ausências nas selecções, foram duas semanas relevantes para a construção do nosso jogo”.

Já do Alverca saiu uma visão curiosa acerca desta partida. Geralmente, as equipas não-profissinais conhecem melhor o “gigante” que vão defrontar do que o contrário. Desta vez, o treinador Vasco Matos considera ser diferente. “O Sporting conhece muito melhor o Alverca do que nós conhecemos o Sporting. Fica difícil perceber as novas ideias do Silas, não tivemos praticamente nenhuma possibilidade de estudar isso”, defendeu, antes de prometer: “A melhor forma de defender é tirar a bola ao adversário. Com o Sporting, não devemos ter tanta bola quanto queremos, mas acho que vamos conseguir criar-lhes alguns momentos de aflição”.