“Marchas pela liberdade” começaram pacíficas, mas Catalunha prepara-se para nova noite de tensão

As marchas contra as sentenças dos dirigentes independentistas vão culminar sexta-feira, dia em que foi decretada greve-geral.

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Milhares de pessoas iniciaram esta quarta-feira várias marchas simultâneas a partir de cidades catalãs em protesto contra as condenações de 12 dirigentes independentistas pelo Supremo Tribunal de Espanha que consideram “presos políticos”.

Às primeiras horas da manhã começaram a sair os primeiros grupos das cidades de Girona, Vic, Berga, Tàrrega e Tarragona, que têm como destino Barcelona, onde pretendem chegar na sexta-feira, para quando está marcada uma greve geral. A primeira jornada da marcha decorreu de forma pacífica. Em alguns momentos, o silêncio dos manifestantes era quebrado apenas por gritos de “independência” ou “liberdade”, segundo o El País.

O momento de maior tensão aconteceu quando meia centena de pessoas bloquearam a porta principal de um centro cultural em Barcelona, onde se encontravam o presidente do Cidadãos, Albert Rivera, e a deputada Inés Arrimadas, que foram obrigados a sair com escolta policial. Também chegou a estar suspensa a circulação ferroviária numa linha regional que estava ocupada por manifestantes.

O presidente do governo catalão, Quim Torra, participou numa das marchas, mas recusou responder aos jornalistas. “O importante hoje é dar atenção à manifestação porque é o mais importante”, afirmou o mandatário.

Havia expectativa sobre as palavras de Torra depois de uma noite violenta na Catalunha. O Governo espanhol tinha-lhe exigido que manifestasse uma condenação clara dos actos de violência da véspera, mas o presidente do governo regional não o fez de imediato. Acabou por fazê-lo ao fim do dia, dizendo que “a violência não representa nem representará nunca” o movimento independentista catalão. 

A calma das marchas desta quarta-feira contrastou com o caos e a violência que se abateram na noite anterior sobre várias cidades catalãs. O que começou com um apelo lançado pela Assembleia Nacional Catalã (ANC) para que grupos se concentrassem em frente a sedes de delegações e representações do Governo espanhol na região depressa degenerou em violência.

Alguns manifestantes começaram a incendiar caixotes do lixo e a erguer barricadas, entrando em confronto com as unidades antimotim dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã. Em Barcelona, onde 40 mil pessoas se concentraram, os confrontos foram especialmente violentos, embora se tenham estendido a toda a Catalunha.

Ao todo foram detidas 51 pessoas e mais de 120 tiveram de receber cuidados médicos, incluindo 65 membros das forças de segurança, segundo o Sistema de Emergências Médicas.

Ao início da noite desta quarta-feira, estavam a começar algumas marchas e centenas de pessoas estavam a juntar-se no centro de Barcelona. A circulação tinha sido suspensa na Gran Via. Os jornais de Barcelona dizem que a polícia está preparada para mais uma noite de grande tensão.

Em conferência de imprensa, o conselheiro do Interior da Generalitat, Miquel Buch, lamentou os episódios de violência, que atribuiu a “grupos de agitadores” entre os manifestantes e referiu a necessidade de se isolarem esses grupos. “Não podemos permitir que incidentes não desejados se sobreponham às centenas de pessoas que se manifestaram com civismo”, afirmou Buch.

Antecipando mais distúrbios violentos nos próximos dias, o Governo de Madrid decidiu enviar mais 200 elementos das forças antimotim para a Catalunha.

A perspectiva de que os protestos não terminem a curto prazo ficou também patente na proposta da Liga Espanhola de futebol de se mudar o jogo entre o Barcelona e o Real Madrid, marcado para dia 26, para a capital espanhola. Esse dia coincide com uma grande manifestação convocada pelos grupos independentistas, e as autoridades desportivas receiam que o jogo possa acrescentar um foco de distúrbios adicional.

Divisão na Catalunha

Apesar de condenar as sentenças proferidas pelo Supremo no início da semana – que variam entre os 13 e os nove anos de prisão para nove dos dirigentes acusados de sedição – o governo catalão tem enfrentado divisões sobre que caminho seguir. Esta quinta-feira, o parlamento regional vai reunir em sessão extraordinária com o objectivo de se aprovar uma resolução conjunta de repúdio às condenações.

No entanto, o sector independentista divide-se entre aqueles que querem uma resposta dura e ruptura institucional com Madrid, com a possibilidade de abrir portas à aplicação do artigo 155.º, e os partidários de uma abordagem menos radical, privilegiando a pressão popular, mas sem arriscar a suspensão da autonomia.

Essa clivagem ficou patente esta quarta-feira quando a Candidatura de Unidade Popular (CUP) exigiu a demissão de Miquel Buch, depois de o conselheiro ter elogiado a acção dos Mossos d’Esquadra.

A crise na Catalunha foi reacesa pelas sentenças do Supremo Tribunal que condenou 12 responsáveis independentistas, acusados de sedição pelo seu papel na organização do referendo de 1 de Outubro de 2017. Assim que a decisão dos juízes do Supremo foi conhecida, as ruas de várias cidades catalãs encheram-se de protestos. Entre os defensores da independência, os condenados são “presos políticos” e é exigida a sua libertação. Para os seus opositores, tratam-se de criminosos que desafiaram a lei e puseram em causa a integridade do Estado espanhol.

Em Madrid, o chefe do Governo, Pedro Sánchez, recebeu os líderes dos partidos com assento parlamentar para discutir a situação na Catalunha. Do líder do Partido Popular (PP), Pablo Casado, Sánchez ouviu o pedido para que seja enviado ao governo regional um requerimento para que cumpra com as suas obrigações. Trata-se do passo formal prévio à aplicação do artigo 155.º da Constituição, que suspende a autonomia da Catalunha. A medida foi aplicada pelo Governo anterior, do PP, após a declaração unilateral de independência em Outubro de 2017.

Neste momento, o Governo não vê razões para invocar o artigo 155.º, nem a lei de Segurança Nacional, que iria substituir a chefia das forças de segurança na Catalunha, actualmente desempenhada pelos Mossos, por uma unidade nacional. No entanto, a mensagem difundida a partir da Moncloa é a de que nenhum cenário está fora da mesa.